quarta-feira, 14 julho 2004




O meu modelo


Tendo em conta esta mudança do quadro competitivo, que começou a ser alicerçada há 11 meses, lembrei-me de reler um texto que escrevi, na altura, no Terceiro Anel, quando ainda estavamos no formato blogspot, em que lançava o meu modelo para o quadro competitivo do futebol português.

Tal como na altura, mantenho-me contra uma redução para 10, 12, 14 ou 16 clubes, porque acho que qualitativamente nada trará de melhor para o futebol português, tornando-o numa espécie de 'quinta' dos privilegiados. A confirmação dada hoje, da opção pela redução para 16 clubes, nada trará de novo - são apenas menos 4 jogos por época, o que acaba por ser praticamente indiferente. No entanto, registe-se, que os principais campeonatos europeus terão, a partir da próxima temporada, 20 clubes - a Itália estreia essa fórmula em 2004/2005 -, e que nenhum dos campeonatos da 1ª ou 2ª divisões europeias, apresenta um quadro competitivo superior com menos de 18 clubes.

O mais pernicioso sistema do futebol português é, na minha opinião, continuar a ver o fenómeno a partir dos clubes grandes e médio-grandes. Um equívoco tremendo, pois defendo que o futebol português devia ser visto de baixo para cima, ou seja, a partir dos clubes pequenos, a quem as duas vagas da SuperLiga vão fazer muita falta. E, depois continuaremos a cair no equívoco mor, que a taluda da infelicidade poderá calhar, num futuro próximo, a uma das agremiações 'média-grandes', e se repitam os ala(r)gamentos, tal como aconteceu nos anos 80, numa aproximação clara às estruturas (inexistentes) da maior parte dos campeonatos sul-americanos, sobretudo ao "best of" dos campeonatos brasileiros, onde se inventam fórmulas para os maiores clubes nunca descerem, mesmo quando ficam na zona de despromoção.

Assim, mais do que a SuperLiga, onde o modelo de 18 clubes era o mais adequado à nossa realidade futebolística, é na Liga de Honra e na 2ªB que eram necessárias mudanças de fundo, alterando um sistema - de novo, o dito cujo - injusto e pouco atractivo como o das subidas da 2ªB.

Como já o disse, por mais de uma vez, apesar de gostar do esquema de prova nacional, penso que urgia fazer uma divisão em duas zonas, alargando o número de clubes desta divisão a 32. Depois, 16 emblemas por cada um das duas zonas, subindo, directamente, à primeira divisão, os primeiros classificados de cada uma das duas séries - disputando, num desafio entre eles, o título de campeão. O apuramento da 3ª equipa a subir deveria sair de uma Liguilha entre 2ºs e 3ºs classificados de ambos os campeonatos - com um mini campeonato a quatro, todos contra todos, a duas voltas. Em relação às descidas: desceriam da Liga de Honra os 3 últimos de cada série (6 ao todo), subindo os 2 primeiros de cada uma das três séries da 2ªB, quebrando a ideia de campeonatos resolvidos a meio da época, ao qual o actual sistema de subidas à Honra, conduz, como têm sido prova os últimos anos, dos quais Leixões, Estoril, Olhanense, e mesmo Gondomar, são a imagem mais fiel do que se passou nas duas últimas épocas, garantindo (quase) a promoção a meio da época.

Assim, tendo em conta as classificações dos campeonatos 2003/2004, ficando a Superliga como está, teriamos a seguinte Liga de Honra, sem contar com a descida administrativa do Salgueiros:

Série A: Paços de Ferreira ; Varzim ; Maia ; Salgueiros ; Desp. Aves ; Desp. Chaves ; Felgueiras ; Leixões ; Marco ; Gondomar ; Sp. Espinho ; Dragões Sandinenses ; Sanjoanense ; Vizela ; Trofense ; Esmoriz.

Série B: Alverca ; Estrela da Amadora ; Naval 1º de Maio ; Ovarense ; Santa Clara ; Portimonense ; Sp. Covilhã ; Olhanense ; Torreense ; Barreirense ; União Micaelense ; Académico Viseu ; Olivais e Moscavide ; Camacha ; Fátima ; Odivelas.

