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quinta-feira, 14 abril 2005
Sporting 4 - 1 Newcastle United
Categoria: 04/05 Competições Europeias , Sporting
LEÕES DE BIG BALLS: do pesadelo à reviravolta histórica

Catorze anos depois, o Sporting regressa às meias-finais de uma competição europeia. Uma passagem justa, que chegou a parecer quase impossível, mas que a raça e a ambição dos 'leões' tornou possível, iluminados pelo 'farol' João Moutinho, protagonista de uma exibição extraordinária.
O primeiro quarto de hora da partida, praticamente com o sentido único da baliza de Given, parecia antever uma jornada gloriosa do Sporting. Só que um erro clamoroso de Polga, permitiu a Dyer colocar o Newcastle em vantagem, obrigando o Sporting a marcar três golos para seguir em frente. Parecia, na altura, uma miragem, até pela ausência de Liedson. O desânimo dos jogadores foi evidente, e os vinte minutos que se seguiram revelaram uma equipa perdida em campo, com pressa, demasiada pressa, de chegar à frente, o que quase permitiu ao Newcastle, sempre por Dyer, estar perto do segundo golo. Só que perto do intervalo, João Moutinho, inicialmente deslocado para a direita, 'pegou' na batuta a meio e ofereceu, de bandeja, um golo ao peso-demasiado-pesado Niculae, que aproveitou um erro de marcação dos centrais adversários, para alcançar a igualdade.
O início de etapa complementar parecia ser, à partida, decisivo. Impunha-se um golo madrugador, mas um futebol pouco enleado e arrebatado parecia transformá-lo em miragem. O Newcastle, mesmo com as opções pouco felizes de Souness, continuava a ver em Dyer o abono de família e o perigo não deixava de rondar a baliza de Ricardo em contra-ataques. Até que Dyer num pique tresloucado se lesiona, e obriga Souness a 'queimar' a sua última substituição. Momento feliz para os 'leões', pois ao contrário do que seria de esperar, não entrou Ameobi, mas sim um Kluivert capaz de exasperar o mais optimista dos adeptos do clube inglês.
Peseiro demorava em mexer na equipa, e foram precisos mais 7 minutos, para surgir Pedro Barbosa, o segundo 'farol' dos 'leões', que trouxe inteligência e experiência no lugar da inquietação e impaciência de Carlos Martins. E, cinco minutos depois, aos 71, Sá Pinto, bastante oportuno, acabaria por aproveitar da melhor forma uma defesa incompleta de Given após remate de Pedro Barbosa.
Eliminatória relançada, público em ante-extâse, jogadores eufóricos e um Newcastle encolhido, onde Kluivert era a imagem do seu treinador em campo, para desespero de Alan Shearer. Bastaram mais cinco minutos, para num inevitável lance de bola parada, o Sporting apontar mais um golo: canto de Rochemback para cabeceamento de Beto que só parou no fundo das redes de Given.
Ainda faltavam catorze minutos, que pareciam representar um minuto de sofrimento para cada ano de ausência das meias-finais da Taça UEFA. E no penúltimo desses minutos, o senegalês Faye, no meio dos centrais leoninos, numa manobra ocasional, quase deitava o sonho verde e branco ao chão. Não deitou e Fábio Rochemback, pouco depois, aproveitou um erro de palmatória de Carr para fazer o 4-1.
Estava feito o resultado final e as horas que se seguiram foram de onda verde e branca, com alguns pensadores a relativizarem o mais do que evidente peso da ausência de Liedson. Algo impensável, vinte minutos antes do epílogo de tão electrizante partida.
