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sábado, 27 agosto 2005
Desconto de tempo #1
Categoria: Col>> Bruno Ribeiro

1. A questão Nuno Valente parece ter encontrado o seu epílogo com a transferência do internacional português para o Everton. Já muito se falou desta questão mas normalmente para criticar a posição da SAD do FC Porto sem haver grande preocupação em se questionar os motivos que levaram ao desenrolar do evento. Sem querer desculbalizar o clube, considero que a luta do FC Porto é inteiramente justa e essencial para o futebol português (e internacional), embora considere que Nuno Valente não tinha que ser crucuficado da forma que foi.

A SAD portista tem estado na vanguarda do movimento dos principais clubes europeus que visam criar uma força de pressão sobre as instâncias federativas; o G-14 tem-se batido pela obrigatoriedade das federações assumirem as despesas (em termos médicos e salariais) de jogadores que sofram lesões enquanto representam o seu país. Claro está que nem federações, nem FIFA ou UEFA (mais a primeira) estão interessados em abdicar de privilégios adquiridos sem fundamento e que lhes permitem usufruir do contributo dos atletas sem que para tal gastem um tostão (excepção feita aos prémios). Se um internacional se lesionar ao serviço da sua selecção, cabe ao seu clube arcar com as responsabilidades ficando prejudicado em termos desportivos, ao não contar com o contributo do atleta, e em termos financeiros, aqui triplamente porque não só tem de pagar os tratamentos, como cumprir as suas obrigações salariais e cobrir os prémios do seguro. A selecção quanto muito fica sem o contributo do atleta enquanto este recupera, podendo esse período não coincidir com jogos internacionais e podendo convocar um outro sem que para tal tenha que pagar o que quer que seja.
No caso presente, recordemos que Nuno Valente sofreu uma lesão no jogo Letónia-Portugal, disputado a 4 de Setembro de 2004. De acordo com a avaliação feita pelo departamento médico da FPF a lesão não seria grave; nova avaliação feita quando o jogador chegou ao Dragão demonstrou que tal não se verificava, situação que criou um clima de animosidade entre a SAD azul-e-branca e o departamento médico federativo. A verdade é que Nuno Valente esteve de fora grande parte da época, e quando jogou foi apenas o tempo suficiente para sair ressentendindo-se da lesão sofrida.
Confrontada com esta situação, e tendo em conta o historial de lesões do jogador, a SAD pediu ao departamento médico portista uma avaliação da capacidade física do atleta da qual resultou a evidência de que o joelho do jogador não aguentaria um época sobrecarregada de jogos sem ceder de novo. Perante isto, e com a autoridade de quem sustenta o jogador, foi proposto a Nuno Valente que abdicasse da selecção; proposta rejeitada com toda a legitimidade pelo jogador, que sabe ser esta a sua última oportunidade de jogar uma grande competição. Da parte da selecção apenas hipocrisia e oportunismo: o jogador mesmo sem jogar é convocado (o que é que aconteceu à regra scolariana de só convocar que joga?), e é indemnizado no valor dos prémios dos jogos da selecção que perdeu. Indemnizar o clube, principal prejudicado, não parece ter passado pela cabeça de Madaíl. Note-se que esta é uma situação pela qual passaram outros clubes (Benfica com Simão, o mesmo Porto com Jorge Costa), e não é uma política exclusiva da FPF estando disseminada pelo globo.
A posição do FC Porto é legítima e deverá ser seguida por outros clubes pois só assim se forçará uma mudança. É essencial que quando os clubes libertem os jogadores para os compromissos das selecções tenham garantias que em caso de lesão, não tenham de ser eles a pagar os gastos, pelo menos não na sua totalidade. O futebol é um negócio que os clubes fazem fluir, e por mais líricos que possam ser os patriotismos, não são eles que pagam as vedetas que fazem os adeptos sonhar, vibrar ou exasperar. Nuno Valente foi uma vítima colateral de uma guerra da qual não é parte.
2. A Liga mudou de patrocínio, logo mudou de designação. De Superliga Galp Energia passou a Liga Betandwin.com. Volta a mania de mudar designações como se tal fosse o principal problema. Que tal designarem o campeonato pura e simplesmente por Primeira Liga colocando o nome do patrocinador de seguida ou antecedendo?
3. O jogador de Estrela da Amadora Emerson agrediu Lucho Gonzalez no jogo da primeira jornada no Dragão. Esquecendo-se da bola em disputa, o brasileiro preparou o lance e na altura certa desferiu a cotovelada. Não foi um acesso de fúria ou de frustração perante as investidas do adversário; fou uma agressão preparada e racional. O árbitro da partida, o sr. João Vilas Boas, considerou ser lance para amostragem de apenas um cartão amarelo (certamente reger-se-á por regras que não as da FIFA). A CD da Liga é da mesma opinião, punindo o jogador com a astronómica quantia de 50 euros. Este ano a palhaçado começa mais cedo. Vamos ver o que acontece quando os protagonistas vestirem cores diferentes.
'Desconto de tempo' é o nome da coluna que irei manter no Terceiro Anel e que será igualmente publicada no Lugar Cativo. Contariamente ao que sucede com esta primeira edição, este espaço terá com data de emissão a sexta-feira de cada semana, excepto situações imponderáveis.
Publicado por bruno ribeiro às 23:30
Comentários
Inteiramente de acordo, um artigo com uma opiniao, bastante lucida e esclarecedora.
O FCP tem sido o unico clube com um sentido profissional e com contributos serios para a estrutura do futebol nacional. Para isso nao e estranha a posicao que tem junto das estruturas futebolisticas Europeias, nomeadamente o G14.
Publicado por: Jorge Santos
em agosto 28, 2005 08:09 AM
Não concordo em absoluto que para alcançar objectivos lógicos e coerentes se pretenda fazê-lo com atitudes cobardes, imorais e injustas.
A atitude do FC Porto é mesquinha e ditaturial. Não deixar um jogador representar o seu país - que considero a maior honra e desejo de um futebolista - não pode ser nunca branqueada tendo em conta o objectivo inicial do clube.
Hitler também queria um mundo perfeito, sem guerras e abundante de paz. Os seus meios foram os correctos?
Um grave problema foi criado e imagine-mos que todos os clubes tomam esta atitude? Acabam os jogos da Selecção?
É inacreditável como se pactua com esta atitude e ainda por cima inaltecendo-a!!
Acredito que ter-se-á de arranjar uma alternativa aos problemas criados pelas lesões mas não é com imposições e impedimentos aos jogadores que o problema é resolvido.
Muito mal!!
Publicado por: Pedro Neto
em agosto 28, 2005 05:30 PM
O melhor é o Vítor Baía continuar a não ir à selecção, não vá lesionar-se. A propósito, depois de tanta discussão sobre o facto de o Benfica não conseguir fazer contratações (afinal, Karagounis e Miccoli sempre chegaram), porque é que não se fala um bocadinho no Dedé, que vinha substituir o Nuno Valente?
Publicado por: Zé Bio
em setembro 2, 2005 11:39 AM
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