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quinta-feira, 24 março 2005

Visão Periférica (I)

Categoria: Col: Nuno Almeida

Hoje é um bom dia para dar início à minha coluna. Mas, que diabo, pensei eu, quando me ocorreu essa brilhante ideia, escrever sobre quê? Ou quem? Pois bem, vamos por partes. Para pontapé de saída, muito sinceramente, não me apetece escrever nada sobre o FC Porto. Ora, se é, para mim, triste assistir aos jogos da equipa esta época, o que seria ter que escrever sobre eles? Um tédio, claro está. Ainda me lembrei de dissertar umas parvoíces sobre o trabalho desenvolvido por José Peseiro, mas achei por bem não fazê-lo. É que, considero aquele meio campo do Sporting fascinante demais, para me limitar a falar do técnico. Sobre o Benfica também é óbvio que não. Quem quiser ler e saber acerca do emblema encarnado, tem à disposição o perspicaz Domingo Subjectivo. Por isso e por mais algumas coisas, decidi que só faz sentido começar a escrever se for sobre a Académica.

Aparte: Quando é que proíbem o Quaresma de marcar pontapés de canto?

Visão Periférica

Ponto prévio. Não tem sido fácil a vida da Académica nos últimos anos. Afinal, as últimas duas épocas foram de contínua aflição, com a permanência na SuperLiga garantida em cima da linha de meta. Contudo, a entrada de António Simões para o cargo de director desportivo, trouxe ainda mais brio aos adeptos da formação de Coimbra. A juntar, depois disso, as contratações de alguns jogadores de créditos firmados – Vasco Faísca, Ricardo Fernandes, Dário –, a manutenção de João Carlos Pereira, qual José Mourinho da era moderna, como treinador principal da equipa e estava traçado o cenário idílico na mente dos estudantes para uma nova época, que se pretendia sem grandes sobressaltos, quiçá, até de luta por lugares europeus. Depois, as vitórias conquistadas, durante a pré-época, frente equipas de nível manifestamente inferior galvanizaram ainda mais as hostes conimbricenses para a SuperLiga.

Só que, num ápice, do céu se desceu ao inferno, meus caros. O início da competição foi péssimo como comprovam os quatro primeiros encontros – um empate e três derrotas – e rapidamente, João Carlos Pereira e parte dos seus pupilos enfrentaram a amarga realidade. A de um plantel fraco e profundamente desequilibrado. Ainda assim, boa parte dos jogadores que havia sido colocada num pedestal, por quem de direito, preferiu manter-se por lá. O que é certo é que, com os pés assentes no chão, a equipa melhorou as suas prestações. A prova é que à décima primeira jornada, a Briosa ocupava a décima terceira posição, fruto das vitórias diante do Gil Vicente (casa), Marítimo (casa) e Estoril (fora), somado ao empate conseguido frente ao Belenenses (casa). Todavia, é necessário referi-lo, sempre alternando o razoável com o sofrível. Esse défice qualitativo apresentado pela formação dos estudantes não se pode dissociar das escolhas duvidosas, na estrutura da equipa, apresentadas pela equipa técnica. Junte-se uma campanha eleitoral conturbada e até conseguimos achar uma justificativa plausível para nova série negra – derrotas consecutivas com Penafiel (fora), Sporting (casa) e Boavista (fora) – que se seguiu, colocando a equipa abaixo da linha de água, onde se mantém.

Entretanto, depois de resolvida a contenda eleitoral em favor de José Eduardo Simões, deram-se as saídas de António Simões e João Carlos Pereira. Só pecaram por tardias, creio eu. Nelo Vingada foi o técnico encontrado para orientar os destinos da equipa que veste de negro e, diga-se, tem justificado a escolha. Primeiramente, há que dizer, entrou numa boa altura. Explico, claro. É que à porta estava a reabertura do mercado. Assim, fez aquilo que seria de esperar e é, cada vez mais, uma das regras básicas de qualquer treinador quando pega numa equipa: formar uma base de trabalho assente em jogadores de confiança pessoal. O que aliado, a uma ou duas contratações de peso, resultou. Em relação à SuperLiga, arrancou a perder diante do Moreirense (fora) e, se é verdade, que sob o seu comando a equipa voltou a igualar a série negra de três derrotas consecutivas – Sporting Braga (fora), Vitória Guimarães (casa) e Benfica (fora) -, não menos verdade é, que tem vindo a encontrar um ponto de equilíbrio e apresenta já um futebol de qualidade bem razoável e com outros resultados.

