« União Leiria: Apresentação 05/06 | Entrada | Craque? É português! »

quinta-feira, 7 julho 2005

José Pedro: mago tardio com os pés assentes na terra

Categoria: Belenenses , Entrevistas

José Pedro

Há uns meses atrás, o Terceiro Anel foi ao Restelo falar com José Pedro, uma das figuras mais relevantes no Belenenses que atacou a época 04/05. Há muito que esse momento merecia publicação. Ainda assim, como mais vale tarde que nunca, e porque a conversa possibilitou uma interessante retrospectiva, aqui fica o registo desassombrado e directo de um número 10 para quem o sucesso nunca aparece tarde demais.

- Podemos começar por abordar esta época, particularmente o último jogo. Era um jogo importante, que acabou por não correr como se esperava.
- Sim, para nós não foi o que estávamos à espera. Vínhamos de dois jogos, dificilmente conseguimos vitórias fora, esta foi a segunda no Moreirense. Dada a nossa aproximação ao sexto lugar, preparámos o jogo de tal maneira que nem o empate nem a derrota serviam, e ficámos descontentes com o desfecho.

- Esperava uma postura tão defensiva da Académica?
- Era importante para eles pontuar, estando numa fase do campeonato em que um ponto fora é sempre um ganho, mas não pensando tanto neles, pensava que a nossa equipa ia dar uma resposta mais acertada, em relação à qualidade e ao valor da nossa equipa. Outros clubes, desde o início do campeonato, têm vindo aqui jogar de maneira fechada, e a procurar o contra-ataque. Mas não nos deixou indiferentes o facto de Académica ter vindo jogar dessa maneira, fechada, à procura do contra-ataque.

- Será que a equipa se sentiu intimidada pelo facto de estar prestes a conseguir a terceira vitória consecutiva?
- Não… Voltando à resposta anterior, acho que não esperávamos que a Académica viesse actuar assim. Acaba por não ser surpresa, porque as equipas vêm aqui jogar fechadas, sabem do nosso valor, e em casa nós temos tido grandes resultados. Penso que deveríamos ter dado outra resposta.

- A Académica não perdia há sete jogos. Todos nós vimos os jogos da Académica e reconhecemos essa postura defensiva…
- Sim. Acho que, para eles, um ponto fora nesta altura do campeonato era importante. Realmente, nós em casa somos fortes. Para nós jogadores, acaba por ser uma surpresa a Académica vir aqui tão fechada mas nós deveríamos ter dado uma resposta.

- Que balanço faz do campeonato até aqui, e de que forma analisa o momento da equipa?
- Acho que conseguimos aproximar-nos do 6.º e do 7.º classificado, mas não estamos a fazer um campeonato que permita, daqui a algumas jornadas, afirmar que o Belenenses tem equipa para lutar por um lugar nas competições europeias. O nosso campeonato fora de casa não nos permite avaliar as coisas assim e criar expectativas. Na realidade podemos. Vamos agora a Braga e recebemos o Guimarães.

- Ainda vão jogar com o Benfica…
- Até ao Guimarães, podíamos estar a discutir o 6.º lugar, se tivéssemos ganho à Académica, já que o Guimarães venceu fora. Não fomos tão fortes como costumamos ser em casa. Em relação às competições europeias, acho que o campeonato realizado até aqui não nos permite ambicionar muito mais. É uma tarefa difícil, e empatando em casa, e agora só nos resta ir ganhar a Braga, o que é muito difícil.

- Tem falado do desempenho fora, uma questão muito discutida quando se pensa nesta equipa.
- Primeiro… nós não somos Benfica, Sporting ou Porto. Depois, o trajecto que o Belenenses teve desde o ano passado, a lutar para não descer, depois com uma equipa nova, jogadores novos, treinador novo, e a querermos jogar taco a taco com as equipas fora de casa. Defendo esta forma de ver as coisas. Mesmo sendo vistos como uma equipa do meio da tabela, devemos actuar no 4-4-2 em que desde o início temos actuado, tanto em casa como fora, mas se formos recompensados por isso, ou seja, se ganharmos pontos fora a jogar com este modelo. Começámos bem mas perdemos três ou quatro jogos fora. Assim, acho que talvez não devêssemos actuar num 4-4-2. Talvez devêssemos apostar num esquema diferente, porque é fora. Quer queiramos quer não, é mais complicado que jogar em casa.

