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quinta-feira, 9 junho 2005
Rio Ave: Balanço da época
Categoria: 04/05 Balanço da SuperLiga
Carlos Brito, pela terceira temporada consecutiva, levou a equipa vila-condense a «bom porto». A equipa do Rio Ave foi, ao longo de toda a prova, das que apresentaram melhor futebol e uma importante regularidade exibicional, tendo conseguido assegurar cedo a permanência na Superliga e, por isso mesmo, chegado a ambicionar algo mais. Mas esse desejo, não passou disso mesmo, um desejo. As saídas de Ricardo Nascimento e Franco para o futebol sul-coreano, aliadas à baixa de forma e cansaço de alguns atletas na ponta final da Liga, abalaram um pouco a equipa, com expressão, a título de exemplo, na quebra de um recorde "caseiro", de mais de ano e meio sem conhecer o sabor da derrota. Ainda assim, o 8º lugar no final da Superliga foi um feito notável para uma equipa que conheceu saídas estruturantes e que não teve qualquer reforço no mercado de Inverno, um caso singular na edição 04/05 do nacional português.
O pontapé de saída na Superliga foi dado com um empate, a zero bolas, no terreno do recém promovido Estoril-Praia. Estava dado, à primeira jornada, o mote para aquele que havia de ser o dado estatístico de referência desta equipa, o empate. Foram 17 no total, mas quase todos, à imagem do desafio de estreia em 2004/2005, com a vitória sempre bastante mais próxima do que a derrota. Nota para o registo curto de vitórias até à 9ª jornada, apenas duas - uma conquistada no Bessa e outra em casa, por 3-1, frente à Académica de Coimbra - nesta altura, os empates predominavam e as derrotas ainda não eram uma realidade para o conjunto verde-branco. Com a deslocação a Braga, precisamente na jornada 9, surgiu a primeira derrota da equipa no campeonato. Sem se ressentir da desfeita, o conjunto de Carlos Brito encerraria o primeiro terço da prova com um empate a uma bola, em casa, frente ao Guimarães e um outro empate, fulminante, a três golos, no terreno do Benfica, causando bastante surpresa a todos quantos ainda não tinham prestado atenção à harmoniosa orquestra do 'maestro' Rixa ou Ricardo Nascimento.
Ao virar da primeira metade da Superliga, o Rio Ave já era uma sensação confirmada. O futebol era apelativo, defensivamente coeso e com contra-ataque temível, condimentado com recortes técnicos de excelência. Os pontos eram condizentes com a prestação e a equipa contava 5 vitórias, 10 empates e apenas 2 derrotas - a segunda averbada no terreno do Gil Vicente, orientado por Ulisses Morais. Entre estes desafios, uma nota para o melhor registo da prova, a goleada imposta ao Nacional, em casa, por 4-1.
O segundo «choque mediático» acontecia no Dragão, com um empate saboroso a uma bola e, acima de tudo, a memória de um banho táctico e sobretudo de «bola» frente ao FC Porto de Víctor Fernandez. Ricardo Nascimento era a referência, mas Mozer, Franco, Niquinha ou Zé Gomes, também já davam que falar. Quatro jornadas depois, à 20ª, Rixa despedia-se dos 'Arcos', rumo ao futebol sul-coreano, com um triunfo diante do então 'aflito' Penafiel.
Ressentindo-se da ausência do 'maestro', ou talvez não, a equipa do Rio Ave deslocou-se ao Alvalade XXI na jornada imediatamente a seguir e saiu derrotada por expressivos 5-0. No rescaldo desse jogo, começava-se a querer criar o fantasma de Ricardo Nascimento, algo que nessa noite parecia, realmente, existir. A medíocridade dessa prestação foi aterradora. O Rio Ave somava a 4ª derrota da temporada e a mais volumosa de toda a época.
À 22ª jornada o conjunto verde-branco recebia o Boavista e recuperava um pouco da sua auto-estima, ao empatar a 2-2 bolas num jogo inglório para Mora, em clara noite não, ao contrário da restante temporada. Daí seguiu-se uma série positiva de resultados, pelo menos sem derrotas, com 5 empates e 2 vitórias. A última das quais, frente ao Benfica que, embora jogando em Vila do Conde envolto numa imensa 'onda vermelha', foi batido pelo estoicismo do conjunto verde-branco. Curiosamente, a esse brilhante triunfo, seguiu-se a pior série de resultados da temporada: 5 jogos, 2 empates e 3 derrotas - duas das quais consecutivas, Gil Vicente (casa) e Vit. Setúbal (fora) e a última, também em casa, frente ao FC Porto, numa das piores exibições da temporada. A despedida da edição 04/05 da Superliga aconteceu em grande forma, com uma equipa de recurso e em fim de 'linha' a bater a União de Leira por 3-0, naquela que seria apenas a segunda vitória conquistada extra-muros, depois do triunfo no Bessa, na longínqua 5ª jornada.


Futebol de qualidade. A imagem de marca deste Rio Ave 2004/05. Na maior parte das partidas com a equipa em acção, foi raro o momento em que o bom futebol não tenha estado presente.