Esta divisão passou por critérios de ordem geográfica - onde há um ligeiro desequilibrio entre Norte e Sul, que me obrigou a arrastar a Ovarense para a Série B -, que podem ser benéficos para os clubes, de forma a reduzir as despesas de deslocação, embora com a colocação das equipas insulares na Série B, o que já é uma tradição, há sempre um desequilibrio para esses lados. Deste lote ficaram excluidos o FC Porto B e Sporting de Braga B, porque as equipas B não podem disputar campeonatos profissionais, regra com a qual não concordo, mas que, infelizmente, existe. Penso que as equipas B deveriam disputar todas as divisões até à Liga de Honra, desde que o clube principal esteja na divisão seguinte, tal como acontece em Espanha, até porque seria um factor benéfico para os jogadores em formação, sobretudo em termos de motivação.
Para além disso, optei por manter o 17º classificado do último campeonato da Divisão de Honra - Sp. Covilhã -, só fazendo descer o último classificado, a União da Madeira, por me parecer mais justo e, também, para impedir um desempate entre 7ºs classificados da última 2ªDivisão B, dos quais apenas um podia ascender a este escalão.

Fica aqui, novamente, uma ideia - na prática - que penso muitas vezes faltar ao nosso futebol, sobretudo de quem decide.



Publicado por rui malheiro em 14 de julho de 2004 às 23:24
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Comentários:




Como quase sempre, caro Rui, estamos em sintonia. Claro que o modelo de 18 clubes é o mais adequado à nossa SuperLiga. Claro que a Liga de Honra é que precisava de ser mexida, sendo a alteração para duas séries de 16 equipas a melhor solução. Pela minha parte, defendo que a subida deveria ser decidida em playoff, por "poule" a uma volta com oito equipas ou até eliminatórias. Seriam jogos de grande interesse, com muito público e interesse televisivo. O futebol continua a pecar por ser pouco imaginativo e inovador, esquecendo-se que até a Liga de Honra poderia ser um produto muito mais apetecível. É preciso quebrar as correntes de um imobilismo e deserto de ideias que fez regra no passado do nosso futebol. Mas quando a Liga continua oligarquizada e a FPF não conseguiu avançar com uma proposta firme de alteração dos modelos competitivos, ficamos sujeitos a estas palhaçadas... Ainda me vão explicar como, com menos jogos, a SuperLiga vai dar mais dinheiro...


:: uma recarga de Indy em julho 15, 2004 12:54 AM



O meu projecto:

I Liga - 12 equipas

II Liga - 2 séries de 12 equipas

III Liga (amadora) - 10 séries de 12 equipas.

1 - Eu quando defendo uma I Liga com menos equipas, não estou a fazê-lo na óptica do "clube grande, médio-grande", mas sim na óptica da "qualidade". Por mais voltas que me dês, não me podes dizer que as seis equipas que nos dividem acrescentam alguma coisa à SuperLiga. Aliás, experimenta contar quem roubou pontos aos grandes, na época passada, e depois vê em que lugar esses clubes ficaram. Só vais descobrir um que, abaixo do 12.º/13.º lugar conseguiu roubar pontos aos grandes: o Est. Amadora, à 2.ª jornada, em casa (1-1 ao FCP). A redução para 12 implicaria melhor futebol, mais espectáculos e, consequentemente, mais espectadores. Mais, que médias de espectadores tens neste momento? Se não fossem os estádios do Euro, seriam quase irrisórias. Se nós tivéssemos um campeonato inglês, italiano ou espanhol, eu não me espantaria que tivéssemos, também, 18 equipas. Mas nós estamos em Portugal, não podemos comparar-nos com Inglaterra, Itália ou Espanha. Isso é um absurdo. O panorama português, em termos futebolísticos, não tem capacidade para suportar, actualmente, 18 equipas na SuperLiga.

2 - Dividiria a Liga de Honra em dois grupos de 12 equipas: subiriam os primeiros classificados de cada um à SuperLiga, enquanto o terceiro poderia ser apurado com a tua interessante fórmula. Aqui, sim, penso que a II Liga tem de estar dividida, no sentido de dar maior "espaço geográfico" ao futebol português. Mas, igualmente, com 12 equipas: campeonatos pequenos, mais competitivos, onde estejam os melhores e não os supérfluos.