- Essa é um factor sempre referido ao nível profissional, mas nunca explicado.
- E a explicação para sermos tão fortes em casa?

- Pois, de facto.
- Eu não consigo explicar, sinceramente não consigo.

- E acontece não apenas em relação ao Belenenses… o mesmo acontece com muitas equipas.
- A análise que eu faço em relação ao Belenenses este ano, nos jogos fora de casa, porque não temos tido bons resultados… Em vez do 4-4-2 que nós normalmente costumamos usar, se jogarmos em 4-5-1 ou em 4-3-3, com um avançado e mais um médio, se calhar podíamos ter tido bons resultados. E talvez tivéssemos mais pontos fora e não estivéssemos a falar disto. Na minha opinião, a justificação, talvez se encontre no facto de estarmos a jogar constantemente em 4-4-2 fora de casa, sem resultados obtidos. Não diria que é vergonhoso, mas em termos de comparação com o desempenho em casa…

- Esta é a sua primeira época na primeira divisão, exceptuando uma breve passagem pelo Boavista. Começou bastante bem, com grande protagonismo, como uma das grandes figuras da primeira volta do campeonato. Que apreciação faz do seu desempenho até esta altura?
- Esse desempenho vem com os jogos. Ainda hoje me abordam na rua a propósito dos dois golos ao Benfica, até conhecidos… Aconteceu, só isso. Se me perguntassem se quero ir a Braga e marcar 2 golos, se queria jogar contra a Académica e marcar? Quero, quero jogar sempre. As coisas acontecem. Naquela altura, vínhamos de uma boa pré-época, entrámos no campeonato a ganhar, fomos ao Rio Ave fazer recuperar um resultado de 3-0… isto tem tudo um seguimento, mas também há quebras. Em determinadas altura, sentiu-se o peso de muitos jogos. E depois a tal quebra no campeonato…

- E o balanço pessoal?
- O balanço pessoal é muito positivo, porque quando cheguei Boavista e andei lá… passei lá um tempo… aqui a oportunidade foi-me dada, e acho que tenho correspondido. Como disse, no início do campeonato as coisas correram melhor. Talvez agora esteja a ser um momento menos positivo, até porque não tenho jogado, mas isso passa também pelo diálogo com o treinador, para poder descansar, ou recuperar de um toque. Mas faço um balanço positivo desta época.

- Falou da passagem pelo Boavista. Não foi, de facto, positiva. Acha que tem alguma coisa a ver com o estilo de jogo praticado pelo Boavista? Perguntamos isto porque há muitos casos de jogadores mais tecnicistas, criativos, que não vingam naquela equipa. Guga, Ricardo Nascimento, Rui Lima, o próprio João Pinto…
- Infelizmente, para mim. Em termos pessoais, foi um passo importante ter saído do Barreirense, na 2.ª Divisão B, e ter chegado a uma equipa que estava nas competições europeias, ainda participei na pré-eliminatória da Liga dos Campeões e depois na Taça Uefa. Foi positivo, em termos de salto. No que toca aos resultados da experiência em si, foi muito mau. Tenho pena que os jogadores com criatividades, que tentam jogar a bola no chão, estejam lá metidos. É o caso do Toñito, do João Pinto. Tenho pena que se vejam inseridos na cultura de jogo do clube. Toda a gente sabe como é… o tal pontapé para o ar. É mesmo assim, não me vou estar a desculpar. Aquilo funciona assim. Pontapé para o ar, muita correria, bater… na realidade eles têm pontos. Podem-me dizer que eles têm pontos e estão a discutir o título, e eu reconheço esse mérito, não o nego, mas o que têm feito o João Pinto e o Toñito? Têm jogado de vez em quando, depois volta a sair da equipa…

- O próprio Toñito assume tarefas mais defensivas…
- Exacto.

