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quinta-feira, 26 maio 2005
AC Milan 3-3 Liverpool (5-6 após grandes penalidades)
Categoria: 04/05 Competições Europeias

Liverpool no topo após épico da bola
Curioso o futebol! Jerzy Dudek é o mal-amado de Anfield, um guarda-redes muito conceituado há cerca de três/quatro anos mas que tem passado muito mal nos tempos mais próximos. Tanto assim é que poucos acreditariam na titularidade do polaco no caso de Kirkland estar disponível e também é bom levar a aposta de Rafa em Scott Carson, aposta essa que se revelou ainda mais desastrosa no encontro da primeira-mão dos quartos-de-final desta mesma competição. Dudek partiu para o encontro de ontem, então, como o patinho feio de Liverpool! Nem se pode dizer que tenha emendado a mão no tempo regular de noventa minutos - intranquilo entre os postes, perdido nas saídas, encaixou três golos só na primeira parte. Mesmo que sem culpas...
Em Milão vestia-se a camisola de Shevchenko, o melhor do Mundo para a France Football e para os adeptos rossoneri. Sheva não marcou mas o seu perfume ia pairando a todo o momento, tendo mesmo servido Crespo para o segundo golo da partida. Teve lances de mestre, nem sempre bem finalizados, fosse por ele próprio, fosse pelos companheiros. Chegou o prolongamento e o ucraniano teve o primeiro choque de Leste com o polaco de Anfield. Faltava pouco para a partida se encaminhar para as grandes penalidades. O Liverpool estava de rastos. O Milan queria ganhar. Sheva cabeceou, Dudek foi lá buscá-la mas não teve tempo de se levantar para defender a recarga. Golo de Shevchenko, gritavam os italianos. É minha, disse Jerzy...
Seguiram-se então as grandes penalidades. Faziam-se apostas. Dida defende, Shevchenko marca o quinto e decide! Partiu Serginho, colocou a bola, deu uns passos atrás, parou e olhou. Viu o Homem-Aranha. Dudek esticava os braços, percorria lateralmente a linha de golo, dizia ao brasileiro que, para onde quer que ele rematasse, ele estaria lá. Não foi preciso, saiu fora! Olhos em Dida, bola na rede, marcou García. Vem Pirlo, o homem das bolas paradas. Defende Dudek. Marca Smicer mas Dida pára Riise. Há 2-2 na marcação de castigos máximos! Smicer está morto mas não treme e envia as decisões para Shevchenko. Dudek sabe que foi ele a entregar o título de 2003 ao Milan mas sabe também que esta é a noite do Liverpool, a sua noite. Lança-se para a direita mas faz marcha-atrás, travando o fraco e temeroso remate do craque de San Siro. Estava feito, abracem o novo herói...
Enquadramento. Nunca antes Liverpool e AC Milan se haviam encontrado em competições europeias. Todavia, os ingleses jogaram a sua última final na maior prova continental de clubes precisamente diante de um conjunto italiano. Foi a Juventus, que venceu a trágica final do Heysel com uma grande penalidade de Platini. Vinte anos volvidos, Rafa Benítez ajudou o clube de Anfield a vingar a derrota de Bruxelas. Quanto ao AC Milan, buscava a sua sétima vitória na competição de topo na Europa, sendo que procurava também igualar o recorde de três vitórias - pertencente ao Real Madrid - na Liga dos Campeões, designação recente para a antiga Taça dos Clubes Campeões Europeus. O AC Milan não contava com Ambrosini, que marcara em Eindhoven, mas tinha em Maldini (sétima final) o segundo mais velho jogador a participar numa final da Champions. Apenas Antonio Ramallets, jogador do Barcelona em 1961, tinha mais idade do que o filho do histórico Cesare. Caso vencesse, Maldini seria o capitão mais idoso a levantar o troféu, tirando o recorde pertencente a Schmeichel. Costacurta e Seedorf buscavam também números históricos. Relativamente ao Liverpool, Gerrard era o terceiro mais jovem capitão a participar numa final, apenas superado por Veloso e por Deschamps. Ainda sobre a turma inglesa, Rafa apresentava o onze menos nacional (inglês, claro) de todas as finais da competição, apenas representado por Gerrard e por Carragher. Ancelotti é um de quatro personalidades a ter vencido a competição como jogador e como treinador, sendo que a lista inclui Trap. Quanto a Benítez, procurava ser o único técnico a conseguir vencer duas provas da UEFA em anos sucessivos, mas por clubes diferentes. Interessante é a constatação de que o Liverpool venceu as suas quatro Ligas dos Campeões actuando de vermelho ante um conjunto a equipar de branco. Hoje, e em função de ambos jogarem de vermelho, convencionou-se que seria o Milan a recorrer ao equipamento alternativo...