Enquadramento. Um golo de Alan Shearer, em St. James Park, deu uma vantagem, com certo sabor a injustiça, ao Newcastle United, que chegava a Alvalade com cinco vitórias, em cinco jogos fora de casa, na Taça UEFA 2004/2005. Graeme Souness, o controverso treinador do Newcastle, bastante criticado pelo francês Laurent Robert, que ficou de fora das opções para esta partida, e pela grande maioria dos adeptos do clube, relembrou, na conferência de imprensa que antecedeu esta partida, o seu currículo 100% vitorioso - 2 jogos, 2 vitórias - como técnico do Benfica no velho estádio de Alvalade. Repetir a história era o objectivo do escocês de face rosada, perante um Sporting, que, com quatro vitórias e uma derrota no seu percurso caseiro na UEFA, procurava dar a volta à eliminatória sem Liedson, ausente por castigo, denominador comum de praticamente todas as vitórias dos 'leões' esta temporada. Era uma baixa de vulto, mas nada que entibiasse o desejo leonino de chegar à final da competição, disputada no seu próprio estádio, de forma a repetir a glória europeia de 1963/1964, ano em que o Sporting venceu a Taça das Taças diante do MTK.
As tácticas. O Sporting apostou no seu habitual 4x4x2, desdobrável em 4x1x3x2. Sem Liedson, ausente devido a castigo, José Peseiro, que também não pôde contar com Joseph Enakarhire e Hugo Viana, apostou em Niculae na frente do ataque, preterindo Mota e Pinilla. A habitual defesa de 4 contou com Beto e Anderson Polga no eixo central, ficando Rogério e Rui Jorge nas laterais. Fábio Rochemback foi a unidade mais recuada do meio campo, com os três médios ofensivos a serem João Moutinho e Carlos Martins, mais abertos, ficando Sá Pinto numa posição mais central. Douala, mais aberto, descaindo sobretudo para a direita, e o já citado Niculae formavam a dupla de ataque.
O Newcastle, por sua vez, apostou no tradicional 4x4x2, desdobrável ofensivamente em 4x2x4. A defesa de 4 tinha em Taylor e Bramble, regressado após lesão, os centrais, enquanto que Carr e Babayaro, que não actuou no primeiro jogo, actuavam nas laterais. Bowyer e Faye eram os médios mais recuados, com Jenas e N'zogbia a descairem para as alas. Na frente, uma surpresa: Ameobi ficou no banco, avançando Dyer do meio-campo para o ataque, fazendo dupla com o inevitável Shearer.
Verdadeiros leões. O Sporting esteve longe de realizar a sua mais inspirada exibição da temporada, mas, mesmo depois do quase-ko do 0-1, os jogadores não atiraram a toalha ao chão. Foi uma exibição de garra, de elevada determinação e ambição, que, por vezes, se confundiu com atrapalhação, tamanha era a vontade de fazer depressa e bem para chegar mais além.
Dyer: o anti-leão. Graeme Souness, como é seu hábito, surpreendeu na constituição da equipa. Uma das surpresas maiores, e bastante feliz, foi a colocação de Dyer como unidade mais adiantada da equipa, quando esta saía para situações de ataque rápido. O internacional inglês, beneficiando da presença de Shearer nas suas costas, a baralhar a marcação da defesa do Sporting, foi uma seta apontada à baliza de Ricardo. Fez um golo, esteve perto de fazer outro, e colocou, demasiadas vezes em sentido o último sector dos 'leões', incapazes, em 58 minutos, de encontrarem um antídoto para o seu posicionamento. Valeu ao Sporting a sua lesão e a rísivel entrada de Kluivert no seu lugar.
A entrada de Pedro Barbosa. A primeira vintena de minutos do Sporting na segunda parte dava sinais evidentes que faltava qualquer coisa no meio campo ofensivo leonino, que servisse de complemento às elevadas doses de talento de João Moutinho e à raça e determinação dos demais. Barbosa entrou de mansinho, mas a sua experiência e qualidade técnica foi decisiva para o que se viria a passar a seguir. E o tão ansiado 2-1 acabou por sair dos seus pés.
