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quinta-feira, 17 fevereiro 2005
Favoritos
Categoria: Col>> André Viana Categoria: Sporting

Desta é que é! Depois de muitas falsas partidas, a Superliga chegou a uma fase decisiva. A selecção natural far-se-á durante as próximas rondas, sendo muito provável que o quarteto de candidatos se reduza - excluo, não sei se precipitadamente, o Braga e o Marítimo, muito mais este do que o primeiro. Neste cenário, e sendo eu, como é público, sócio do FC Porto, parece-me que o principal candidato à vitória final é... o Sporting. Ainda que com algumas limitações, o conjunto de Peseiro (a meu ver, um dos principais entraves a outro fulgor leonino) possui mais condições do que qualquer outro pretendente ao título. Todavia, num cenário altamente volátil e imprevisível restará sempre um benefício da dúvida ao Benfica pós-Nuno Assis, ao FC Porto de Couceiro e ao Boavistão de Pacheco. Por comparação com o actual detentor do troféu, quais são as mais-valias apresentadas pelo Sporting?
1 – Um esquema.
Ultrapassadas que estão largas de jornadas de devaneios, o Sporting tem hoje consolidado um conjunto-base e um sistema táctico. Assente num 4-4-2 altamente móvel mas respeitador de determinados princípios de jogo, a estrutura está virada essencialmente para o ataque. Sem alas de raíz nem laterais sobredotados para o ataque (Rui Jorge não tem o fôlego de outros tempos, Rogério é um atleta lento e pouco prendado para funções ofensivas), o Sporting consegue ter um desdobramento interessante a nível ofensivo. Por um lado, porque nenhum dos elementos do quarteto centro-campista se nega a incursões laterais; por outro, porque tanto Liedson como Sá Pinto (não excluir Douala, a recuperar de lesão) se disponibilizam para desequilibrar em outras zonas do terreno. Desta forma, a ausência de uma rigidez posicional consegue escapar a uma previsível anarquia, resultando, ao invés, num imponderável desenho estrutural que confunde e anula qualquer plano defensivo. Vejamos esta dinâmica...
2 – Um onze.
Relativamente aos nomes, parece lógico que o Sporting ganhou com a afirmação de Enakarhire no centro da defesa. Até então sujeito à indisponibilidade de Beto e de Polga, o nigeriano consolidou o estatuto de essencial, obrigando os conceituados concorrentes a disputar uma vaga entre si. Com oscilações de forma, tanto o português como o brasileiro têm revelado uma assustadora inconstância, resultando mesmo num dos principais problemas com que Peseiro se bate – a instabilidade defensiva. Se nas laterais não abunda a qualidade, a baliza também treme perante Ricardo. Com efeito, o ex-Boavista não tem exibido, esta temporada, o estatuto que lhe permitiu chegar à titularidade na selecção nacional.
A partir daqui temos um Sporting deveras interessante. Custódio é unidade fulcral num esquema virado para o ataque. Jovem dotado técnica e tacticamente, aparece como a unidade mais recuada do losango mas não se inibe de subir no terreno, causando desequilíbrios através de uma soberba qualidade de passe ou de um tiro exterior que utiliza com preceito e extrema eficácia. Mais do que isso, é frequentemente o pêndulo entre os sectores defensivos e ofensivos, tanto nas transições para o ataque com nas recuperações e na construção de um muro avançado no terreno. Frequentemente esquecido na hora dos destaques, Custódio merece referência destacada e a sua ausência resulta num decréscimo qualitativo extremamente acentuado.
Num miolo bastante jovem, Hugo Viana tem também marcado o seu espaço. Depois de um início de época muito conturbado (até porque passou dois anos complicados em Newcastle), Viana tem mostrado um desenvolvimento significativo e que faz dele, hoje, um jogador mais valioso do que era no Sporting campeão de 2002. Utilizado sobre a esquerda mas liberto dos constrangimentos que tanto o atormentaram na Premiership, o médio tem revelado capacidade de assumir a condução do futebol ofensivo e não se inibe de tentar uma das armas que desenvolveu mais recentemente – o pontapé. Consequência disso mesmo, tem marcado com frequência. Apesar de tudo, tem cimentado a sua importância no onze como unidade de distribuição e de abertura de espaços. Importante nas bolas paradas, goza de uma liberdade de acção que lhe permite desequilibrar um qualquer zona do miolo e a facilidade com que lê e executa tem-se revelado essencial para o aproveitamento dos homens da frente.
Também Carlos Martins consolidou o estatuto de titular neste Sporting. Grande promessa do futebol nacional, o médio estava na iminência de ser mais um dos valores por confirmar mas despontou de tal maneira na época em curso que já poucos duvidam das suas qualidades. Traído por algumas lesões, tem exibido uma extraordinária maturação futebolística e distingue-se com extrema facilidade. Ainda que utilizado sobretudo junto da direita, Carlos Martins também não se deixa prender tacticamente e revela desenvolvimento táctico. Forte na meia-distância e nas bolas paradas, o jovem leão não é um atleta de velocidade e de perfuração mas a mobilidade do jogo sportinguista favorece a qualidade de passe que sempre demonstrou.
