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sexta-feira, 4 junho 2004
Rio Ave - Balanço da Época
Categoria: 03/04 Balanço da SuperLiga Categoria: Rio Ave
7º classificado da SuperLiga, o Rio Ave foi uma das surpresas maiores da SuperLiga 2003/2004. Uma das primeiras fórmulas do sucesso vilacondense começou na pré-época: a base da formação que venceu a Liga de Honra 2002/2003 manteve-se, assim como o técnico Carlos Brito, obreiro principal da subida e da excelente campanha na época que agora terminou, que também se mexeu muito bem no 'mercado', apesar de contar com um dos dois orçamentos mais baixos da SuperLiga. Um mau início de campeonato, com a primeira vitória a surgir à 7ª jornada, chegou a fazer antever o pior, só que essa jornada marcou o percurso vitorioso da equipa: em seis meses o Rio Ave só perdeu 3 jogos, nas deslocações às Antas e à Luz e, em casa, com alguma surpresa, frente ao Alverca. Assim, do 18º lugar à 6ª jornada, a formação vilacondense acabou por chegar, a meio da 2ª volta, ao 6º lugar, posição surpreendente até para o rioavista mais crente. Depois de se saber que a equipa não poderia ir à Europa, o rendimento, apenas fora de casa, acabou por quebrar, mas, mesmo assim, o 7º lugar foi alcançado, com os mesmos pontos e resultados no confronto directo do Marítimo, e até com melhor 'goal-average' do que os madeirenses. Só que uma alteração regulamentar, fez o Rio Ave perder o 6º posto, pelo facto do Marítimo ter marcado um golo em Vila do Conde - curiosamente, no último minuto desse jogo, após a formação vilacondense ter falhado uma clamorosa oportunidade para fazer o 3-0 no minuto anterior. O futebol de ataque e tecnicista foi uma das imagens de uma equipa que funcionou como um conjunto, mas onde sobressaiu Evandro, um jogador com uma média de 15 golos por época, nos 4 anos que leva no futebol português.

Avé Brito! . Carlos Brito realizou mais uma temporada notável ao serviço do Rio Ave: depois de ter ido buscar o clube ao 13º lugar da Liga de Honra e o ter conduzido à SuperLiga, com o título de campeão da Liga de Honra, conseguiu conduzir a equipa de Vila do Conde ao 7º lugar da SuperLiga, que acabou com os mesmos pontos do 6º. Melhor era (praticamente) impossível, sobretudo quando se está na presença de um dos clubes com menos condições de trabalho e com orçamento mais baixo da SuperLiga. Mantida a estrutura base dos campeões da Honra, Brito com poucos meios para reforços de peso, apostou em jogadores desconhecidos (Mora, Junas Naciri, Zé Gomes e Danielson) e outros com carreiras em 'quebra', como os brasileiros Jaime Júnior e Paulo César, que vinham de épocas decepcionantes em Guimarães. Mesmo sem um ponta de lança goleador, e sem reforços em Setembro e Dezembro/Janeiro, moldou uma equipa à sua imagem: em 4x3x3, virada para a frente e com um futebol bonito e tecnicista, suportada na velocidade dos avançados - não apenas em contra-ataque - e num sector defensivo, onde se engloba o meio campo mais recuado, extraordinariamente competente e regular. Carlos Brito, pouco dado aos holofotes e a entrevistas auto-elogiosas, continua um trabalho de monta, num ano em que a sua vida pessoal foi marcada pela trágica morte da sua mulher, que o impediu de saborear o seu êxito pessoal com a alegria que merecia.
A equipa . Mesmo com alguns destaques individuais - já lá iremos - a base do sucesso vilacondense passou pela construção de uma equipa, que se comportou como tal, e que apesar de já ter uma base construida, foi bem reforçada. O catalão Mora, perdido nos escalões secundários dos campeonatos espanhóis e portugueses, foi uma boa surpresa, apesar de um final de época abaixo do rendimento evidenciado a partir do momento que ganhou a titularidade, na 'vitória chave' sobre o Paços de Ferreira. A defesa de quatro jogadores, teve em Franco e Idalécio, dois centrais experientes, o seu eixo central, suportado pela surpresa Danielson, titular nos últimos jogos da prova. Nas laterais, se à direita a aposta foi na consistência defensiva de Zé Gomes ou Niquinha, à esquerda surgiu Miguelito, adaptado com grande sucesso ao lugar, quer em termos defensivos, quer ofensivos. O meio campo foi comandado por Mozer, trinco experiente, exímio na recuperação de bola e também a lançar jogo, que contou depois com o apoio de um ou dois jogadores: Niquinha, Vandinho e Junas Naciri, cada qual no seu período, foram o complemento perfeito do médio matosinhense. Jaime Júnior foi o 'mágico' de serviço, assumindo-se como o 'nº 10' da equipa, apesar de em alguns jogos, ter actuado descaído para a direita. Evandro, sempre a sair das alas para o meio, fez a diferença, ao contrário dos velozes Gama e Jacques, que realizaram temporadas abaixo das expectativas. Na frente do ataque, duas opções: Ronny van Es, avançado holandês, mais fixo, que não confirmou a veia goleadora do ano anterior ou Paulo César, avançado brasileiro, bastante móvel, que realizou uma segunda volta agradável, depois de uma primeira paupérrima.
O 'Cozinheiro' de golos . Evandro Escardalete realizou a sua melhor temporada de sempre no futebol português: 16 golos - 15 na SuperLiga, 1 na Taça de Portugal - e 8 assistências, provam a sua presença em mais de metade dos golos apontados pelo Rio Ave em 2003/2004, acabando por 'render' 15 pontos - pouco menos de 1/3 do elevado pecúlio conquistado pelo clube de Vila do Conde na SuperLiga. Forte fisicamente e com boa capacidade técnica, Evandro é um finalizador tremendo ao 2º poste, onde retira partido das suas diagonais desde as alas, finalizando com facilidade, quer com os pés, quer de cabeça. Em 4 anos em Vila do Conde, totaliza 56 golos, o que dá a média brilhante de 14 golos por época, fantástico para quem não é ponta de lança.
Talento 'made in' Caxinas . Há menos de 5 anos, José Miguel Organista Aguiar era um modesto ajudante de electricista, que tinha o sonho de um dia chegar à equipa principal do Rio Ave. Carlos Brito deu-lhe a oportunidade de profissionalização e lançou-o, com apenas 18 anos, num jogo frente ao Benfica, em Agosto de 1999. Assim surgiu Miguelito, na altura, médio ou médio ala esquerdo, mais um caxineiro na alta roda do futebol nacional, mas se tem a raça que caracterizou a 'escola' de André e Paulinho Santos, o jovem jogador tem predicados técnicos acima da média, como provou esta temporada, a da sua estreia como lateral esquerdo, posição que só conhecia episodicamente. Seguro defensivamente, apesar de relativamente baixo, o jovem jogador explorou como ninguém a ala esquerda, subindo bastantes vezes pelo flanco, explicando-se por aí o facto de ter sido, com 6 assistências para golo, o 2º jogador mais eficaz do plantel do Rio Ave nesse aspecto. E, se frente ao Sporting fez uma exibição espectacular, frente ao FC Porto apontou o seu único golo da temporada, na primeira vitória da história do Rio Ave, em casa, frente ao FC Porto. O 'salto' para um clube de maiores dimensões acontecerá em breve, e o seu técnico não se cansa de dizer que estamos na presença do melhor lateral esquerdo do futebol português.