3 - Para que serve uma II B e uma III Divisão que são, na sua génese, algo semelhantes? Duas provas que nada me dizem, com 180 equipas (contas por alto), seriam transformadas numa única liga, regionalizada, com 10 séries de 12 equipas (120 equipas): Madeira, Açores, Grande Lisboa, Grande Porto, Algarve, Alentejo, Beira Alta/Baixa, Beira Litoral, Minho, Trás-os-Montes (por exemplo). Porquê? Porque nestas ligas amadoras, o que conta é a pequena rivalidade regional, e assim, em vez de três séries de 20 equipas na II B, temos séries regionais, com 12 clubes de cada região: aumenta a competitividade, a rivalidade, traz mais gente aos campos, etc. É óbvio que é complicado, de uma só vez, transformar duas ligas numa única. Isso é um problema complicado, admito. Mas acredito que esta é a melhor forma de transformar os campeonatos amadores em provas mais atraentes.


:: uma recarga de ep em julho 15, 2004 10:53 AM


Concordo com a análise do Rui, no que diz respeito ao cenário que apresenta para a Liga inferior, (2ª Liga). mas no que se refere à liga principal penso que haverá algumas outras hipoteses a considerar.

Não sei, e possivelmente ninguém saberá dizer com toda a certeza, se o facto das selecções com os campeonatos mais competitivos (e com mais jogos) terem sido as 1ªs a ser afastadas do recente Euro, possa estar relacionado com o elevado nº de jogos, mas não será uma hipotese a não descartar.
Por outro lado, é verdade que grande parte dos jogadores das selecções de Portugal, Holanda, Rep. Checa e até da Grécia, jogam fora do país de origem, precisamente nos campeonatos ditos mais competitivos, e este argumento pode trazer-nos de volta à estaca zero.

Mas olhando para o actual cenário (pré-Euro) do futebol português, temos 3-4 candidatos crónicos ao Titulo, (uns mais que os outros), mais uns 5-6 clubes a lutar pelos restantes lugares da 1ª metade da tabela, em que hipoteticamente um poderá chegar à europa.

tirando estas 10 equipas, temos mais 8 clubes que simplesmente lutam para não descer, que nos dão horripilantes espectáculos de futebol (?) destrutivo como tivemos o prazer (not!) de ver ano após ano.
muitas vezes, o crime compensa, e estas equipas vão-se mantendo no escalão maior, à custa "daquele ponto arrancado a ferros naqueles jogos em que fizeram 40 faltas, apanharam 11 amarelos e 2 vermelhos", mas não faz mal, pois apesar dos assobios da sua propria massa associativa, conseguiram amealhar mais um ponto para a sua luta.

Estas equipas não levam bons espectaculos de futebol aos estádios, e não levando bons espectaculos, não jogando um futebol aberto de procura pelo golo, não levam publico aos estádios. (é verdade o preço dos bilhetes não ajuda tb).

mas não havendo publico, não há dinheiro para ser aplicado em bons jogadores, em formação, etc, não havendo bons jogadores, não há bons espectaculos, não há bons espectaculos, não há publico, (é verdade, o preço dos bilhetes tb não ajuda...:) )

parece-me um ciclo vicioso.
ora, como estes clubes (os tais que não contribuem para bons espectaculos, que não lutam pela vitória e pelos 3 pontos) tb vão ao Bessa, à Luz, ao Dragão, a Alvalade, ao 1º de Maio, a Leiria, etc, tb não levam o publico a esses palcos. estendendo a "crise" a todos os clubes.

pode parecer descriminatório, o que acabo de dizer, mas é simplesmente uma questão de merecerem ou não o "convivio" com os grandes clubes, os que lutam pelos 3 pontos (normalmente :).
e há uns clubes que simplesmente não merecem esse convivio.
e se desses 8 clubes que "sobram" nas contas, uns 2 ou 3 jogam para ganhar, outros pelo seu jogo destrutivo, mais valia estarem no 2º escalão.

que cenário então?
não trago (obviamente e infelizmente) a galinha dos ovos de ouro, mas penso que o futebol português teria mais a ganhar se houvessem mais; Porto - benficas, Benfica - Sportings, Sportings - Boavistas; Boavistas - Nacionais; Maritimos - Leirias, e quem mais se conseguisse
meter nestes meandros.

