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domingo, 5 junho 2005

Beira-Mar: Balanço da época

Categoria: 04/05 Balanço da SuperLiga

'O que nasce torto, tarde ou nunca se endireita'. O velho ditado encaixa-se como uma luva na época do Beira-Mar, 18º classificado, e primeira equipa a conhecer a sentença da descida.

Tudo começou ainda no final de Maio de 2004, altura em que Mano Nunes anunciou a saída de António Sousa, após 7 anos e meio no clube, e a aquisição do inglês Mick Wadsworth, técnico sem currículo, através de uma parceria com o grupo de agenciamento Stellar Group, responsável por grande parte das aquisições para a nova temporada, com o objectivo expresso de alcançar um lugar no 'top-10' da SuperLiga. A pré-época foi complicada, com inúmeros jogadores a passarem pelo clube à experiência e aquisições a chegarem a conta gotas e sobre o início da competição. O arranque até não foi mau: 2 vitórias e 2 derrotas em 4 jogos, com Mick Wadsworth a abandonar o clube, justificando a decisão em problemas familiares, que serviram de escape para uma relação problemática com directores, adeptos e alguns jogadores, num primeiro sinal de problemas no balneário.

Manuel Cajuda, semanas antes despedido do Marítimo, foi o escolhido para a sucessão, e chegou a Aveiro com um discurso ambicioso, chegando mesmo a falar na possibilidade de chegar às competições europeias. Dez jogos depois, e com apenas uma vitória, alcançada no Estádio do Dragão, quebrando uma das maiores séries de invencibilidade caseira do futebol português, Cajuda saiu de Aveiro, apenas um ponto acima dos lugares de descida, queixando-se de alguns aspectos organizativos e também do comportamento de alguns jogadores.

Paulino Silva, com um empate em Coimbra, preparou o terreno para a chegada do novo técnico, que coincidia com a paragem de Inverno da SuperLiga. O checo Chovanec foi o escolhido, mas acabou por roer a corda, com Luís Campos, depois de um início desastroso de temporada em Barcelos, a surgir como aposta forte de Mano Nunes, perante a desconfiança dos associados. O irascível técnico, que viu a sua equipa ser bastante reforçada, só se aguentou 12 jogos: apenas duas vitórias - uma delas na Luz - e oito derrotas, algumas bastantes pesadas e comprometedoras, com Campos a repetir erros do passado: a culpa nunca era dele, mas sim dos jogadores (ou dos árbitros).

Com a equipa afundada nos lugares de descida, e com um calendário muito complicado pela frente, chegava Augusto Inácio para uma missão impossível, que acabou por se confirmar como tal. Apenas duas derrotas - em Alvalade e emcasa frente ao FC Porto - em sete jogos, fizeram crer que se o técnico tivesse chegado mais cedo a história poderia ter sido outra.









Vitórias no Dragão e na Luz. Foram os momentos altos de uma temporada para esquecer, mas que pareciam ser, na altura em que aconteceram, os resultados que viriam a permitir uma viragem na temporada dos aveirenses, o que acabou por não acontecer. No Dragão, o Beira-Mar interrompeu uma longa série de jogos sem perder em casa do FC Porto, que já se prolongava desde 2001/02, com um golo de livre de Beto. Na Luz, os aveirenses venceram pelo segundo ano consecutivo, com um bis do uruguaio 'Tanque' Silva, atirando o Benfica para o 5º lugar da tabela classificativa.