Equilíbrio inter-sectorial. A chave do sucesso do Rio Ave passou pela estabilidade entre os diversos sectores da equipa. Uma baliza bem guardada, protegida por uma defensiva coesa e experiente, com um meio campo abnegado e tecnicamente evoluído, aliado a um ataque veloz, embora nem sempre eficaz, foram a chave para os números do equilíbrio: 35 golos marcados, 35 golos sofridos.
Saber potenciar recursos ou o sucesso da Clínica dos 'Arcos'. Com parcos recursos financeiros, este Rio Ave de Carlos Brito conseguiu sempre potenciar os seus recursos humanos, tendo contribuído para a reabilitação de Ricardo Nascimento, aliada à boa prestação de jogadores veteranos ou provenientes de escalões secundários.

Sem receio dos poderosos. Sem temer os chamados «grandes», o conjunto vila-condense conseguiu um saldo favorável de uma vitória, três empates e duas derrotas nos confrontos com Benfica, Porto e Sporting. De salientar o empate a três bolas na Luz, o empate a uma bola no Dragão e o triunfo épico frente aos encarnados, à 28ª jornada. No final da prova, apenas 7 derrotas, o mesmo número do campeão Benfica.


Abandono precoce da Taça de Portugal. Ao segundo jogo disputado, depois de um triunfo sereno frente ao Desp. de Chaves, por 2-0, a equipa foi derrotada, em casa, 2-0, pela Académica de Coimbra. Um acidente de percurso lamentável, a tingir com algum pesar o orgulho da massa adepta verde-branca.
Último 1/3 da Superliga. Compreendeu a pior série da tempoada: da 29ª à 33ª jornada, dois empates e três derrotas, duas delas consecutivas. Com uma dessas derrotas, frente ao Gil Vicente, chegou o fim da invencibilidade caseira. A média de idades elevada - a mais alta da Superliga - conjugada com uma estranha apatia de alguns atletas e o natural desgaste de outros, impediram o Rio Ave de lutar pela Taça UEFA até à derradeira jornada.
A estrela:

Ricardo Nascimento. Ressurgiu em grande nível depois de dois anos na «sombra» ao serviço de Salgueiros e Maia, na Liga de Honra. Foi o «mágico» verde-branco e encantou todos os seguidores desta edição da Superliga. Criativo, soberbo na execução de lances de bola parada, com uma técnica claramente superior e uma alegria contagiante, 'Rixa' foi o 'Às' rioavista e pincelou de sonho a realidade dos adeptos do Rio Ave. À 20ª jornada disse adeus a Portugal, altura em que uma proposta milionária do FC Seoul o fez abraçar um projecto no extremo-oriente.
A revelação:

Zé Gomes. Depois de em 2003/04 apenas ter aparecido no final da prova, esta temporada foi sempre a referência do lado direito da defensiva vila-condense e um símbolo de garra, abnegação e qualidade. O lateral 'caxineiro' conseguiu superar-se, tendo atingido níveis exibicionais extraordinários, tanto na performance defensiva, como atacante. Foi o 4º jogador mais utilizado por Brito, seguindo-se a Idalécio, Niquinha e Mora e os dois golos que marcou, curiosamente, nas duas partidas frente ao Belenenses, também são nota de merecido destaque. É actualmente um dos laterais direitos mais cotados do futebol português.
O 'flop':

Gaúcho. Depois de ter conquistado um estatuto de goleador nas diversas épocas ao serviço do Estrela da Amadora e depois do Marítimo, este artilheiro brasileiro teve uma época muito aquém do esperado. Em 29 jogos, apenas 'facturou' por 4 ocasiões, tendo sido admoestado por 10 vezes com a cartolina amarela. Exagerou na falta de mobilidade atacante, caindo, recorrentemente, em situações de fora-de-jogo. Negativo também o facto de ter apostado, deselegantemente, numa postura de constante e injusto protesto com as prestações em campo de alguns dos seus colegas de equipa.
O treinador:

Carlos Brito. Voltou, mais uma vez, a ser a chave do sucesso deste Rio Ave. Homem da «casa», conhecedor das limitações financeiras do clube, mas também consciente do enorme sentido de solidariedade e capacidade de trabalho de toda a estrutura verde-branca, o técnico permitiu que o 'milagre' acontecesse novamente, em Vila do Conde, ao terminar a prova na primeira metade da classificação geral. Adepto da tradição futebolística portuguesa, materializada num futebol tecnicamente aprimorado, com espírito colectivo forte e uma insuperável capacidade de trabalho, Brito aplicou em 2004/05 dois esquemas tácticos distintos, em função do estado de forma dos seus jogadores, mas também das circunstâncias de jogo. Por um lado, o 4x4x2 losango, desdrobrável num 4x1x2x1x2 em situação atacante, foi sendo alternado com o seu tradicional esquema de 4x3x3, com uma variante defensiva de 4x2x3x1 ou ofensiva de 4x1x2x2x1. O catalão Mora foi titular indiscutível na baliza, enquanto o quarteto defensivo mais usado era formado por Zé Gomes e Miguelito nas laterais, com Franco e Idalécio no eixo. A meio-campo, os quatro nomes mais utilizados foram Niquinha, Delson, Mozer e Ricardo Nascimento. Na frente de ataque, Gama e Gaúcho foram apostas recorrentes, seguidas de perto por Evandro, Saulo (o suplente mais vezes utilizado) e Paulo César.
Rio Ave 2004/2005:

Publicado por joão carmo às 13:45