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terça-feira, 23 novembro 2004

Os Mentirosos e os Corajosos

Categoria: Col: Pedro Nery

1. Não sou grande apologista das teorias da perseguição que grassam actualmente no futebol português. Parecem-me desconchavadas, sem pés nem cabeça, facilmente desmentíveis pelos buracos no seu raciocínio. Infelizmente é o pão nosso de cada dia. Hoje todo o clube que se preze tem a sua teoria da perseguição, uma lista de desculpas esfarrapadas para desmascarar a sua incompetência, uma lista evocada sempre que o clube se vai abaixo e escondida quando habita nos píncaros da glória.

A que existe para os lados do Bessa tem nos media o seu grande alvo. Parece-me tão patética como qualquer outra. Não acredito que haja qualquer cabala anti-boavisteira pelos media, mas simplesmente alguma ignorância, má fé e a infeliz capacidade para perpetuar mitos de que a imprensa desportiva continua a padecer. Que mais uma vez foram confirmadas com leituras das crónicas relativas ao último derby da Invicta. Aqui vão alguns pedaços de sabedoria:

"O FC Porto esteve perto de partir a espinha ao Boavista sem ter pago por isso mais do que um contra-ataque de risco" - José Manuel Ribeiro "O Jogo"

"Os homens do Bessa deram também força à teoria de que a equipa sabe apenas defender e pouco mais." \ Rogério Azevedo "A Bola"

Quem viu o jogo pôde testemunhar que na segunda parte a equipa de Jaime Pacheco viu ser-lhe assinalados 5 foras-de-jogo quase todos inexistentes (ou seja, nem teve hipóteses de iniciar os tão desejados ataques) e podia inclusivé ter chegado mais cedo ao golo se não fosse a azelhice de Martelinho e depois um corte providencial de Pedro Emanuel quando Cafú já contava "facturar". É pouco ? Sem dúvida que é. Mas é muito diferente da "nulidade atacante" que os jornais nos quiseram vender. Que o FC Porto dominou o jogo é incontestável. Que o Boavista só conseguiu passar do meio-campo para marcar o golo já começa a cheirar a mentira descarada.

O Boavista teve realmente muita sorte. A sorte que lhe faltou nos jogos contra Estoril e Vitória de Setubal, por exemplo. Duas equipas que foram ao Bessa fazer o mesmo tipo de jogo que o Boavista fez no Dragão: defender primeiro para depois aproveitar espaços para contra-ataques. Vindo o Boavista de um 6-1 em Alvalade, esperariam mesmo os senhores jornalistas que Jaime Pacheco (ou qualquer outro treinador) jogasse de igual para igual no estádio de um clube que, mesmo longe dos melhores dias, ainda é o campeão europeu ?

A ignorância e a má fé são tão grandes que o excelentíssimo jornalista d´A BOLA chegou ao ponto de dizer que o Boavista voltou ao futebol "dos últimos dez anos". Não faz a coisa por menos. Ficámos a saber então que o Boavista da dupla Jimmy Hasselbaink/Nuno Gomes, que despachava os adversários com 5, 6 e até 7 golos jogava "à Jaime Pacheco". Ficámos a saber também que o Boavista do ano do título que teve o 2º melhor ataque da prova (despachando V.Guimarães e União de Leiria com 4 golos e Alverca e Salgueiros, este por duas vezes, com 5) também praticava o tal "futebol ultra-defensivo". Tudo se consegue pela maravilhosa arte da generalização.

Este tipo de jornalismo insultuoso (a crónica de Rogério Azevedo é um indisfarçável exercício de "anti-boavistismo" primário) e mentiroso chega infelizmente para enganar muita gente. E este assunto nem merecia muita atenção, mas a quantidade de bílis descarregada foi tão grande que ninguém que acredite num mínimo de respeito pelos clubes podia deixar passar. Resumindo, uma anedota.