Uma referência à importância que assumem, para mim, três elementos na actual equipa da Académica. Os reforços de Inverno, Marcel e Roberto Brum e o jovem José Castro. O destaque para os dois primeiros é tanto maior, quanto maiores tem sido os erros cometidos na contratação de jogadores brasileiros ao longo dos últimos anos. De Marcel não é preciso dizer muito. É um grande avançado e por aqui me fico. De Roberto Brum também só é necessário dizer o essencial e nada mais que a verdade. Brum é um jogador impressionante e não só pela capacidade física. Este jogador vindo do Coritiba é já, neste momento, o grande patrão, o cérebro, o pulmão, o coração do meio campo da Académica, mercê da sua excelente cultura táctica. Ainda, uma chamada de atenção para José Castro. Que jogador! E formado na casa.

Quanto ao futuro imediato, acho, muito sinceramente, que a Académica não terá grandes dificuldades em garantir a manutenção na SuperLiga. Afinal de contas, joga em casa com três dos adversários directos na luta pela manutenção (Estoril, Penafiel e Moreirense) e neste momento não é pior que eles. Assim, se tudo correr normalmente, como espero e creio, antes mesmo da última jornada, será possível festejar esse desiderato. De qualquer forma, será sempre possível assegurar a manutenção na última jornada. Lembrem-se, meus amigos, que o jogo é no Dragão!

Visão Periférica: um nome escolhido ao acaso, sem pretensões e/ou presunções de qualquer espécie. Agradecimento especial ao Rui Malheiro pela ajuda com a imagem.

Publicado por nuno almeida às 11:37

Comentários

Parabéns pelo exelente post. Análise perfeita.

#1 | Comentado por: norbepai | 24 de maio de 2009 às 20:12

A mim apetece-me escrever, não muito, sobre o Antonio Garrido..ex arbitro de futebol e funcionario de um clube da cidade do Porto.

Foi ouvido na PJ e foi ao que parece o ultimo do dia, mas como diz o ditado, por ser o ultimo, não queira dizer que não acabe em primeiro.

Julgo, que a vaga dos Rolex esta a chegar ao fim, podera chegar a verdade desportiva, mas vira a vaga dos Mercedes, por isso acautelem-se

#2 | Comentado por: saridon | 24 de maio de 2009 às 20:12

Parabéns Nuno! O artigo está excelente, muito bem escrito e pensado.
Achei curioso falares sobre a Académica. É o 2.º clube de muita gente e eu não fujo à regra. Tenho Família de Coimbra e o meu Pai é da Académica. Por vezes, também sofro com ele os sucessos e insucessos da equipa dos estudantes.
Bom trabalho. Continua.

#3 | Comentado por: Ricardo Cunha | 24 de maio de 2009 às 20:12

Parabéns!
Mais uma vez o Terceiro Anel na linha da frente... Uma lufada de ar puro na bafienta cobertura jornalística do nosso futebol, onde só interessam os Benficas, Portos e Sportings, sendo tudo o resto subjugado para 5º plano...
Venham mais análises destas a outros clubes que também fazem parte do nosso campeonato, ainda que não tenham a dimensão dos mais famosos!

#4 | Comentado por: Hugo Veiga | 24 de maio de 2009 às 20:12

Excelente artigo. Uma visão perfeita sobre o que tem sido a Minha Briosa nos últimos anos e sobre o actual momento do clube.

Força Briosa, vamos ao 7o jogo consecutivo sem perder!!!!

#5 | Comentado por: Ricardo Carvalho | 24 de maio de 2009 às 20:12

Como diria um amigo meu: "Em duas palavras: per... feito".

#6 | Comentado por: Luís Viegas | 24 de maio de 2009 às 20:12

como alguem disse ai em cima - lufada de ar fresco ler um texto que nao sobre os tres "grandes"

#7 | Comentado por: tiago | 24 de maio de 2009 às 20:12

Uma descrição exacta do que é a grande briosa.
De realçar que só aqui nos comentários já visualisei um vindo de Inglaterra, um da suécia e agora o meu diretamente do Brasil.
E para terminar:
BRIOSAAAAAAAAAAAAAAAAA

#8 | Comentado por: laranjeiro | 24 de maio de 2009 às 20:12

Este "post" não foi à barra. Só a Briosa me interessa.

#9 | Comentado por: P.Oliveira | 24 de maio de 2009 às 20:12

O que não se percebeu na AAC, é como arranjou meios financeiros para contratar o Marcel e o Brum (a ser verdade os valores que se falam) e que com o risco provavel de descida pode vir a passar momentos muito penosos financeiramente...

#10 | Comentado por: Luis | 24 de maio de 2009 às 20:12

Infelizmente, esta é a realidade do Terceiro Anel: Um EXCELENTE texto, neste caso sobre a realidade um clube, por outro os comentários tristes de adeptos de outros clubes que apenas têm um sentimento: inveja.