Pouco ou nada a assinalar . Num ano sem episódios negativos, o que é facilmente suportado por uma temporada acima das expectativas mais optimistas, existiu o episódio da falta da pré inscrição para a UEFA - só que em Dezembro, o Rio Ave lutava para não descer, e apesar da situação parecer indiciar algum amadorismo, a verdade é que, na altura, quem acreditaria que o Rio Ave pudesse lutar por um lugar europeu? Referência, por fim, ao aspecto do Rio Ave Futebol Clube ser um dos poucos clubes sem página oficial. E como não há fome que não dê em fartura, acabaram por surgir 3 blogues, que 'agitaram' as águas, habitualmente, calmas. Um dos projectos, liderado por um conhecido jornalista (não-desportivo) da TSF, visava sobretudo o treinador Carlos Brito, um ódio antigo do sócio dois mil duzentos e cinco e nove, a 'capa' que escondeu a 'cara' do pior projecto da 'blogo(e)sfera' em 2003/2004. À 6ª jornada já se pedia a 'cabeça' do treinador, da mesma forma que, em 2000, o mesmo jornalista, nas páginas de 'O Jogo', após a descida do Rio Ave à Liga de Honra, culpabilizou, de forma cobarde e ridicula, Carlos Brito pela descida. No final da temporada, as portas encerram, numa altura em que o ódio - o mote do seu projecto - já era outro.

Sem reforços, sem ponta de lança goleador . A época de ouro do Rio Ave aconteceu sem um homem de área, que valesse golos e pontos. Evandro acabou por ser o 'matador' improvisado, pois Ronny van Es, um dos melhores marcadores da Liga de Honra em 2002/2003, acabou por apenas apontar 4 tentos, numa época muito inconstante, onde apesar da sua enorme capacidade de luta e de trabalho, revelou carências técnicas, por vezes, gritantes, para uma SuperLiga. Paulo César, que vinha de dois anos 'zero' em Guimarães, demorou a aparecer, e apesar de ter feito uma segunda volta positiva, actuando como unidade mais avançada, as suas características não são as de um homem de área. Carlos Brito, em Setembro e em Dezembro/Janeiro, queria mais um avançado, para jogar na área, entre os centrais. Os parcos recursos financeiros do Rio Ave não permitiram esse investimento, acabando por se verificar a velha máxima: 'quem não tem cão, caça com gato(s)'.
Publicado por rui malheiro às 08:55