- O Jaime Pacheco insiste claramente nesse ponto…
- Sim, é isso… eu lembro-me de ter jogado o meu primeiro jogo contra a Académica, entrei na Superliga e ganhámos 1-0, na semana a seguir jogámos a pré-eliminatória da Liga dos Campeões em Telavive, perdemos 1-0. Eu fui considerado pela imprensa o melhor em campo, e o próprio Jaime e o João Loureiro felicitaram-me por ter sido o melhor em campo. No jogo a seguir recebíamos o Porto em casa para o campeonato, eu saí, e só joguei 8 jogos depois. Porquê? Foste o melhor em campo, e saíste porquê? Pronto… Foi para esquecer.

- Isto levanta uma outra questão. Se por um lado o Boavista pratica um jogo que pode ser considerado demasiado agressivo, por outro parece que o que falta a algumas equipas é precisamente uma maior agressivamente em detrimento do lado mais estético do jogo. O Belenenses pratica um jogo, a espaços, muito agradável e a fase inicial da época mostrou isso, trazendo adeptos ao Restelo. Mas a partir de um certo momento, a equipa perdeu credibilidade nos jogos fora, e a principal queixa dos adeptos passou pela falta agressividade sentida na equipa…
- Sim… isso depende dos jogadores, do treino que se faça. Por exemplo, nós andámos a jogar muitas vezes com um meio composto pelo Marco Paulo, o Andersson, eu e o Juninho. Destes 4, quem é que bate? O Andersson… muita qualidade de passe, bom posicionamento, mas não é trinco … o Marco Paulo é trabalhador, mas não desempenha essa função, eu a médio ofensivo e a jogar como médio trabalhador juntamente com o Marco Paulo, e o Juninho é médio ofensivo. Depende dos jogadores… temos o Pelé, se calhar o jogador que dá mais criatividade à nossa equipa, depois temos o Wilson que também é um central que joga e gosta de jogar… isto depende dos jogadores, do que se trabalha durante a semana, do que é que o próprio treinador pede… é um bocadinho subjectivo estar a falar porque acho que está tudo relacionado com as características… o método do Jaime Pacheco era “só se não puderem”.

- Isso nota-se durante os jogos...
- Mesmo o vocabulário durante a semana… “não metas o pé não, depois vais ver…” e com este treinador já não é assim.

- Pegando em Carlos Carvalhal… Chamou-o para trabalhar consigo no Vitória de Setúbal...
- Cheguei primeiro a Setúbal do que ele.

- Mas trabalhou com ele, e veio com ele para Belém. Podemos falar de uma relação de confiança entre si e o Carlos Carvalhal?
- Sim, na realidade há confiança. Eu lembro do processo de transferência do Boavista para aqui, até 2 meses antes do campeonato do Vitória terminar, que falávamos imenso e ainda não estava nada decidido em relação à subida do Vitória. Eu sinto que ele aprecia o meu trabalho e gosta da minha maneira de ser. E difícil os clubes portugueses darem dinheiro uns aos outros e o Belenenses pagou pela minha transferência porque eu tinha mais 2 anos de contrato. Na realidade, há uma grande confiança. Se calhar, dos jogadores do plantel deste ano, eu sou o jogador que tem mais confiança com o Carvalhal para discutir qualquer coisa. Vamos jogar agora contra o Braga, é muito fácil o Carvalhal chegar ao pé de mim durante a semana para falarmos sobre qualquer situação.