Matéria-prima. É certo que a temporada não foi bem planeada, e que a preparação da mesma deixou algo a desejar, dado que o plantel era desequilibrado sobretudo em termos defensivos. No entanto, havia qualidade individual nos aveirenses, mas praticamente nunca existiu colectivo: Pavel Srnicek, o veterano guardião checo, protagonizou algumas excelentes exibições ; os jovens Tininho, lateral-esquerdo, e o polivalente Ricardo, adaptável a central, trinco e lateral, foram duas revelações ; o meio-campo contou com Beto, o mais regular e protagonista de uma boa temporada, mas também tinha Paul Murray, outro médio de qualidade, só que com comportamentos extra-desportivos inadequados, o possante trinco Sandro Gaúcho e o tecnicista Rui Lima ; e o ataque, apesar do 'apagamento' de Kingsley, contou com um possante 'Tanque' Silva, tecnicamente limitado, mas com grande sentido de baliza, e com o veloz McPhee, protagonista de uma época irregular, muito por culpa da indefinição em relação à posição que ocupava: jogou no ataque, nas alas e a médio ofensivo. O Mercado de Inverno trouxe mais qualidade ao sector recuado, sobretudo com as aquisições de Ricardo Silva e Jorge Silva, e de um 'joker' ofensivo: Hassan Ahamada, o melhor reforço de Inverno. Mas com Luís Campos as melhorias praticamente não se notariam, ao contrário do que viria a acontecer, nas jornadas finais, com Augusto Inácio.









Gestão. Foi um verdadeiro desastre. Tudo começou com uma parceria com um grupo de agenciamento britânico, que prometia muito, mas cumpriu muito pouco, com os últimos 15 dias antes do início do campeonato a servirem para colmatar lacunas que não foram preenchidas durante os três meses anteriores de preparação da temporada, com jogadores a mudarem de rota e outros, sem qualidade, a chegarem à experiência. O reinado de Mick Wadsworth, apesar dos resultados na SuperLiga não serem decepcionantes, ficou tremido, e o temperamento pouco amigável do treinador inglês, transformadas em saudades de casa, acabaram por lhe abrir as portas de saída, após uma vitória em Setúbal, com Manuel Cajuda a suceder-lhe. As expectativas aumentaram, os resultados é que não melhoraram, antes pelo contrários, e as declarações do experiente técnico algarvio na altura da sua saída provavam que algo não estava bem. O processo da sua substituição voltou a mostrar equívocos: ao mesmo tempo que foram dispensados alguns jogadores por terem viajado de férias alegadamente sem autorização do clube - outros foram, mas permaneceram no clube - foi anunciado um treinador - Chovanec - que não apareceu, Nelo Vingada terá preferido Coimbra a Aveiro, e surge Luís Campos, como o desejado - estranho, quando se contactam dois treinadores antes -, depois de um início de campeonato desastroso em Barcelos, e que, apesar dos vários reforços contratados, não conseguiu inverter a situação, afundando o Beira-Mar no último lugar da classificação. Inácio, contratado para os últimos sete jogos, tentou lutar contra o destino, mas a descida à Liga de Honra já estava traçada.


Defesa permeável. A defesa mais batida da SuperLiga revelou muitas carências sobretudo no seu eixo central: Zeman, o melhor central, esteve vários meses lesionado, e quando parecia apto para regressar, foi afastado da equipa, num processo pouco claro. Filipe, Alcaráz, Mário Loja e Ricardo, foram alternando duplas pouco ou nada consistentes, com claros prejuízos para o colectivos. Mas, se isso não bastasse, também houve indefinições nas laterais: é que se Tininho, lateral mais eficaz em termos ofensivos do que defensivos, conquistou um lugar à esquerda, à direita, o 'capitão' Ribeiro teve um início de época irregular, obrigando Cajuda a adaptar Levato, sem grande sucesso, a lateral. Em Janeiro, as aquisições de Ricardo Silva e Jorge Silva procuraram dar mais consistência ao eixo central, que acabou por ter reflexos a partir do momento em que Augusto Inácio assumiu o comando da equipa: 'apenas' cinco golos sofridos em sete partidas.


Seis meses sem vencer em casa. Foi um verdadeiro pesadelo da temporada do Beira-Mar. Entre 19 de Setembro, altura em que a equipa, ainda orientada por Wadsworth, bateu o Gil Vicente, orientado por Luís Campos (!), e 13 de Março, data em que o Beira-Mar, com Luís Campos, bateu o Estoril, passaram-se seis meses sem conhecer o sabor da vitória no Municipal de Aveiro.



A estrela:





Beto – Numa época medíocre, acabou por ser o médio centro, ex-Paços Ferreira, que acumulou a sua segunda descida consecutiva, a ser o jogador com o percurso mais regular. Importante no meio-campo, não foi apenas um destruidor de jogo, mas também um elemento importante nas transições para o ataque. Apontou 6 golos, acabando por ser o 2º melhor da equipa, que valeram 10 pontos, o que é significativo num médio e numa equipa que só conquistou 30.


