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quinta-feira, 13 janeiro 2005
O Julgamento
Categoria: Col>> André Viana
A busca da verdade – de uma verdade – faz parte da condição de ser humano. Queremos heróis para louvar, queremos culpados para crucificar. A verdade não é imutável, não é absoluta, não é eterna. Muito menos no futebol, esse mundo cruel e assassino que despreza hoje os deuses de ontem. Escravo dos resultados e curto na memória, o desporto a que apelidam de rei só conhece, por norma, dois caminhos possíveis – o céu ou o inferno.
Como explicar, pois, que o FC Porto se encontre actualmente no purgatório? À espera de um juízo irrevogável, porque a metáfora do matar ou do morrer é a essência da modalidade, os dragões apresentam as alegações de uma defesa que procura escapar à insaciável ânsia de sangue de uma acusação que não admite leituras anteriores a 27 de Maio de 2004.
Perante uma multidão que sustenta simultaneamente os estatutos de juiz, de advogado de acusação e de testemunha, os réus levantam-se para dizer de sua justiça. O primeiro a fazê-lo é Jorge Nuno de Lima Pinto da Costa, indiciado por vários crimes de gestão danosa. Pede-se prisão perpétua pelo caso Del Neri, exige-se cadeira eléctrica relativamente ao processo Pedro Mendes e não se esquecem as acusações feitas pelos queixosos Rossato, Sérgio Conceição, Derlei e Carlos Alberto, entre muitos outros.
Ainda que alguns apelem à consideração de sucessos passados, os juízes são peremptórios ao considerá-los prescritos no âmbito do processo em curso e o veredicto final é, por isso mesmo, categórico – culpado. Todavia, o colectivo leva em conta a inexistência de antecedentes criminais e decreta pena suspensa para o réu, obrigado a trabalhos em prol da comunidade azul e branca.
Para já, Pinto da Costa está incumbido de construir uma equipa que seja, pelo menos, campeã nacional. Os jurados advertiram o líder da SAD portista, ameaçando-o com o regresso aos calabouços de Belzebu caso não se constatem mudanças comportamentais nos próximos meses.
Mais complicado o julgamento de Victor Fernández, recebido com uma monumental vaia e um manto de lenços brancos. As ferozes alegações da acusação intimam-no a responder por crimes de gestão danosa e negligência, ainda que a fase instrutória tenha sido favorável ao aragonês. Pedia-se suspensão de funções e prisão preventiva para o arguido mas o treinador mostrou-se disponível para colaborar com a Justiça ao derrotar o Chelsea e, mais tarde, o Once Caldas.
Primeira derrota para a acusação, que prosseguiu a recolha de provas. Citem-se as principais: medíocre terceiro lugar na Superliga com perda acumulada de doze pontos caseiros, exclusão da Taça de Portugal, derrota na Supertaça Europeia, associação criminosa com Ricardo Costa e César Peixoto, entre outros, com comprovados danos morais e pessoais para vários milhares de portistas.
Provas de peso que a defesa de Fernández tratou de refutar. Os advogados do espanhol alegam falta de tempo para trabalhar um plantel delineado por outrem, lamentam a onda de lesões e apelam à sapiência dos juízes para que se entenda como atenuante a impossibilidade de fazer alinhar um verdadeiro lateral-esquerdo e um extremo desportivamente válido. Sob protesto, a acusação rebate o argumento utilizado lembrando o caso Rossato.
A multidão exalta-se entre apupos ao arguido. Clama-se pela abertura da jaula dos leões, exige-se a condenação de Fernández a uma morte lenta e dolorosa, culminando no esquecimento e na irradiação do seu percurso desportivo. Todavia, entre este cenário de fúria e cólera distingue-se um juiz mais contido na emoção. Num rasgo de loucura, decreta o adiamento da leitura da sentença e oferece mais alguns dias ao treinador.
Nunca o termo liberdade condicional foi tão bem empregue – Fernández está, neste início de 2005, dependente de resultados. É essa a sua condição, perante a clausura temporária de leões famintos.
Publicado por andré viana às 21:31
Comentários
Assino por baixo.
Testemunha
Publicado por: CM em janeiro 14, 2005 11:32 AM
Certo, os resultados ditarão o veredicto.
Mas não me lembro de ver o fcp tão à deriva...
Publicado por: jcoelho em janeiro 14, 2005 12:43 PM
salvo lesões o caminho não é assim tão espinhoso:
trata-se de pegar numa plantel excelente dentro de um clube com uma cultura de vitorias enorme e transformá-lo numa boa equipa.
já teve meia época p aquecer,agora só tem que fazer o óbvio: ganhar o campeonato, numa liga onde não há grandes concorrentes ao título.
Publicado por: Pena em janeiro 14, 2005 02:20 PM
Aquele estádio, hoje em dia, parece mesmo um Coliseu.
Publicado por: 666Devil em janeiro 14, 2005 05:52 PM