2. Não quero dizer com isto que admiro o tipo de jogo que Jaime Pacheco celebrizou à frente do Boavista. Como qualquer amante do futebol prefiro um tipo de jogo centrado predominantemente no que interessa: os golos. E aqui entra Carlos Brito e o seu Rio Ave, que conseguiu na Luz um proeza que poucas equipas conseguiram nos últimos anos: jogar de igual para igual com um dos três grandes no seu reduto. O Rio Ave nem sequer jogou à espera das falhas do adversário, como se diz muitas vezes em tímidos elogios aos adversários dos crónicos candidatos ao título; houve momentos de grande pressão junto à área do Benfica que julgaríamos tratar-se de um FC Porto de Mourinho no seu melhor momento. Mesmo com o jogo empatado a 3 bolas, tentaram o golo da vitória. Brito soube manter uma mentalidade ofensiva quando muitos treinadores se contentariam com o empate.

O treinador vila-condense teve ainda o "descaramento" de afirmar na sala de imprensa que a sua equipa merecia levar os 3 pontos (o que é já um acto de grande coragem numa "sociedade futebolística" que mantém uma reverência ridícula aos 3 grandes). E quem viu o jogo sabe perfeitamente que Carlos Brito tinha razão.

Carlos Brito tem todas as condições para se tornar num dos grandes treinadores do futebol português. A promoção a uma equipa com maiores ambições que a de Vila do Conde é tão merecida quanto previsível. Mais treinadores como Carlos Brito, mais equipas corajosas com a mentalidade do Rio Ave, é do que precisamos. O futebol português agradece.

Publicado por pedro nery às 20:26

Comentários

eu li o comentário do jogo e a minha impressão geral foi que o comentário era favorável ao Boavista e até uma defesa do Jaime Pacheco!

que ele no final dizia que o Jaime Pacheco era o segundo melhor treinador português e que quem não gostava dele era mais ou menos snob.

Posso estar enganado, claro e até gostava de reler o texto agora com outros olhos, mas fica aqui a minha deixa.

#1 | Comentado por: tiago | 21 de abril de 2006 às 10:55

anti-boavistismo primario? mas o boavista é alguma coisa para alguem lhe ser anti?! LOL

#2 | Comentado por: Fredy | 21 de abril de 2006 às 10:55

Peço desculpa ao Pedro Nery, mas eu não consigo admirar minimamente o Boavista.

Todos os boavisteiros que eu conheço são, antes de mais, anti-portistas.

Eu posso até conhecer poucos boavisteiros, ou conhecer os errados (amostra não representativa). Esse estado de coisas até pode ter mudado desde os 2 ou 3 em que o Boavista conseguiu lutar pelo título, ganhando mesmo um. Mas isso, aliado ao triste espectáculo que normalmente é um jogo em que o Boavista entra, não me permite melhor.

Espero que na segunda volta não voltem a abrir as pernas ao Sporting, para depois quererem compensar contra o Porto.

#3 | Comentado por: jcoelho | 21 de abril de 2006 às 10:55

OK, JCoelho, mas concedes ao menos que o Boavista este ano não tem jogado sempre assim (de facto, só me ocorre os jogos com o Gil e no Dragão) e que dizer que o Boavista joga desta maneira há dez anos é no mínimo ridículo ?

#4 | Comentado por: P.Nery | 21 de abril de 2006 às 10:55

Jcoelho, isso do anti-qualquer coisa tem o valor que tem, pois se fôssemos por aí o que dizer daqueles clubes cujos adeptos têm como cântico principal a ofensa aos seus rivais?

#5 | Comentado por: Superman Torras | 21 de abril de 2006 às 10:55

Pedro, eu infelizmente (ou felizmente) não vejo tanto futebol como gostaria. Este ano, vi os dois jogos do Boavista contra o Porto. Este e o da pré-temporada.

Neste, foi a táctica do ferrolho, mesmo contra 10.
Na pré-temporada, foi um arraial inesquecível de porrada.