As tácticas. Sem Kirkland, guarda-redes lesionado há já alguns meses, o Liverpool atacava a final liberto da onda de paragens com que se debateu durante toda a temporada. Assim, Finnan e Traoré faziam as laterais da defesa, com Carragher e Hyypia ao centro. Xabi Alonso era o médio mais defensivo, com Gerrard imediatamente à frente. Luís García e Riise ficavam com as alas, sendo que Kewell tinha liberdade junto da área, onde estava Milan Baros, quiçá na despedida do checo. Quanto ao Milan, Dida era a opção mais do que natural para a baliza. Cafu actuava na direita, o capitão Maldini surgia na lateral oposta e Nesta fazia dupla de centrais com Stam. Pirlo actuava como médio-defensivo em zonas centrais, sendo que Gattuso e Seedorf jogavam descaídos. Kaká organizava o futebol milanês nas costas de Shevchenko e Crespo. Acrescente-se que o Liverpool mudou o esquema para a segunda metade, reforçando o miolo com Hamann mas retirando uma unidade à defesa. Saiu Finnan, o que implicou o recurso a uma linha de três centrais. Carragher sobre a direita, Hyypia ao centro e Traoré à esquerda, até porque não havia que desperdiçar o potencial ofensivo de Riise.
Hino ao Futebol Previa-se uma final receosa, raramente bem jogada e com poucos motivos de interesse. Dizia-nos isso o percurso que Milan e Liverpool vinham fazendo até então. Muito pragmastismos, esperava-se que o receio tramasse as ambições ofensivas dos conjuntos. Todavia, Maldini mexeu no destino ao marcar ainda antes do primeiro minuto estar completo e Kaká também não ajudou ao banho táctico quando nos instrumentos de cálculo para encontrar Crespo, cara-a-cara com Dudek. Nem seria por aqui que viria o mal ao Mundo mas o argentino foi de uma crueldade extrema naquele toque para o terceiro do Milan. Quase apetecia apanhar avião para Istambul e dar umas palmadinhas nas costas do desolado Dudek! Estava feito, o naufrágio da Corunha ainda estava na memória rossoneri e era inimaginável que uma das melhores defesas da actualidade fosse encaixar três ou mais golos. Muito menos em seis minutos! Pois bem - marcou Gerrard, marcou Smicer e marcou Xabi Alonso, à segunda. Que jogo!
Rafa Benítez - Inglaterra deve a recuperação do prestígio europeu que outrora teve a duas personalidades ibéricas. A José Mourinho, que construiu em Stamford Bridge a mais temível equipa do futebol actual. A Rafa Benítez, que devolveu o Liverpool à glória continental com recursos muito mais escassos quando comparados com o de outros adversários. Vencedor da UEFA em Valência, tornou-se no primeiro técnico a vencer duas provas distintas em anos consecutivos mas por emblemas diferentes. Tem muito mérito nisso. Ultrapassou a Juventus, o Chelsea e ontem o Milan, nunca na condição de favorito mas sempre com as directrizes certas para liderar o seu conjunto ao sucesso. Arriscou tudo a perder por 3-0 mas não o fez aleatoriamente, pela mera soma de avançados. Mexeu no esquema, delineou metas, acrescentou ao Liverpool aquilo que o plantel de melhor tem - médios.
Oops! It happened again - Tendemos a ver o Milan como um dos conjuntos mais regulares da Europa. Dos mais cínicos e dos que melhor defendem também. O Milan foi eliminado da passada edição da Liga dos Campeões mesmo tendo derrotado o Deportivo por 4-1, em San Siro. O Milan sofreu a bom sofrer diante do PSV, já nas meias-finais da prova deste ano. O Milan esteve a vencer por 3-0 no encontro decisivo de toda uma época. O Milan descurou a Serie A, apostou tudo na Champions e perdeu. Saiba Ancelotti tirar as devidas ilações.