Ora, (posso estar a inventar) mas os 12 clubes a 4 voltas da escócia, não lhes enchem os estádios?
(aí estou a entrar em contradição - 44 jogos é muito jogo!), mas e se forem 10 equipas? 36 jogos? é praticamente a mesma carga que temos hoje, e teriamos sempre estádios mais compostos.

e se fossem 12 equipas, mais uma poule A entre os primeiros 6 para se encontrar o campeão e Poule B para encontrar quem desce? (um cenário de inspiração suiça)

pois, isto não fomenta o pluralismo, prejudicará (hipoteticamente) económicamente certas regiões e as equipas mais pequenas, e parece criar um certo elitismo (LFM é a tua hipotese), mas é mais um cenário.

um cenário ao qual só equipas competitivas, que jogam para ganhar, podem aceder, mas que lhes garante boas assistências e boas receitas.

PS: Parabéns ao Terceiro Anel pelo bom trabalho e excelente percurso.
Cumprimentos ao Rui Malheiro e aos companheiros forenses J. Gonçalves e Pedro Varela.


:: uma recarga de Turnpike em julho 15, 2004 11:57 AM


Desde que li num jornal desportivo essa hipótese das 12 equipas, com poules finais entre os 6 primeiros e os 6 últimos (antes das poules iniciarem, os pontos seriam reduzidos a metade), que essa hipótese me entusiasma. Por vários motivos:

1- Mais competitiva. Estamos a falar de ficar com as 12 melhores equipas portuguesa na divisão principal, descartando as 6 piores desta mesma divisão. Sinceramente, não me parece que deixem grandes saudades, e o nível médio das equipas subiria inevitavelmente.

2- Teríamos 4 jogos entre as equipas principais, por época. Melhores espectáculos, mais vezes. Principalmente quando pensamos nos clássicos, entre porto, benfica e sporting.

3- Primeiro ponto de interesse da época surgiria à 22ª jornada, no meio da tabela, para definir quem consegue chegar à poule principal.

4- Na passagem para a 2ª poule os pontos seriam divididos para metade, de modo a não deitar fora, por completo, o esforço anterior, mas também para não haverem campeões antecipados.

5- 22 jornadas na 1ª fase, mais 10 na segunda fase dá 32 jornadas por época. Neste momento, com 18 equipas, temos 34 jornadas. Até nisso se ganhava alguma coisa...


Não sei se este quadro competitivo seria melhor para o desenvolvimento do futebol português, em geral. Mas para mim seria incomparavelmente mais emocionante!


:: uma recarga de jcoelho em julho 15, 2004 12:22 PM


Liguilhas não, obrigado. acho das coisas mais injustas do futebol actual. Basta ver o caso da First Division de Inglaterra em que o 6º lugar do campeonato subiu ficando o 3º de fora. A adoptar o sistema do Rui preferia que descessem 4 e subissem os 2 primeiros de cada zona.
Mas é uma óptima ideia, Rui, lá isso é.


:: uma recarga de Pedro Nery em julho 15, 2004 05:59 PM


Esta é um discussão apaixonante. Cada um com o seu modelo ideal!

Era bom termos mais opiniões.


:: uma recarga de João Gonçalves em julho 15, 2004 06:00 PM


Já muitos anos que este é um assunto em que penso com maior entusiasmo.

Fui desenvolvendo uma teoria que eu considero impossivel, utópica, mas que eu acho que ia mudar para melhor o nosso futebol de 1ª linha.

Era preciso para isso parar com tudo. E começar do nada. Logo aqui não passa de uma mitagem. Mas vamos admitir que era possivel começar do zero.

O ideal seria uma 1ª divisão composta com clubes que correspondecem a determinados critérios;
- número de sócios
- média de espectadores no estádio
- média de adeptos fora de casa
- orçamento disponivel
- tradição
- localização geográfica
- infraestruturas

e outras.

Devia ser um número à volta das 12 ou 14 equipas. Numa primeira fase, todos contra todos. Numa segunda fase em dois grupos. O daluta pelo título e europa, e outro para a manutenção.

Isto fazia com que os jogos entre as equipas com maior número de adeptos se encontrassem 4 vezes. Aproximava os médios clubes do grandes. proporcionava que pequenos clubes pudessem surpreender.

Já o processo de selecção seria mais complicado, mas está bom de ver que iamos ter os clubes com mais presenças na divisão maior...

É só um esboço, mas utópico.

Na realidade o modelo que o Rui apresenta é muito lúcido e vem no seguimento do que temos tido, revolucionava as divisões secundárias. Mas ia continuar tudo na mesma na principal...



:: uma recarga de João Gonçalves em julho 15, 2004 06:39 PM



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