José Pedro

- Vamos mudar um pouco o tema, passando dos jogos para os adeptos. Que impressão achas que os adeptos têm de ti e que impressão guardas dos adeptos?
- De impressão que eles têm em relação a mim, para ser sincero ligo pouco a isso. A minha relação… Eles pagam quotas, são sócios, vivem o Belenenses de tal maneira que isto andando bem tudo bem, andando mal… Acho que o papel do jogador é trabalhar e dar o melhor ao emblema que veste. Eu procuro fazer isso, nos jogos em casa, fora, tento dar o máximo… agora, se gostam de mim ou não…

- E qual é a sensação de jogares num estádio com 30 mil lugares e teres normalmente 2 a 3 mil pessoas?
- Era bom que fossem sempre 30 mil… eu, como jogador, espero que o Benfica ganhe estes 2 jogos, para que, quando formos à Luz, o estádio esteja cheio.

- Essa é sempre uma motivação adicional?
- Sim, sem dúvida, e é preferível jogar sempre com as maiores enchentes possíveis. A maior aqui foi contra o Sporting, quem me dera jogar sempre aqui em casa com público, e o barulho, os adeptos assobiarem, gritarem…

- No fundo, quando os jogadores pensam em sair de Portugal, também pensam na atmosfera em redor dos jogos. As médias de assistência são mais elevadas em quase todos os países europeus.
- Ontem via um jogo da Série A e fico a olhar para aquilo… eu nunca joguei num estádio assim, mas é um ambiente impressionante…

- Uma outra questão tem a ver com o Belenenses. Estiveste no Boavista antes. São dois clubes que no passado disputavam o lugar de 4.º clube português. Achas que o Belenenses vive um bocado do passado e o Boavista mais do futuro? Achas que o Belenenses ainda tem ambições para ser um grande?
- Eu acho que deve manter essa ambição. Acho que não é o quarto grande, pelos estádios que visito, pelo público presente, pelo historial não sei que eu não ligo a história, eu sinto e acho que o Belenenses não é o quarto grande. Agora, a estabilidade que o Belenenses tem, principalmente a nível financeiro, coisa que raramente há por aí, o clube tem que alimentar isso.

- É um clube que gera confiança junto dos jogadores…
- Sim, sim, com as pessoas, o estádio que tem, as pessoas têm que ter isso em linha de conta, e levar isso para a frente.

- Em termos de balneário, achas que se sente alguma pressão em relação a essa aspiração que é de todos os adeptos?
- Em relação a este ano, estamos um pouco limitados devido às eleições, e sentimos um pouco isso. E também é o meu primeiro ano de Belenenses, acompanhei sempre o clube mas nunca no seu interior. Eu penso que este ano foi atribulado por não sabermos quem entra e quem sai…

- Até porque podia ter consequências ao nível da equipa técnica.
- Exacto. Se ganha o Mendes Palitos, se calhar tinha alterado imensas coisas aqui. Se fosse o Cabral Ferreira, que ganhou, e como o Sequeira Nunes continua a fazer parte da direcção, portanto, isso manteve-se na mesma linha. Li que o Cabral Ferreira quer manter os objectivos da Uefa e elevar o clube, acho que dada a linha que o clube tem levado, financeiramente estável e com um estádio assim, por aqui toda a gente fala do Belenenses, e sente-se isso. Eu moro no Montijo e há muita gente que torce pelo Belenenses.

- Há uma série de jovens jogadores no Belenenses. Destacarias algum?
- Normalmente, de manhã, costumo estar na brincadeira quando chego ao balneário, e trato o Ruben Amorim como um craque. Impressionou-me quando cheguei aqui, para a idade que tinha, a maneira como protegia a bola, como passa, como lê o jogo. De todos, e apreciando todos, destaco o Ruben, acho que é uma grande promessa.

