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segunda-feira, 15 setembro 2003

FUTEBOL DE TERCEIRA

Categoria: Col: Nuno Travassos

Estreio assim a minha nova rubrica sobre a 3ª Divisão Nacional, o parente pobre da Federação Portuguesa de Futebol e um campeonato ao qual os meios de comunicação social dão pouca importância ou pelo menos não dão a importância merecida. Com esta rubrica não pretendo falar de resultados nem de classificações, o meu objectivo é dar a conhecer um pouco da realidade desta prova, focando alguns aspectos positivos, assim como os problemas que afectam todos aqueles que participam nesta competição. Como a comunicação social não dá o destaque devido à 3ª Divisão, o Terceiro Anel cumpre essa missão. Falemos do futebol que pratica nesta divisão e que, ao contrário do que o título da rubrica poderia indiciar, não é futebol de terceira. Aqui vai:

Como forma de iniciar esta rubrica, decidi focar um dos principais problemas da 3ª Divisão, pelo menos no que diz respeito à Série E e às equipas que nela participam. O problema resulta do facto de, nesta série, estarem incluídas, para além de equipas da região de Lisboa e algumas do Alentejo, todas as equipas da Região Autónoma da Madeira que disputam este campeonato. E o número de equipas madeirenses que disputam esta competição não é assim tão reduzido, pois o ano passado eram sete e, este ano, apesar de o número ter diminuído, continuam a ser cinco.
Esta .fórmula. de juntar, na mesma série, equipas da Madeira e equipas do Continente não tem resultado e torna-se quase unânime a opinião de que algo deveria ser alterado.
A primeira grande desvantagem prende-se logo com a questão das viagens. AS equipas da ilha de Alberto João Jardim deslocam-se ao continente quase de quinze em quinze dias e as restantes equipas visitam aquela região numa média de uma vez por mês. Uma visita de uma equipa do continente à ilha da Madeira (ou o contrário) pressupõe todo um fim-de-semana .perdido. em hotéis e aeroportos, para além do próprio jogos. Uma equipa faz o último treino da semana na noite de Sexta-feira e ao princípio da tarde de Sábado já está a caminho do Aeroporto da Portela, para apanhar o avião. No Aeroporto, frequentes são as vezes em que se verificam atrasos ou outros problemas que resultam em muito tempo de espera. Isto já para não falar quando está mau tempo, e os voos vão sendo consequentemente atrasados e a viagem até ao Funchal torna-se uma aventura, até porque o Aeroporto da Madeira não é dos mais seguros do Mundo, na opinião dos próprios pilotos. Chegados à Madeira, é tempo das equipas serem transportadas até ao respectivo hotel, numa viagem por entre uma infinidade de túneis que encurtam caminho .furando. a imponente cadeia montanhosa da ilha. Chegados ao hotel, pouco tempo resta para fazer mais do que jantar e umas horas livres até ao .recolher obrigatório.. No outro dia, o Domingo do jogo, acordar bem cedinho para tomar o pequeno-almoço e gozar as últimas horas livres antes do almoço. Depois da refeição, segue-se a palestra onde são transmitidas as últimas indicações para o jogo que se segue. Terminada a .oração. do Mister, é tempo de arrumar as malas e seguir para o local do encontro. Tarefa difícil ganhar na Madeira e sair de lá com os 3 pontos. Os adversários, normalmente equipas muito físicas e aguerridas, aproveitam muito bem o factor casa. Para além desta dificuldade imposta pelo próprio adversário, existe ainda o fenómeno das arbitragens na Madeira. Ainda o ano passado se verificou um caso de corrupção com uma equipa da ilha. É muito frequente o aparecimento de penalties-fantasma ou expulsões forçadas, entre outras situações idênticas, que dificultam ainda mais a tarefa das equipas continentais. Terminado o jogo, tempo apenas para um jantar apressado, uma vez que há um avião para apanhar. Depois do habitual tempo de espera nos aeroportos, lá se segue a viagem de volta a casa, onde se chega perto da meia-noite, isto quando os jogadores vão trabalhar no dia seguinte...bem cedinho. É que é bom não esquecer que estamos a falar de futebol amador, em que os jogadores, para além do futebol, têm as suas actividades profissionais, muitas vezes prejudicadas em benefício do futebol. E para além da profissão, os jogadores têm também as suas famílias. Como se não bastasse o tempo arredado da família durante a semana, para treinar, estas viagens ao Funchal representam um fim-de-semana inteiro longe dos seus.
À segunda-feira os atletas têm de se apresentar ao trabalho pois o patrão não tem nada a ver com a vida de futebolista e não quer saber o quanto o jogador está cansado da viagem e do próprio jogo. O próprio patrão, muitas vezes, já ajuda ao deixar sair mais cedo para ir treinar ou a perdoar o sábado para o empregado ir para a Madeira jogar.
Por tudo isto, parece óbvio que é necessária uma solução para este problema. Por muito agradável que seja o convívio entre os jogadores durante o fim-de-semana, por muito bonita que seja a viagem à Madeira, ao fim de três ou quatro vezes a viagem torna-se muito cansativa, até porque o tempo que lá se passa não é propriamente ocupado a fazer turismo. Recentemente foi criada a Série Açores, de forma a proporcionar que os clubes desta Região Autónoma joguem apenas entre si. Porque não a mesma medida para a Madeira?! As equipas desta região autónoma não são assim tão poucas, pelo que existe base para criar uma Série Madeira. A criação desta série iria acabar com as viagens das equipas do continente à ilha, assim como a situação contrária. É que ainda por cima, todas estas viagens Lisboa-Funchal e Funchal-Lisboa, assim como as próprias estadias nos hotéis, são pagas pela Federação Portuguesa de Futebol. Como tal, a criação da Série Madeira iria permitir à F.P.F. poupar uma bela quantia. Assim, parece indiscutível que a decisão de criar a Série Madeira iria beneficiar tanto os clubes como a própria Federação, pelo que não se compreende porque se mantêm a situação actual. Esperemos que algo mude em breve, para bem de todos.

Publicado por nuno travassos às 17:49