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terça-feira, 23 dezembro 2003
SuperLiga | Alverca - 1 FC Porto - 2 | 15ª Jornada
Sem que mais saibamos sobre a partida de ontem, podemo-nos facilmente cingir ao resultado e ser capazes de referir a «vitória suada» do Porto em Alverca. E até foi. E também foi justa, apesar de os números no marcador não nos mostrarem isso. Normalmente o resultado de um jogo diz-nos imediatamente qualquer coisa sobre o seu desenrolar, escondendo inúmeras outras. Infelizmente, há coisas que nenhuma mudança no marcador nos é capaz de segredar ou sequer fazer suscitar. Volvidos 23 minutos de um jogo que os visitantes souberam controlar, Derlei, ao tentar desarmar José Rui, estatela-se no chão. A lesão parecia grave. Derlei não costuma gritar assim. Os décibeis confirmam um receio, mas não o pior, e Hugo Almeida entra em campo para substituir o brasileiro. Ao intervalo, o médico do Porto diz aos jornalistas 3 das palavras mais tenebrosas que podem existir, tanto para adeptos como para jogadores: rotura de ligamentos. Estava confirmado o pior receio. Neste momento, e até que os exames o confirmem ou desmintam, o infortúnio de Derlei equivale a carga de trabalhos - no ginásio - durante 4 a 6 meses. Os resultados «não mentem» mas estão muito longe de dizerem todas as verdades.
On with the show. José Mourinho teve que lidar com as ausências de Jorge Costa e McCarthy, o primeiro lesionado e o segundo a cumprir castigo. Se a inclusão de Pedro Emanuel no sector mais recuado era mais ou menos esperada, já no ataque poucos contariam ver Bruno Moraes a apoiar o ninja. 59 de seu número, o jovem brasileiro não comprometeu. A partir do momento em que partilhou a frente de ataque com Hugo Almeida, a mobilidade revelada tornou-se ainda mais importante e necessária, já que o colega de área mostrava uma angustiante lentidão, apatia mesmo. Possante q.b. e capaz de conduzir a bola junto ao pé - naquela que parece ser a misteriosa insuficiência da maior parte dos pontas de lança em Portugal - Moraes fez lembrar Hélder Postiga, mas mais musculado. É provável que se mantenha como suplente do suplente de McCarthy, mas para noite de estreia a titular mostrou um agradável entrosamento. De resto, nada de novo na equipa portista. O meio campo sem extremos apresentava Maniche e Alenichev deambulantes pelos flancos, alternando com os laterais, e um Deco libertino a surgir em qualquer parte do terreno, e a oferecer à assistência alguma da sua magia habitual, mas nem por isso nos seus melhores dias. O Alverca apresentou-se com algumas novidades no onze, como sejam a inclusão de Zé Roberto e de Manú, e uma disposição táctica diferente da apresentada frente ao Belenenses, na jornada anterior. Semelhante a um 3-4-3, com a tripla Amoreirinha-Marco Almeida-Veríssimo a fazer o que podia, e as tarefas mais defensivas do meio-campo a cargo de Torrão e Tinaia, era a partir de Zé Roberto e Bruno Aguiar que o Alverca tentava conduzir o jogo ao impetuoso tridente ofensivo composto por Manú na direita, Zé Roberto na esquerda e Rodolfo Lima ao meio.
O jogo começa intranquilo de parte a parte, com um Alverca bastante irrequieto e os seus opositores a tentarem processar o jogo do costume no meio de tanta excitação. Tentando imprimir tanta velocidade quanto possível ao seu jogo, o Alverca fazia no entanto um pressing pouco eficaz. Os minutos passam, e depois de muito correrem atrás da bola, os jogadores dividem-se entre a tentativa de acertar marcações e um exacerbado número de faltas. Tudo isto conflui para uma atitude defensiva demasiado expectante por parte dos ribatejanos. Uma atitude que os portistas souberam aproveitar. Primeiro ameaçaram, aos 7 minutos, por Alenichev, na sequência de uma boa jogada desenhada por Moraes e Derlei. Na cara do guarda-redes, nada feito e Yannick levou a melhor. 10 minutos mais tarde, com o Alverca algo balanceado no ataque, uma cordial troca de assistências nas proximidades da sua área é concluida com uma preciosa assistência de Bruno Moraes, que coloca subtilmente a bola por entre dois defesas. A subtileza encontra fogosidade na corrida de Derlei, que desfere um colocado golpe. Estava feito o primeiro golo.