Era assim tão complicado? Roçou quase o inacreditável a falta de leitura a partir do banco do Sporting do sistema ofensivo do adversário. Com Shearer claramente atrasado em relação a Dyer, os centrais, à vez, caiam no erro de marcar o veterano ponta de lança, deixando Dyer solto, beneficiando, em algumas ocasiões, de situações de 1x1 com o defesa solto, nas quais era invariavelmente mais veloz. Foi assim que surgiram o 0-1, ainda para mais auxiliado pela moleza de Polga, e a maior parte dos sobressaltos para Ricardo. Só a lesão de Dyer acabou por resolver um problema que se tornava irresolúvel.
Souness: ainda há paciência? A aposta em Graeme Souness para render Bobby Robson no comando do Newcastle esteve longe de ser pacífica, e mesmo a boa carreira na FA Cup, Taça UEFA - até hoje - e recuperação no campeonato não parecem convencer os adeptos do clube e mesmo alguns jogadores menos temerários. Robert, horas antes da partida, disse que o Newcastle regrediu no último ano, e é verdade. Souness continua a fazer linhas a partir da sua cabeça, sem estudo do adversário, faz opções que até podem ser corajosas, mas que não se percebem, e o fio de jogo não existe: tudo se baseia num futebol agressivo, de pontapé para a frente, à procura das correrias desenfreadas de um avançado rápido e das ratices e sentido de golo do veterano Shearer. Quando chega a hora de substituir, a tendência para o disparate atinge proporções perto do inacreditável. Se a troca de Jenas por Milner se explica pela lesão do primeiro, mas retirou claramente ao Newcastle capacidade de retenção/posse de bola, o que não se justificava tendo em conta o sentido da eliminatória, a troca dos centrais, mesmo com Bramble a regressar de lesão, é de díficil percepção, pois se não estava em condições físicas ideais, o que não se notou, não deveria ter sido opção. Mas o pior viria dois minutos depois: Dyer lesionou-se, Ameobi seria a opção natural, ou até Butt para segurar o meio campo, mas Souness optou por um Kluivert fora de forma e sem vontade. Que pesadelo!..
Os destaques do Terceiro Anel.
Lee Bowyer. Estando em campo, ainda por cima 90 minutos, é dificil não justificar esta opção. Exibição de muita raça e agressividade, faltosa qb, e, claro, pouco imaginativa.
Patrick Kluivert. Para quem um dia foi um dos melhores avançados europeus, o que (não) se passou esta noite em Alvalade devia dar que pensar. Só que nesta fase da sua carreira, com motivação zero, o mais importante parece ser mesmo o ordenado chorudo a 'pingar' semanalmente.
Pedro Barbosa. A sua entrada foi decisiva para os 20 minutos de sonho do Sporting. Era o jogador que faltava ao meio campo ofensivo do Sporting, funcionando como complemento perfeito de João Moutinho. Cinco minutos depois de entrar, a partir de um remate seu, Sá Pinto fez o 2-1. Depois foi espalhando classe e inteligência.
João Moutinho. Começou a partida na meia direita, com grande fulgor, e foi dos primeiros a colocar à prova a atenção de Given. Após o 0-1 foi o que ficou menos afectado, e nos últimos 10 minutos da etapa inicial, a aparecer mais vezes ao meio, assumiu o jogo, sem qualquer receio. Ofereceu o empate a Niculae, e ainda antes do intervalo, só uma grande defesa de Given evitou que fizesse o 2-1. Na segunda parte continuou a ser unidade de mais alto rendimento, recuperando jogo e saindo, praticamente sem erros, para o ataque, dando balanço ao ataque do Sporting. Aos 18 anos, é bastante dificil ter um futebol tão adulto, que não se limite a uma gama infindável de dribles, e que se complemente tão bem entre acções defensivas e ofensivas. Enorme, o João 'Pequeno' Moutinho.

Remate. O Sporting segue em frente com inteira justiça, numa eliminatória em que provou ser superior a um adversário que teve pé e meio nas meias-finais. Sem Liedson, o que aconteceu pela terceira vez esta época - Rio Ave (0-0, fora) e Pampilhosa (4-1, casa), o Sporting conseguiu apontar quatro golos, quebrando o 'enguiço' Souness, que nunca perdera diante dos 'leões', quer como treinador do Benfica, quer como treinador do Newcastle. Segue-se o AZ Alkmaar, uma das grandes revelações do futebol europeu desta temporada.