Djmi Traoré. Não é muito dotado mas custa despedriçar o talento ofensivo de Riise. Daí que Traoré seja a opção certinha para a lateral-esquerda. Ontem debateu-se com inúmeros problemas e recorreu frequentemente à falta para resolver as situações com que se ia deparando. Não foi por aí que evitou sobressaltos para a baliza de Dudek.
Clarence Seedorf. Não se percebe como é que o único jogador que venceu três Champions por três clubes distintos termina a época em tão má forma, desmotivado até. Seedorf já fora uma nulidade diante do PSV e ontem voltou a sê-lo. Saiu demasiado tarde...
Steven Gerrard. Estas nomeações obrigam-me a deixar de fora jogadores como Kaká (para mim o melhor jogador desta Liga dos Campeões) ou como Crespo. Todavia, o Liverpool ganhou e deve-o muito ao capitão Steven Gerrard. Empurrou a equipa para a baliza de Dida quando ela mais necessitava, deu o mote para a reacção dos companheiros, mostrou como se faz. Brilhante jogador no plano individual mas, e isso é ainda mais importante, um tremendo jogador de equipa.
Jerzy Dudek. Por tudo aquilo que se disse. Pela performance nas grandes penalidades mas também pela dupla defesa a remates de Shevchenko, mesmo no final do prolongamento. Fica na história, independentemente dos muitos e bons frangos que já deu...
Remate. Ganha o Liverpool! Com justiça, porque acreditou, porque contou com a mestria do seu treinador e o empenho dos atletas. Virou uma desvantagem de três golos, fez das tripas coração para ultrapassar as quebras físicas, decidiu nas penalidades. Foi uma grande final, com o Milan a trabalhar à base de Crespo e de Kaká e a mostrar-se sempre capaz de vencer a partida. Faltou-lhe um toque de banco, faltou-lhe também um toque que o herói Shevchenko viu Dudek travar. Vinte anos depois, o Liverpool vinga a derrota de Heysel e regressa a um topo que conhece dos anos 70 e 80. "You´ll Never Walk Alone".
Ficha do Jogo:
Estádio: Estádio Olímpico Ataturk, em Istambul
Árbitro: Mejuto González (Espanha)
AC Milan: Dida; Cafu, Nesta, Stam e Maldini; Pirlo, Gattuso (Rui Costa, 111') e Seedorf (Serginho, 85'); Kaká; Shevchenko e Crespo (Tomasson, 84')
Liverpool: Dudek; Finnan (Hamann, 45'), Hyypia, Carragher e Traore; Kewell (Smicer, 22'), Xabi Alonso, Gerrard e Riise; Luís Garcia e Baros (Djibril Cissé, 84')
Golos:
1' Paolo Maldini (1-0)
39´ Hernán Jorge Crespo (2-0)
44´ Hernán Jorge Crespo (3-0)
54´ Steven Gerrard (3-1)
56´ Vladimir Smicer (3-2)
60´ Xabi Alonso (3-3)
Cartões Amarelos:
AC Milan: nada a registar
Liverpool: Carragher e Baros
Publicado por andré viana às 02:21
Comentários
Isto é o que nos faz gostar de futebol. Torci pelo Liverpool contra o Chelsea e esperava que ganhassem ao Milan. Perdi as esperanças com o 2-0. Afinal, era uma equipa italiana. Lembrava-me da cena da Corunha, mas isso foram 2 jogos diferentes. Este, definitivamente, foi um ano pintado a VERMELHO vivo!
#1 | Comentado por: Jose da Cruz | 24 de outubro de 2005 às 21:12
Isto é o que nos faz gostar de futebol. Torci pelo Liverpool contra o Chelsea e esperava que ganhassem ao Milan. Perdi as esperanças com o 2-0. Afinal, era uma equipa italiana. Lembrava-me da cena da Corunha, mas isso foram 2 jogos diferentes. Este, definitivamente, foi um ano pintado a VERMELHO vivo!
Agora, para me encher mais de alegrias, só falta Domingo ver o Simão, Miguel, Mantorras, Moreira, Petit, Luisão, RR, Dos Santos, Geo e companhia levantarem mais uma tacinha!
#2 | Comentado por: Jose da Cruz | 24 de outubro de 2005 às 21:12