A partir daqui, a equipa da casa começa a debater-se com uma dificuldade que caracteriza a sua exibição a partir daqui, e até ao final. Capaz de produzir movimentos interessantes no ataque, com José Rui e Manú a serem preocupações permanentes para os laterais adversários, raramente se revela capaz de tirar a bola ao adversário. No meio não esteve a virtude, já que Torrão e Tinaia revelavam-se quase inexistentes no apoio ao ataque e demasiado faltosos no desempenho da sua principal função. Bruno Aguiar e Zé Roberto procuravam os flancos, ora pela desmarcação ora no apoio constante aos extremos. Aos 27 minutos, na sequência de uma dessas ocasiões, Tinaia cruza pela esquerda e vê a bola sobrevoar a área portista para encontrar as mãos de Baía, que no entanto não consegue segurar em condições e proporciona um dos momentos mais felizes dos últimos tempos para os seus detractores, confirmando aquilo que os que acham que sabem já sabiam. Baía é um guarda-redes perigoso e intranquilo. Pois. Com a igualdade no marcador reposta, já sem Derlei e com Hugo Almeida em campo, o Porto perde algum fulgor atacante. Por ironia do destino, ou não, a equipa coloca-se novamente em vantagem aos 35 minutos, num contra-ataque iniciado por Bruno Moraes que encontra Deco e Maniche em perfeita comunhão de ideias, perante a enorme passividade da defesa adversária. Maniche assiste o brasileiro, e este tem tempo mais que suficiente para esperar que o companheiro de equipa apareça no lado direito da área, completamente isolado, fazendo a assistência que um remate bem colocado soube coroar. O Porto em vantagem novamente e mais uma visita de 15 minutos até ao balneário. Justíssimo.
O regresso ao relvado regista novo ascendente portista, salpicado com laivos de irreverência aqui e ali por parte de José Rui e Manú. Isto até aos 59 minutos, altura em que o extremo cabo-verdiano é expulso por acumulação de amarelos, depois de simular uma grande penalidade. Um minuto antes, o Porto quase marca num sufoco de recargas dentro da área adversária, após um forte remate de Nuno Valente, em incisiva incursão pelo seu flanco. Vistos agora. estes 2 minutos acabam por anunciar o fim da contenda. Se o Alverca já parecia algo inconsequente antes da expulsão, mais se tornou. Do outro lado, os jogadores portistas resolverm-se pela sempre perigosa «gestão» do resultado. Alenichev é substituido aos 71 minutos por Pedro Mendes, e o jogo ganha renovada fluidez, mesmo que daí não resultem grandes lances de perigo. As equipas acabam por encaixar neste adormecimento, e o jogo perde em interesse, resvalando para minutos finais de acalmia nortenha e impotência ribatejana, de alguma forma expressa nos protestos de José Couceiro - dirigidos à arbitragem - ao longo dos últimos minutos da partida.
O Porto consegue a vitória sem ter produzido muito mais além dos golos que marcou, revelando a espaços alguma apatia, com a mobilidade do seu ataque a sofrer claramente as consequências da infeliz saída de Derlei. Não sendo muito, foi superior à réplica oferecida pelos ribatejanos. Acabam por marcar na única vez em que conseguem colocar a bola com verdadeiro perigo junto de Vitor Baía, benefeciando do seu infortúnio. Capaz de revelar alguns jogadores com potencial e outros a merecerem reforma antecipada, o Alverca mantém-se claramente uma equipa por acontecer.
Arbitragem
Paulo Costa (Porto) - Arbitragem sóbria, sem influência directa no resultado. Talvez alguma falta de rigor num período mais faltoso do jogo tenha dado origem a uma certa dualidade de critérios. Ainda assim, conseguiu domar novamente a partida e passar bastante despercebido, até aos últimos minutos, por infundados mas compreensíveis clamores de José Couceiro.
ALVERCA - Yannick, Amoreirinha, Marco Almeida, Veríssimo e Manu, Tinaia (Caju, 89 min.) e Torrão, Bruno Aguiar, Zé Roberto (Alex Afonso, 74 min.) e Zé Rui, Rodolfo Lima.
F.C. PORTO - Vítor Baía, Paulo Ferreira, Ricardo Carvalho, Pedro Emanuel e Nuno Valente; Deco, Costinha, Maniche e Alenitchev (Pedro Mendes, 71 min.), Derlei (Hugo Almeida, 25 min.) e Bruno Moraes (Jankauskas, 86 min).
Vasco Mendonça
Publicado por terceiro anel às 13:35