- Se tivesses que assumir uma perspectiva mais geral sobre o espaço para os jogadores mais novos em Portugal, com tudo o que se processa em termos de transferências…
- Eu tenho 26 anos e acho que cheguei tarde à Superliga. Não estou a dizer que sou bom ou melhor que este ou aquele… porque eu vejo, na minha posição médio de centro-esquerdo temos o Hugo Viana, na selecção A, por exemplo, quem é que temos sobre a esquerda a jogar com o pé esquerdo? Ninguém. Houve jogadores com quem eu joguei no Barreirense que… uns chegam tarde, outros têm cabeça e seguem e chegam aos 27, 28…

- Chegaste a jogar com o Hugo Cunha?
- Joguei, e ele entretanto saiu para o Benfica. Não ficou, mas está lançado, e condições ele tem, é mais um número 10 português. Eu falo por mim mesmo. Eu cheguei com 19 anos na altura em que o Hugo foi para o Benfica, disseram que o José Pedro também ia, foram lá ver o jogo contra o Olhanense, ganhámos 3-1 e eu fiz 2 golos, disseram que eu também ia…e acabei por não ir, e ter que terminar o contrato para ser um jogador livre, e rumar ao Boavista, e o ano passado foi se calhar a minha grande época… e agora tenho-me afirmado a jogar constantemente aqui no Belenenses… mas acho que os clubes deviam apostar nas divisões inferiores e mesmo nas camadas jovens aproveitar os jogadores… vamos buscar brasileiros e estrangeiros que chegam aqui e a gente fica sem saber...

- Há bocado falou dos jogadores brasileiros, e estava a falar da sua época no ano passado, no Setúbal. Houve um jogador que se destacou, Jorginho. Lembro-mo de José Couceiro ter dito, antes do jogo contra o Benfica, que o Jorginho era o melhor jogador do campeonato português. Tu conheces bem o Jorginho, fala-se muito da sua possível saída, o que achas disto?
- Já joguei com muitos jogadores de qualidade, e não vi melhor jogador que o Jorginho.

- Achas que ele se afirmaria num grande?
- É o jogador mais completo, e chega. Joga bem de cabeça, com o esquerdo, com o direito, trabalha para a equipa, no um para um é o que é, toda a gente sabe, e a realidade é esta: no ano passado, foi o melhor do Vitória, este ano foi o segundo melhor em termos de regularidade na Superliga. Esteve quase para sair há 2 anos, mas o Vitória deve ter pedido muito dinheiro. Para mim, até hoje, o melhor jogador com quem joguei. Tive o prazer de lhe dizer isso da última vez que estive com ele.

- Tu jogaste em divisões inferiores, tal como outros jogadores de quem falaste. Que diferenças encontras ao nível da organização dos clubes, do tipo de jogo, das aspirações, do ambiente criado à volta dos jogos. Sentes que há uma grande diferença?
- Sim, sem dúvida que há. Eu lembro-me do Paulo Lopes, que foi emprestado pelo Benfica ao Barreirense, e eu perguntei-lhe uma vez qual era a diferença entre a primeira liga e a divisão B, ele respondeu que havia mais qualidade na Superliga. Mas claro, tudo o que envolve segundas divisões, mesmo no ano passado, jogando no Vitória, que é um clube de primeira liga, era como o Benfica, o Porto e o Sporting mas na segunda liga … é tudo diferente, eu joguei na Ovarense também na segunda liga, e a Ovarense comparada com o Vitória, não tem nada a ver…

- A Sporttv costuma acompanhar alguns jogos da 2.ª liga. Lembro-me de ver alguns jogos e notar diferenças notórias em termos de estilo de jogo. O que sente em relação a isso?
- Eu acho que na Primeira Liga há mais qualidade e há mais espaço. Só a questão de haver mais espaço e qualidade nos momentos de decisão… é tudo completamente diferente. E depois, segunda liga tem direito a uma página na segunda-feira com os resultados e pouco mais…

- Depois da Ovarense e do Boavista, andaste mais por clubes do sul. Notaste alguma diferença entre os clubes desta zona do país e do norte?
- Toda a gente diz que no norte vivem mais as coisas. Quando fui para o Boavista, tive um grupo complicado e, felizmente para mim, saí em Janeiro, comecei a treinar em Janeiro com a Ovarense. Os próprios treinadores do Norte quando vêm para aqui também dizem “epá, lá no norte até se mordem”… acho que é questão dos jogadores encararem, primeiro a vida, depois uma partida de futebol, os 90 minutos como o trabalho que tu fizeste durante uma semana, e acho que o jogador ou a equipa é a principal responsável pelo resultado, não tem nada a ver com o norte ou com o sul… mas a maioria diz que no norte é diferente, se calhar estive lá pouco tempo, não sei…