De resto, vi partes de jogos e a progressão para a fase de ataque está muito mais interessante do que o costume. O João Pinto quanto se mete no jogo dinamiza o ataque, e o Zé Manel também é muito activo. E parece-me que se entendem bem. E não só estes, mas são os que mais me ficaram na retina.

Juntando às criticas, que indicam maioritariamente um acréscimo na qualidade de jogo, parece-me que tens razão. Estão no bom caminho, mas ainda é pouco para conseguirem a minha admiração.


Torras, Superman,
tens toda a razão. As claques que cantam isso são profundamente idiotas. Tenho vergonha de os ouvir cantar isso.

E se até não me incomoda muito quando estamos a jogar contra esses adversários (faz parte das picardias normais), quando estamos a jogar contra outros clubes, para além de idiota é sintoma de complexo de inferioridade. Custa-me dizer isto, até porque não existe hoje em dia motivo para que seja assim, mas não encontro outra explicação.

#6 | Comentado por: jcoelho | 21 de abril de 2006 às 10:55

Belo Post P.Nery !!!

JCoelho os Portistas k eu conheço tb são Anti-Boavista ... aliás o Boavista para eles nem é chamado de Boavista mas sim "Os remendados da Rotunda"

Saudações Leoninas.

#7 | Comentado por: Palhas | 21 de abril de 2006 às 10:55

Em relação aos boavisteiros serem antes de mais anti-portistas, é como o Superman Torras, diz: desses há em todo o lado (olha o caso da pantera pintada, JCoelho ).
Pessoalmente, não me considero anti-portista. Mas os derbys (derbies ?) do Porto são sem dúvida dos jogos que aguardo com mais ansiedade.

#8 | Comentado por: P.Nery | 21 de abril de 2006 às 10:55

sejam isentos que fica-vos mal estes comentarios.tb vi o jogo e lembro-me de um fora de jogo mal assinalado que com certeza poderia dar golo, mas esqueceram-se tb do golo em fora de jogo???

Quem viu o jogo pôde testemunhar que na segunda parte a equipa de Jaime Pacheco viu ser-lhe assinalados 5 foras-de-jogo quase todos inexistentes

#9 | Comentado por: joao | 21 de abril de 2006 às 10:55

Gostei de ler que o Boavista foi mais que uma nulidade atacante. É que devem esquecer-se que jogaram a maior parte do jogo contra 10 e ainda assim defenderam com 11 atrás do meio-campo. Os 5 foras-de-jogo são engraçados. Há dois que me lembro do Zé Manel e nos dois ele parte de uma zona lateral do campo, logo daí a resultar em golo vai uma grande distância. O que eu gostava era que este senhor dissesse se o éder merecia ou não ser expulso. Gostava que ele dissesse se o Boavista foi ou não beneficiado na não marcação de um penalty.
É que quanto a foras-de-jogo o que também é óbvio é que as pessoas já se esqueceram do fora-de-jogo assinalado ao Derlei. É que nesta história dos foras-de-jogo, ficam ela por ela. Mas no vermelho ao 1º ou 15º minuto ( conforme se Éder tivesse visto o vermelho directo ou o amarelo ) e no penalty o Porto foi obviamente prejudicado.
E quanto ao Boavista, assim como não me convence o jogo de nenhuma equipa da Superliga à excepção do Marítimo, também a do boavista não vai além da mediocridade geral. Mas pior que isso, tem lá Éder que entra sempre para aleijar ( à imagem de Sidraílson do Gil Vicente ), o André Barreto que pode ser bom jogador, mas que dá pau até mais não e ainda tem o grande artista. O Boavista não me convence a mim e só deve mesmo convencer ao Jaime Pacheco, a alguma da sua família, ao Manuel do Laço e a mais meia-dúzia de pessoas que só vêm o Boavista.

#10 | Comentado por: Jorge Silva | 21 de abril de 2006 às 10:55