A revelação:





Tininho – Lateral-esquerdo, foi descoberto na 2ªB, no União Micaelense, e acabou por se impor como titular, realizando 27 jogos, 25 dos quais de início. Mostrou ser um jogador veloz, de forte vocação ofensiva, com capacidade física para fazer todo o corredor. Em termos defensivos, no entanto, mostrou algumas pechas, que poderá ainda rectificar.


O 'flop':





'Pablito' Rodriguez – Foram vários, mas o jogador argentino foi contratado para ser o 'nº10' e cedo se percebeu que, apesar de alguns predicados técnicos, estava longe de preencher os requisitos necessários para assumir essa função. Lento, muito lento, acabou por fazer quatro jogos, todos como suplente utilizado, a ritmo de passeio. Em Dezembro foi recambiado.


O treinador:





Mick Wadsworth – Com uma carreira como técnico feita de trabalhos medíocres, Wadsworth chegou a Portugal através da parceria entre Beira-Mar e Stellar Group. A escolha de reforços não convenceu, com excesso de jogadores à experiência e jogadores a chegarem ao clube em cima do início do campeonato. Os resultados na pré-época começaram por ser desastrosos, o que o obrigou a uma primeira inflexão: abdicou de um desajustado 4-4-2 desobrável em 4-2-4, optando por um 4-3-3, que permitiu uma entrada positiva no campeonato: 6 pontos em 4 jogos. Partiu logo a seguir, depois de diversos problemas com dirigentes, jogadores e adeptos.





Manuel Cajuda – Entrou cheio de optimismo, mas dez jogos depois, com apenas uma vitória, abandonou o clube, lançando críticas e alertas em relação ao futuro. Alternou a aposta na continuidade - 4-3-3 - com o 4-4-2 losango, que visava fortalecer a intermediária, dando bons resultados (apenas) no Dragão.


Paulino Silva – Homem da casa, fez a transição entre Cajuda e Luis Campos. Arrancou um empate em Coimbra, mantendo as ideias de Cajuda, com a aposta na estreia do australiano Galekovic na baliza. Uma situação curiosa, já que era o treinador de guarda-redes das duas equipas técnicas anteriores.





Luís Campos – Teve oportunidade de aproveitar o Mercado de Inverno para reforçar a equipa, seguindo o alerta deixado por Manuel Cajuda. Em doze jogos no comando do Beira-Mar, venceu apenas dois - na Luz e em casa com o Estoril - e sofreu oito derrotas. Nunca repetiu um 'onze', promovendo constantes alterações, que nada contribuiram para criar automatismos, agravado ainda pelo facto de tacticamente ter-se mostrado pouco definido, experimentando esquemas e mais esquemas: 5-2-3, 4-1-4-1, 4-2-3-1, 4-2-4, 4-3-3, 4-3-1-2, 4-4-2 losango, 3-4-3. No meio de tanta confusão, destaque ainda para o número de expulsões (5 em 12 jogos), para a estranha perda da titularidade de 'Tanque' Silva (o melhor marcador da equipa) e para a repetição de erros do passado: nunca assumiu culpas nas derrotas, voltando a fazer críticas públicas aos seus jogadores e aos árbitros. Após uma derrota pesada, em casa, diante do Penafiel, abandonou o comando técnico, com o Beira-Mar 'afundado' no último lugar.





Augusto Inácio - Chegou com sete jogos pela frente, que incluiam partidas com cinco dos seis primeiros classificados. A tarefa era muito ingrata, e, como era prevísivel, a manutenção não foi alcançada, ficando, no entanto, a ideia que chegou tarde demais. Apenas duas derrotas em sete jogos, com a equipa a variar entre o 4-3-3 e o 4-1-3-2, depois de se ter estreado, em Alvalade, com um 5-3-2 desdobrável ofensivamente em 3-5-2.


Beira-Mar 2004/2005:


Publicado por rui malheiro às 17:40

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