- E as diferenças entre jogar num clube como a Ovarense, uma cidade pequena, e um clube de Lisboa? Imagino que haja mais pressão e envolvimento quanto jogas num clube mais pequeno do que quando vives num sítio em que passas um pouco anónimo.
- Para qualquer lado que vou, sou mais reconhecido. O Barreirense aparece à segunda-feira na página dos resultados, no Setúbal, com os resultados, as próprias pessoas em Setúbal deram-me mais visibilidade. A maioria dos jogos do Belenenses passa todos na televisão, de certeza que depois tens mais visibilidade.

- Fala-se muito da unidade do grupo como um aspecto fundamental, mas se olharmos para o futebol actual vemos jogadores que todos os anos mudam de clube. Como é que se consegue criar estabilidade nas relações dentro do futebol?
- Vai-se ganhando um pouco com o dia-a-dia, se o colega do lado aceitar a tua brincadeira e gostar da maneira como falas, tudo bem, se vires que da parte dele há pouca receptividade… acabas sempre por ter 4, 5 jogadores com quem te dás mais… eu falo por mim. Aqui no Belenenses tenho 4 ou 5 com quem me dou muito, outros falo, dou-me, mas… funciona assim. Se marcas um jantar para a equipa se conhecer melhor e 2 ou 3 não vão, os outros falam disso… mas a seguir marcas outro jantar para a malta falar e estar dentro do espírito… é o principal factor para as coisas andarem bem. Se daqui a umas semanas marcas outro jantar e os mesmos 2 ou 3 não aparecem, os outros se calhar já não vão… se forem todos, maravilha… a equipa vai ganhando com as vitórias, estarmos todos disponíveis, vai-se ganhando no dia-a-dia.

José Pedro

- Pensámos em falar um pouco acerca dos empresários no futebol. Tem empresário?
- Tenho.

- Como é que surgiu o empresário na tua carreira? Já agora, quem é?
- Serafim Gambôa. Eu estava no Barreirense e lembro-me que havia um senhor que faz filmagens dos jogos, filmou vários jogos do Barreirense, achou que podia estar ali qualquer coisa, e dirigiu-se a mim e disse-me: tenho filmado os jogos, vou fazer um trabalho com os melhores momentos da tua época aqui no Barreiro. Eu disse que sim, até gostava de ter uma recordação. Entretanto ele fez o filme e entregou ao Gambôa, na altura eu não o conhecia. Entretanto continuou a época e recebi uma chamada quando estava nos Açores. Ele apresentou-se, disse que tinha o trabalho em dvd, e disse, até me lembro da expressão dele, “dou-te 5 mil contos na mão se pró ano não te puser num clube da primeira divisão”. Eu disse “está bem, até gostava de falar consigo”. Entretanto, passados dois dias ele ligou para mim e disse-me que havia este e este clube interessados. Depois fomos falando e houve uma vez que estive a falar com ele quando veio cá abaixo (ele é de Santa Maria da Feira) estive a falar com ele, e disse-me que havia o Boavista, e eu acabei por ir para o Boavista (…) e isso ajudou-me também

- E achas que os empresários são agentes importantes nas carreiras dos jogadores?
- Na minha opinião, são, sem dúvida.

- Vês jogadores que por terem melhores empresários acabam por ter melhores oportunidades?
- Sem dúvida, com menos qualidade mas com melhore empresários. Infelizmente funciona assim.

- Quando acompanhas o defeso e vês alguns jogadores transferidos para os 3 grandes, talvez penses que houve alguns jogadores que estiveram melhor…
- Sem dúvida… porque é que o Jorginho não está nestes 3 grandes? Está cá há 2 anos, devia estar, é o melhor número 10 de qualquer equipa dos 3 grandes. O Diego apareceu como grande estrela mas… conteúdo, onde é que está? Se calhar o Jorginho poderá chegar aos 3 grandes e eu duvido que ele não consiga afirmar-se. Sem sombra de dúvidas que é por causa dos empresários.

