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sábado, 9 outubro 2004

Liechtenstein 2-2 Portugal

Categoria: Selecções Nacionais

pauleta

Crónica de uma goleada adiada

Esta tinha tudo para ser uma crónica simples, sem rodeios, onde se iriam numerar as oportunidades do golo fazendo a descrição daquelas que foram concretizadas, deixando obviamente algumas de fora, pois não convinha ocupar muito espaço. Iria dar conta do domínio avassalador de Portugal, da disparidade – enorme – em termos de remate, cantos e ataques; e, para dar um toque “paternalista”, descrever com simpatia as tentativas infrutíferas que os “pobres” jogadores do Liechtenstein acometeriam contra o vice-campeão europeu.
Poderia ter sido, mas quis o destino, conluiado com o onze nacional, “estragar” o dia aos desgraçados dos jogadores do tal país que muitos de nós nem sabemos dizer correctamente. Vinham eles, a maioria já a preocupar-se com o próximo jogo do FC Vaduz na poderosíssima segunda divisão Suiça, preparados para uma noite tranquila onde disputariam um joguito género “solteiros vs casados”, sem terem muito que correr já que afinal a um homem de família desculpa-se a falta de capacidade física. Ao invés, a selecção portuguesa resolveu pregar-lhes uma partida e obrigou-os a disputar o resultado, forçando-os a correrias desnecessárias a um festejo quase apoteótico no final capaz de criar graves problemas cardíacos.

O primeiro sinal de que algo ia mal surgiu quando Scolari escalonou a equipa no tradicional 4-3-3 não lançando um segundo avançado que poderia ajudar a “terminar” com o jogo logo de início. Requintes de sádico.
Mas afinal era só para assustar a pobre selecção da casa, fazendo-lhes crer que o jogo ia ser a sério. Passavam 23 minutos quando Pauleta marcou o golo inaugural do que se previa que seria um vendaval goleador lusitano. Portugal lá ia dominando, mas nem marcava nem criava grandes oportunidades de golo; o Liechtenstein lá ia de vez em quando cumprir o seu papel de “bombo de festa” mas com laivos de orgulho. Ao minuto 30, Ricardo mostrando os seus dotes de comediante – que também lhe conhecemos – falha a saída a um cruzamento, e obriga Thomas Beck a falhar propositadamente uma soberana ocasião de golo.
Vendo que os portugueses estavam mais virados para a paródia, os jogadores do Liechtenstein resolveram por si acelerar a marcha do marcador; o capitão de equipa Daniel Hasler lá fez o favor de mandar toda a gente para o balneário mais bem disposta: a sua equipa porque não ia ser obrigada a trabalhar horas extra, e os portugueses porque lá tinham “brincado” um bocadito e mesmo assim estavam a ganhar com uma margem confortável.
Uma boa disposição que levou Scolari a abdicar do médio-defensivo (Costinha) em favor de uma médio-centro mais virado para o ataque (Tiago). Ao contrário do que se poderia pensar, esta substituição não tinha por objectivo dar maior capacidade ofensiva a Portugal, fazendo parte do plano maquiavélico estruturado pela equipa das Quinas retirando equilíbrio defensivo à formação e assim obrigar o Liechtenstein a ter mais oportunidades de golo. Brilhante.
E não é que logo aos 3 minutos da segunda parte Franz Burgmeier (que ainda agora está a pensar como é que apareceu à vontade frente a Ricardo) reduziu a diferença. Divertiam-se os lusos pelo sucesso da sua ardilosa conspiração, exasperavam os jogadores do Liechtenstein que estavam a ver que iriam mesmo que fazer horas extraordinárias. Uma maçada.
E Scolari, descendente provável do Marquês de Sade, tira Simão e faz entrar Petit; ao inserir um médio-defensivo mostrava receio por um resultado escasso, e levava os pobres adversários a crer, ainda que inconscientemente, na possibilidade de alcançar um resultado histórico. Logo de seguida faz entrar Postiga e retira Cristiano Ronaldo, deixando antever a utilização do famoso “chuveirinho”, e colocando em pânico os 5 ou 6 jogadores do Liechtenstein que tinha a missão de estar acantonados dentro da sua área enquanto esta era bombardeada por mísseis de longo alcance. Cruel!!!
E ao minuto 76, num livre como tantos outros, Ricardo lançou um balde de água gelada sobre os jogadores do Liechtenstein: fez de conta que estava distraído atirando-se tarde à bola, mas mesmo assim, vendo que poderia chegar a esta facilmente, viu-se obrigado a encurtar o tamanho do seu braço num belo truque de ilusionismo. O Liechtenstein inteiro – valha a verdade que também não é lá muito extenso – ficou atónito: uma das mais fortes equipas do Velho Continente, obrigou os seus bravos rapazes a suarem intensamente, e logo eles que têm outros compromissos que não treinar uma vez por dia e ter uma vida de luxo. “A brincar com quem trabalha, é o que estes gajos portugueses vêm para aqui fazer! A UEFA devia aplicar-lhes uma multa que isto não se faz! Deixar-nos pontuar pela primeira vez no apuramento para um Mundial, e nós aqui sem champanhe no frigorífico! Isto não se faz!”


Ficha de Jogo

Local: Estádio de Rheinpark


Liechtenstein: Peter Jehle; Michael Stocklasa, Telser, Daniel Hasler e Cristoph Ritter; Martin Stocklasa, Raphael Rohrer (46’ Roger Beck), Andreas Gerster (88’ Ronny Buchel) e Thomas Beck; Mario Frick (90’ Daniel Frick) e Franz Burgmeier

TR: Martin Andermatt

Portugal: Ricardo; P. Ferreira, J. Ribeiro, R. Carvalho e J. Andrade; Costinha (46’ Tiago), Maniche e Deco; Simão (56’ Petit), C. Ronaldo (61’ H. Postiga) e Pauleta.

TR: Scolari

Árbitro: Novo Panic (Bósnia)
Árbitros-auxiliares: Miroslav Miric (Bósnia) e Mojo Tutun (Bósnia)
Quarto-árbitro: Rusmir Mrkovic (Bósnia)


Golos: 0-1 23’ Pauleta; 0-2 30’ Daniel Hasler (ag); 1-2 48’ Franz Burgmeier; 2-2 76’ Thomas Beck

Disciplina

C. Amarelos:

Liechtenstein – Raphael Rohrer (11’), Telser (42’)

Portugal – Tiago (69’), J. Andrade (82’)

Publicado por bruno ribeiro às 22:50

Comentários

Grande prosa! :)

#1 | Comentado por: Luís Viegas | 24 de maio de 2009 às 20:14

É melhor nem pensar na fortuna que terá feito algum natural do Liechtenstein que tenha apostado num empate!

#2 | Comentado por: joão | 24 de maio de 2009 às 20:14

Excelente, Bruno.

Só mesmo rindo, porque se vamos levar isto a sério...

#3 | Comentado por: jcoelho | 24 de maio de 2009 às 20:14