Mais tímido e oscilante tem estado Rochemback, capaz de oscilar entre o excelente e o medíocre. Lesionado na etapa final da última temporada, o brasileiro emprestado pelo Barcelona continua muito forte nas bolas paradas e na capacidade de abrir espaços mas perdeu algum acerto no remate de longe. As oscilações exibicionais do Sporting estarão intimamente relacionadas com a variação de rendimento do centro-campista. Todavia, Rochemback não pode ser esquecido e o seu contributo para a excelência do miolo leonino é por demais evidente. Em síntese, e reconhecendo que Custódio é a unidade com maiores responsabilidades posicionais, até por ser um jogador pendular, o trio constituído pelos outros atletas tem revelado uma harmonia e um leque de qualidades futebolísticas que ajudam a potenciar o jogo leonino. Nenhum deles se perde em determinado raio de acção, sendo permanentes as suas movimentações. Isso dificulta a marcação adversária, confunde trajectórias e recursos a controlar, varia as opções de jogo. Em suma, este trio abre nas alas e revela facilidade em cruzar, sabe rematar de todas as zonas do terreno e consegue ganhar faltas em locais propícios à finalização ou ao centro para os colegas. A sua afirmação futebolística ajudou Peseiro a construir um onze e um modelo.
3 – Um goleador.
Excluí do ponto anterior, propositadamente, o nome de Liedson. Tudo porque o avançado ex-Corinthians merece uma referência singular e é, pelo menos para mim, a melhor unidade do Sporting. Julgo que os dotes do brasileiro dispensavam o recurso suplementar a habilidades circenses que também já mostrou dominar. Apesar do aspecto franzino, Liedson afirmou-se no futebol europeu, um futebol mais corporal e exigente do ponto de vista físico. Com uma mobilidade tremenda, o avançado não se inibe de fugir das áreas de finalização, joga bem de costas para a baliza e tem uma qualidade técnica notável. Ganha imensas faltas e é uma referência para o forte miolo leonino. Extremamente móvel, delimita com facilidade um espaço de distribuição de jogo e tem presença na área. Sem ter uma estatura elevada, Liedson marca a diferença pela capacidade posicional, pela mobilidade e pelo instinto goleador. Concretiza de cabeça mas também consegue acções mais rebuscadas de domínio de bola e remate interior. Liedson tem revelado uma impressionante capacidade de finalização mas é mais do que um jogador do último remate – marca um território, facilita as movimentações dos colegas, oferece alternativas, assiste. Em suma, Liedson resolve.
4 – Um objectivo: o golo!
Resumindo o que atrás se vem enunciando, o Sporting é uma equipa virada para o ataque e para o golo. Consegue uma interessante harmonização de sectores, actua em bloco, baseia o seu futebol em movimentações constantes dos atletas e da bola. Com jogadores muito próximos, o Sporting joga em progressão, normalmente ao primeiro toque e com linhas de passe permanentemente abertas. Tem opções que passam pelo avanço com esférico controlado, por arrancadas individuais com remate ou por solicitações mais ou menos longas a explorar o espaço lateral para cruzar ou as costas dos defesas para finalizar. Joga curto, joga longo mas joga quase sempre junto do último reduto adversário, procurando rasgar ou ganhar faltas em zonas que proporcionem facilidade de aproveitamento. Com efeito, o Sporting tem um objectivo de jogo e varia as formas de a ele chegar. É uma equipa dinâmica, móvel, imprevisível nas movimentações e nos recursos a utilizar. Varia as suas opções, rejeita o conformismo e a crença no erro do adversário. Por esta altura, o principal candidato ao título mora em Alvalade. Mesmo com Peseiro ao leme...
Publicado por andré viana às 16:54
Comentários
Gostei da análise. Acho que custódio já ganhou o reconhecimendo dos associados em que eu me incluo.
Acho que se Paíto ganha-se outra maturidade, a equipa cresceria. Mas o pêndulo é mesmo custódio. Hugo Viana está a subir muito de rendimento, um pouco menos rochemback. No entanto Carlos Martins desde a lesão na selecção B ( pra quê) tem vindo a baixar de forma. Liedson é como dizes...
A dupla de centrais neste momento só enak e beto, mas beto teima em lesionar-se. Polga anda a comer alguma coisa estragada.
Publicado por: ich bin em fevereiro 18, 2005 09:32 AM
EXCELENTE análise.
Subscrevo inteiramente e acrescento:
- o SCSporting só não é campeão já porque uma equipa constroe-se pela defesa e isso o Sporting ainda não tem consolidado;
- Faltam alternativas a algumas peças-chave como Liedson, Cústódio ou algum dos médios interiores (Se bem que neste caso não me espantaria a explosão ainda este ano de Moutinho se for chamado a titular. A sua maturidade de jogo e capacidade de posse de bola sem medo é incrível para os seus 18 anos.)
- Por último mais uma acha para o Sporting campeão, finalmente tem um líder em campo: Sá Pinto - um líder que já não o é só de nome ou pela simpatia da Juve Leo mas que contribui com golos, assistências, sofrimento, liderança e entrega absoluta. Uma equipa campeã precisa de um líder assim e não de alternar entre Beto, Pedro Barbosa e Rui Jorge, nenhum com a mesma influência do n.º 10.
Publicado por: Lullas em fevereiro 18, 2005 10:36 AM
Os meus parabens a uma série de opiniões muito bem fundamentadas, André Viana.
Resta-me desejar a falência das mesmas, pelas mesmíssimas razões que tu, mas não posso negar que actualmente tendo a concordar com a maioria das tuas opiniões supracitadas...
Publicado por: Superman Torras em fevereiro 18, 2005 12:24 PM
boa analise embora nao compreenda como é que decorre desta analise que o Peseiro seja mau: ou seja, se a equipa vale pelo enquadramento das suas peças e não sendo nenhum dos jogadores do Sporting uma superestrela, então o treinador tem que ser uma das peças mais importantes
ou está a faltar-me alguma coisa?
Publicado por: tiago em fevereiro 18, 2005 05:24 PM