- E tu, achas que és um jogador que pode chegar aos 3 grandes?
- Eu acho que é mais fácil jogar nos 3 grandes, mas… eu ambiciono. Há pouco tempo falei numa rádio e eles perguntaram-me isso, se a minha ambição ficava por aqui. Eu acho que não, a minha ambição não vai parar, para ajudar o clube que estiver a defender, mas a minha ambição não pára aqui. Estou na Superliga e no Belenenses, imensamente satisfeito, mas a minha ambição não termina aqui, e não termina nos 3 grandes.

- Mas para já o futuro passa pelo Restelo…
- Sim, fiz 2 anos de contrato mais 2 de opção. Eu cheguei tarde à Superliga e o meu principal objectivo era jogar, felizmente isso tem acontecido. Mas também gostaria que estivéssemos melhor classificados, todos os jogadores e eu iríamos ter mais visibilidade, iríamos ser mais reconhecidos, penso que o primeiro passo está conseguido, tenho 25 jogos, a contar com os da taça, no meu primeiro ano de Superliga… acho que é muito bom.

- Há pouco definiste-te como um jogador médio centro-esquerdo… em função disso, como é que te defines como jogador, o que é que te deixa confortável?
- Eu acho que no Barreirense foram as únicas épocas em que eu actuei na minha real posição. Agora estou como médio centro sobre a esquerda…

- Mas qual é a tua real posição?
- Jogo onde joga o Juninho, onde joga o Neca, atrás dos pontas de lança como médio ofensivo, e ali tenho que ser um médio de transição, se a equipa perde a bola e eu tiver que vir até à minha linha de fundo, tenho que vir… sou um médio de trabalho. A equipa tirava mais proveito de mim se eu jogasse à frente do meio-campo, logo atrás dos pontas-de-lança, a aparecer mais na área, estar numa zona onde possa fazer mais vezes o último passe, onde tenho que ler o jogo, e é das coisas mais fortes que eu tenho.

- E quanto às limitações, em que aspectos do jogo tens mais dificuldade?
- Limitações… se calhar nisso mesmo, no trabalho de equipa. Talvez tenha menos qualidades, não consigo defender tanto, o meu jogo de cabeça não é dos mais fortes, apesar da minha altura. Tanto a crítica positiva como a menos positiva deixo-a normalmente para quem me está a ver, mas penso que passaria um pouco por isto.

- Quais são os jogadores com quem te identifica mais, que mais te influenciaram, os jogadores favoritos?
- Há uma série deles. Quando somos crianças e vemos os jogos nas televisões, se o Benfica é campeão a gente gosta mais daqueles jogadores, se o Sporting é campeão gostas mais desses, no estrangeiro a mesma coisa… por exemplo, um de que gostei muito, e joga no clube estrangeiro que mais aprecio, o Stan Collymore, apreciava muito a maneira de jogar dele, nos tempos do Barcelona gostei muito do Romário e do Stoichkov.

- E na tua posição? Tanto atrás dos avançados como a médio esquerdo…
- Vou-me guiar mais pela posição de que eu realmente gosto. Há poucos esquerdinos a jogar atrás dos pontas de lança, mas dos que eu mais admiro, o Jorginho é sem dúvida um deles… lá fora temos o Deco… A determinada altura, deixei de acompanhar tanto o futebol, hoje em dia acompanho muito menos mas… tenho o Jorginho como jogador favorito. Depois também gosto de um ponta de lança, de um extremo, acho que o Figo continua, mesmo como 30’s, a ser o maior de todos, joga com uma consistência enorme. Não conheço nenhum jogador que faça o que ele faz.