Ficha do Jogo:
Estádio: Alvalade
Árbitro: Peter Fröjdfeldt (Suécia)
Sporting: Ricardo - Rogério, Beto, Anderson Polga, Rui Jorge - Fábio Rochemback - João Moutinho, Sá Pinto (89' Custódio), Carlos Martins (66' Pedro Barbosa) - Douala, Niculae (75' Pinilla).
Suplentes: Nélson, Miguel Garcia, Custódio, Rodrigo Tello, Pedro Barbosa, Pinilla, Mota.
Newcastle United: Shay Given - Stephen Carr, Steven Taylor, Titus Bramble (57' Andy O'Brien), Céléstine Babayaro - Jermaine Jenas (int' James Milner), Lee Bowyer, Amdy Faye, Charles N'zogbia - Kieron Dyer (59' Patrick Kluivert), Alan Shearer.
Suplentes: Stephen Harper, Andy O'Brien, Nicky Butt, Darren Ambrose, James Milner, Shola Ameobi, Patrick Kluivert.
Golos:
19' Kieron Dyer (0-1)
40' Niculae (1-1), assistência: João Moutinho
71' Sá Pinto (2-1)
77' Beto (3-1), assistência: Fábio Rochemback
90' Fábio Rochemback (4-1)
Cartões Amarelos:
SPOR: 38' Beto ; 60' Sá Pinto ; 66' Anderson Polga
NEW: 22' Lee Bowyer ; 84' Steven Taylor
Publicado por rui malheiro às 23:59
Comentários
Mais do que categoria, penso que as palavras para definir o Sporting ontem foram esforço, dedicação e sobretudo superação. A perder por 0-1, lutar até ao fim para superar o resultado adverso... É verdade que é para isso que são pagos, e o normal é lutarem até ao fim...claro que é verdade... mas muitas vezes não é o que vemos.Por tudo isso, parabéns ao Sporting.
E para quem continua a teimar em considerar o nosso futebol como de baixo nível, continuamos a dar cartas (o Porto chegou aos oitavos da Champions, o que não é fácil) na Europa, estivemos melhor que a "gigante" Espanha, e estamos a atingir a Alemanha no Ranking de clubes... tudo isso somado à selecção nacional, deixa-me a pensar, e se não somos uma potência no futebol,então practicamente não há potências...
#1 | Comentado por: Luis Filipe Goncalves | 24 de outubro de 2005 às 21:12
Esta vitória deveria ter acontecido de uma forma natural.
O SCP foi claramente a melhor equipa durante as duas mãos, as dificuldades pelas quais passamos se devem exclusivamente a falta de segurança defensiva que continuamos a mostrar e a alguma confusão no meio campo Leonino que sem o seu capitão em campo fica algo irreconhecivel.
Não considero esta equipa parecida com a do FCP nas 2 épocas anteriores (pelo menos neste jogo não o foi), é uma equipa bastante ofensiva que ao contrário do FCP não procura o erro adversário e tenta tomar aS RÉDEAS DO JOGO DO 1º MIN AO ÚLTIMO , o que coloca a sua defesa mais permeavel ao ataque dos seus adversários, e como sabemos a defesa do SCP está longe de sewr perfeita.
Após estes 90 minutos loucos conseguimos passar ás 1/2 finais da UEFA onde vamos encontrar a equipa sensação do campeonato holandês, mais conseguimos passar para a proxima época para o 5º lugar do ranking da UEFA ultrapassando a Alemanha.
A nossa frente só mesmo a Espanha, Itáçlia , Inglaterra e França ... como oLuis Filipe Gonçalves escreveu ... se Portugal não é uma potencia então practicamente não há potências...
Saudações Leoninas
#2 | Comentado por: Sérgio Palhas | 24 de outubro de 2005 às 21:12