quinta-feira, 27 maio 2004




O Outro Lado da Final

Última crónica de Cristiano Pereira, do Jornal de Notícias, que encerrou, da melhor maneira, o acompanhamento dos Super Dragões na final de Gelsenkirchen.

Hoje, o relato do outro lado da final, a partir da Curva:

"Eu cantarei por ti até que a voz me doa"

E, como que num golpe divino, Carlos Alberto arqueia, levanta a perna, rodopia e introduz a bola na baliza. Foi ali, já ali, a pouco mais de uma escassa dezena de metros dos Super Dragões. Ali mesmo, a bola metida para eles. O coração pula e, no centésimo de segundo seguinte, desfere-se um soco na atmosfera. E um urro irrompe das gargantas. Um, um só, um de todos.

Os corpos saltam, é um tumulto, é orgástico. E há quem caia das cadeiras. O Mundo, ou parte inteira dele, assiste pela televisão. E os Super Dragões, ali mesmo, em cima de um pedaço de história a acontecer à frente dos olhos. Reluzentes.

Macaco, o incansável

Macaco, o líder da claque, já sorri. Durante os 40 minutos primeiros enervou-se amiúde com os seus meninos. Lá em baixo, à vista de todos, e com o seu megafone na mão, mostrou-se particularmente inimigo do silêncio - esteve permanentemente a comandar os cânticos. Mais e mais alto.

Se, por algum motivo, o 'feedback' dos seus era escasso (designadamente quando o Mónaco ameaçava a baliza e Baía), Macaco desbobinava um extenso e rico e rápido rol de impropérios que não poupava a dignidade de nenhumas mães - das nossas e das deles -, vociferando e acusando o povo de ir para uma final europeia aos repelões para coçar os ditos.

Há um cântico dos Super Dragões que diz: "Eu cantarei por ti/Até que a voz me doa/ /Contigo em todo o lado/ Durante todo o ano/Só porque te amo". Toda a gente o canta, toda a gente o sabe, e ouvi-lo é uma experiência gratificante - o cântico sobe, circula, viciante. Até que se faça jus ao segundo verso: "Até que a voz me doa". Nada mais podemos fazer do que isso - afinal, eles estão ali a transpirar no relvado a zelar pela nossa felicidade.

Antes do início do jogo, constatou-se de imediato que bilhetes com lugar marcado é matéria estranha para a claque. Nem o facto de cada ingresso ter a inscrição da 'reihe' (fila) e do 'sitz' (lugar) parece ter qualquer tipo de significado.

O lugar dos Super Dragões é na curva, lá em baixo, pertinho, junto ao tapete verde, atrás de uma das balizas. Sempre foi; sempre será. Ponto. E final. De maneira que ficam todos ao monte e fé em Deus - que, já agora, poderá ser Deco.

"Aqui é para a 'confusom'!", avisou um ultra a um certo senhor já ido em idade e de mão numa criança. "E", tornou o erecto, "é para ficar sempre em pé!". Convencido, o conformado senhor e a atarantada criança lá rumaram a outras paragens em busca de cadeiras livres para alaparem o sossego.

No meio da eufórica azáfama final, um Super Dragão, de seu nome Cardinalli, lançou o corpo ao ar e, num acrobático milagre, conseguiu saltar o fosso que separa a bancada do relvado. Pés no chão, todo em transe, todo ele, desatou a correr e a abraçar Baía e ataça, oh, a reluzente taça.



Publicado por rui malheiro em 27 de maio de 2004 às 17:05
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