- Gostávamos de ter uma opinião tua sobre os jogadores portugueses. Com a Lei Bosman, muitos jogadores deixaram o país mas, olhando para trás, vemos que muito poucos vingaram realmente. Sucederam-se muitas experiências pouco positivas, o Ribeiro há alguns anos, o Nuno Gomes, o Hugo Viana e o Quaresma, este ano o Pedro Mendes… porque é que achas que isto acontece com estes jogadores que, sendo bons jogadores, quando saem de Portugal acabam por ter muitas dificuldades?
- Primeiro, acho que é a qualidade do jogador. Depois há vários factores, o tipo de futebol, o país para onde vão jogar, vários factores… as dificuldades de adaptação em relação ao clima, com a família… o Pedro Mendes está a atravessar um pouco aquilo que eu estou a passar no Belenenses, começou a jogar, depois teve uma quebra…

- O Pedro Mendes passa do campeão europeu para uma equipa de meio da tabela e sente bastante dificuldades…
- Também o Porto! (risos)

- Pois…
- Também não está a fazer o mesmo campeonato lá fora… mas depende de variadíssimos factores, por exemplo, da personalidade…

- Finalmente, em relação à imprensa, lês o que escrevem sobre ti e sobre o Belenenses, o que é que pensas sobre as críticas que te fazem? Os jornais baseiam a sua avaliação em notas... Ligas às notas e aos textos?
- Normalmente, compro os 3 jornais desportivos a seguir aos nossos jogos. De resto, tanto deixei de ver futebol na televisão como deixei de comprar jornais. Mas tenho alguma atenção. A minha mulher guarda sempre as notícias para um dia mostrar ao meu filho. Bom… ficamos satisfeitos com algumas coisas, ficamos menos satisfeitos com outras mas… é o trabalho da imprensa, nós temos que aceitar, a nossa grande prioridade é trabalhar bem naquela hora e meia, trabalhar bem hoje e amanhã para quando chegar a próxima hora e meia tentarmos fazer o melhor para o Belenenses ganhar. A imprensa lá tem o seu papel… consegue pôr jogadores aqui, outros acolá, alguns percebem do assunto, outros ainda são verdinhos, andam a ver se conseguem alguma coisa… a mim é-me indiferente falarem bem ou mal.

- Achas que, por vezes, a imprensa consegue apanhar bem os aspectos positivos e negativos do desempenho das equipas?
- Às vezes as opiniões que se lêem resultam das opiniões que os treinadores ou dirigentes têm. No dia a seguir vão pôr a opinião do treinador ou do dirigente e tu lês aquilo num jornal e não gostas… Conheço colegas meus que já foram para cima de jornalistas… A mim é-me indiferente, nós temos que aceitar, o nosso trabalho é este, a imprensa faz o papel dela.

- Da mesma forma que os empresários têm uma grande importância, achas que a imprensa também tem um grande peso?
- Infelizmente, os jornais também têm muita mão nas declarações… é pena que seja assim. Eu estou a falar disto porque já ouvi tanta coisa em relação a mim, levei tanto tempo a chegar à Superliga, se calhar quando cheguei houve muita gente que disse ‘quê, esse guedelhudo com brincos?...’ e o Carvalhal teve que lidar com isso no dia-a-dia até as pessoas verem que na realidade não era nada assim

- Uma última pergunta… Achas que o Carvalhal traça o futebol mais bonito e atraente deste campeonato? Há equipas que jogam bem, mas este é, de facto, um futebol muito estético...
- Posso ser um pouco mal interpretado, mas acho que o Carvalhal é dos melhores na actualidade, tanto ele como o Carlos Brito e o Vítor Pontes, que fazem parte da nova geração e, na realidade, têm outros métodos de treino, outra forma de lidar com o grupo no dia-a-dia. E há que dar continuidade a estes treinadores. Acredito que vamos ficar bem classificados e vamos fazer um bom trabalho juntamente com o Carvalhal, ele vai fazer a equipa com os jogadores que quer, e os resultados vão aparecer. É um dos bons treinadores da nova geração, sem dúvida.

Entrevista realizada por Alexandre Calado e Vasco Mendonça

Publicado por vasco mendonca às 14:32