E mais não digo...

#11 | Comentado por: Alexandre Oliveira | 24 de maio de 2009 às 20:12

Parabéns pelo poste. Finalmente não é sobre nenhum dos 3 grandes!
A Briosa pode ser a 2º equipa de muita gente, mas é a 1º de muitos mais!
Fui a Leiria, fui a Guimarães e depois dos jogos haviam pessoas que me perguntavam o resultado.
Era tanta gente que se interessava pelo clubes das respectivas cidades que nem ao estádio iam, nem a rádio ouviam! por isso fazer comentários desses só mesmo pessoas que não têm um objectivo.

#12 | Comentado por: Mariana | 24 de maio de 2009 às 20:12

Obrigado, a todos, pelos comentários. Depois, quero informar - devia tê-lo feito em cima - que, nos posts que respeitem à minha coluna pessoal, me reservo ao direito de apagar os comentários que entender. Se há uma coisa que não tolero é linguagem indecorosa, porque, meus caros, não estamos numa esplanada. Posto isto, quem quiser comentar sobre o tema, será sempre bem-vindo, caso contrário, escusa de redigir uma única palavra.

#13 | Comentado por: Nuno Almeida | 24 de maio de 2009 às 20:12

Muito bom este post, sem dúvida.

Como já disseram, a Académica não é só um clube simpático para alguns, mas antes uma verdadeira paixão para muitos, como eu!

Espero que a Briosa se mantenha na SuperLiga e que para o ano consigamos ter, finalmente, uma época longe de aflições e sufocos. É possível construir um clube ganhador, sem perder a identidade que nos distingue. Material humano não falta.

Força Briosa!!!

#14 | Comentado por: Alface | 24 de maio de 2009 às 20:12

Nuno almeida, parabens pela atitude tomada em apagar comentarios.
eu mesmo me penitencio pois respondi a um desses comentarios a letra
assim consegue-se manter o nivel

#15 | Comentado por: laranjeiro | 24 de maio de 2009 às 20:12

Finalmente alguém percebe que o futebol português não tem só três equipas...Excelente análise...Já agora, deixo aqui um tema que pode ser debatido num texto futuro: a Académica tem melhor média de assistências em casa (e fora) do que o Boavista e Braga que estão a lutar pelo título...Curioso, não? :) BRIOOOOOOOSA

#16 | Comentado por: Paulo Barreto | 24 de maio de 2009 às 20:12

Paulo, em relação às assistências da Académica em casa, é fácil de explicar. Sendo Coimbra uma cidade que todos os anos acolhe centenas de estudantes, é natural que muitos deles - e aqui falo do meu caso e de muita gente que eu conheço - acabem por começar a gostar da Académica e vão ao estádio e sofram com a equipa de uma maneira que achavam impossível antes de viverem em Coimbra. A grandeza da Académica está também aqui.

Ainda assim, não tenho a certeza que a Académica tenha melhores assistências em casa que o Braga (o Boavista nem sequer entra para estas contas, já que as assistências nunca foram o forte do clube).
Abraços !

#17 | Comentado por: P.Nery | 24 de maio de 2009 às 20:12

P Nery o n.º de estudantes de fora de Coimbra que estuda na cidade e vai aos jogos não é determinante para as assistências em casa. Aliás a Academia tem cada vez menos pessoas que passem por cá os fins de semana. Os estudantes que estão com a AAC nos jogos são na sua maioria da cidade ou dos arredores.
O Braga tem tido mais gente em casa sim, mas pouco mais.
Vejam em:
http://www.european-football-statistics.co.uk/attn/current/avepor.htm

#18 | Comentado por: Rui | 24 de maio de 2009 às 20:12

Excelente análise.

Apesar de não se querer "limpar" o passado recente, na AAC tem de se unir as forças para que a manutenção se concretize, com uma vitória no Dragão!

Luís

#19 | Comentado por: Luís Silva Melo | 24 de maio de 2009 às 20:12

a briosa este ano criou um cartao que facilita muito assistir aos jogos. e a parceria com a tbz pode vir a tornar-se bastante proveitosa em termos de cash flow. era importante aguentar esta recta final para a briosa se começar a apresentar cada vez mais como uma equipa da primeira liga.... não vejo como o leiria consegue e a briosa não (o patrocinador das camisolas de leiria é o mesmo que da aac)...
com um projecto profissional (i.e. bem pensdo), a AAC tem todas as condições para se tornar num clube queande nos 10 primeiros e não neste eterno sobe e desce...

PS. parabéns pela iniciativa do texto.

#20 | Comentado por: cparis | 24 de maio de 2009 às 20:12