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quarta-feira, 20 julho 2005

Ricardo Nascimento: «Ah!... Amigos, que saudades de Portugal e do pessoal do Rio Ave!»

Categoria: Entrevistas , Portugueses no Mundo

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Ricardo Nascimento foi, durante o período em que alinhou no Rio Ave 2004/05, um dos jogadores mais aclamados pela crítica, e também pelos adeptos do futebol. O médio acabou por sair de Vila do Conde rumo a Seul, na Coreia do Sul, onde representa, desde Fevereiro o emblema da capital sul-coreana. Neste momento a K-League (equivalente à nossa Superliga) está parada, estando a equipa do FC Seoul, onde também alinha o ex-Rio Ave Pedro Franco, em 5º lugar com 19 pontos, a seis do líder Busan I’ Park, antiga equipa do ainda rioavista Gaúcho. Ora ‘Rixa’, como é conhecido o nº 10 que tantas saudades deixou aos adeptos do clube nortenho, é um dos médios em foco na K-League. Ao seu futebol elegante, tem juntado inúmeras assistências e alguns golos que, recentemente, têm levado o FC Seoul a reaproximar-se do topo da tabela. O Blogue do Rio Ave, e o seu parceiro Terceiro Anel, estiveram há dias em conversa com Ricardo Nascimento abordando o português sobre o seu momento em Seul, primeiras impressões do estilo de jogo asiático e confissões bem 'temperadas', entre, claro está, muitos outros aspectos que, seguramente, serão do interesse de todos quantos o admiram.

-- Ricardo, como têm sido estes primeiros meses em Seul?
-- Acho que, quer profissionalmente, quer financeiramente, têm sido muito proveitosos. Posso-vos dizer que individualmente tudo me está a correr bem, mas, de facto, colectivamente nem por isso. As coisas estão complicadas. No entanto, em termos pessoais, o meu início foi bastante difícil. Quando cheguei, o treinador, ao ver que o meu futebol estava a ofuscar o número 10 do FC Seoul e ídolo aqui na Coreia, tentou desestabilizar-me. Mas como os adeptos gostam e sempre gostaram de mim, tive o seu apoio e agora todos gostam do Ricardo.

-- Mas chegado a um país desconhecido, uma língua diferente e tradições culturais tão diferentes, como foi a sua adaptação?
-- O início foi complicado. Comecei por chegar cá e ver os dirigentes do clube a apreenderem-me o passaporte e os bilhetes de avião com medo que eu fugisse, tal como aconteceu com alguns estrangeiros. Até que os ameacei com um processo na FIFA e fiz-lhes ver que não era nenhum ladrão ou mercenário! Estava ali para jogar futebol! Hoje está tudo resolvido.

-- Além desse episódio guarda mais alguma memória da sua chegada?
-- Sim. Posso falar da sorte que tive em ser recebido pelo Professor Flávio, um brasileiro que faz parte da equipa técnica do clube. Ele é uma pessoa com muita experiência no futebol e que me tem ajudado muito.

-- Sobre o futebol sul-coreano, quais as primeiras impressões sobre o campeonato? Sabemos que é um futebol rápido e onde se nota muito ‘proteccionismo’ face aos jogadores da ‘casa’...
-- O jogo é sempre disputado em alta rotação. Eles privilegiam esquemas de 3x5x2, com dois avançados bem abertos na frente e um meio campo bastante defensivo. Depois ‘despejam’ a bola na frente e gritam «pali, pali», que é rápido, rápido!... Posso dizer-vos que dos treinadores europeus que estiveram por cá, aqueles que alcançaram sucesso, como o Guus Hiddink, conseguiram-no depois de dispensar todos os coreanos do staff técnico. Quanto à protecção aos coreanos é verdade. Eles não me dão tanto moral por eu ser estrangeiro.

-- Como é que o futebol português é visto na Coreia?
-- As pessoas ainda não esqueceram o Mundial 2002 e sobretudo o Coreia do Sul-Portugal, que ainda há dias passou numa televisão. O Figo, que aqui é chamado de 'Pigo', é o jogador mais adorado, mas muita gente elogia a Selecção e o talento dos jogadores portugueses.

-- Outro dos portugueses do Rio Ave que acabou por acompanhá-lo nesta aventura foi Pedro Franco, depois de Zé Gomes também ter estado perto de viajar para Seul. Ultimamente têm chegado à imprensa portuguesa «ecos» de que ele não está a atravessar um bom bocado. Franco anda tão mal como parece?
-- O Franco está a passar uma situação complicada: ele precisa de ajuda. Talvez do Carlos Brito, se é que me entendem...

-- Acha então que o Franco devia regressar ao futebol português no imediato?
-- Sim, acho. Mas, para mim, isso vai ser muito mau, pois o Franco é a minha companhia. Sem ele por cá, não sei se aguento isto por aqui...

-- Mas, concretamente, o que se tem passado com ele?
-- É uma vergonha aquilo que estão a fazer ao rapaz... Para mim, é um dos melhores centrais de Portugal e agora nem sequer é convocado. É uma vergonha! O Franco marca golos e impede que os avançados marquem. Por isso é que digo que, para mim, é o melhor defesa central.

-- Um jogador do FC Seoul, também lusófono, que tem estado em evidência é o avançado brasileiro Nonato. Acha-o com potencial para jogar em Portugal?
-- É muito bom avançado, marca muitos golos, mas não se mexe muito... Por isso não joga aqui no FC Seoul [risos]. É que este treinador quer que os avançados corram e que nunca estejam na área. É estranho...

-- E o seu dia-a-dia em Seul, como é passado? Convive com os seus colegas de trabalho?
-- Aqui não há o hábito de reunir o plantel à mesa, por isso saio algumas vezes para jantar fora com a minha família e a do Franco. O rodízio brasileiro é sempre uma boa solução, já que a gastronomia local não me cativa. As nossas crianças andam felizes e adoram ir a um parque de diversões parecido com a Disney World. Mas Seul é uma cidade que nunca pára e existem ofertas de espectáculos a todas as horas. Contudo, prefiro passear com a família e estou a ver se tiro um tempo para voltar à pintura, até porque já descobri uma loja que vende telas e tintas.

Image hosted by Photobucket.com-- Regressando a Portugal, sabemos que acordou com o actual presidente do Rio Ave que o clube de Vila do Conde teria prioridade na sua aquisição num eventual regresso a Portugal. Mantém aberta essa porta?
-- Para o Rio Ave, sempre! Mesmo estando um pouco triste com aquilo que disseram depois da minha saída. Li várias declarações em que algumas pessoas desvalorizaram a minha ausência em termos de rendimento da equipa. Contudo, não deixo de estar muito agradecido e de ser muito elogioso com todos, especialmente com os adeptos, que muito me acarinharam.

-- Mas quando fala que houve pessoas que o desvalorizaram, está a referir-se a quem?
-- Bem... Quando tu dás tudo e o presidente diz que tu és um exemplo no clube, e depois lês as declarações dele no jornal e não diz nada daquilo que tu ouviste na palestra de despedida... É difícil de compreender. Eu só fico triste, mas o importante é sermos todos amigos. Aliás, quando o presidente Paulo de Carvalho e o Paulo Fangueiro vieram cá tive todo o prazer em falar com eles e de lhes dar um abraço. Isso é que é importante! E fiz questão de lhes dar a minha opinião em relação à maneira como saí. Agora, publicamente, eu sempre tive uma postura que outros não tiveram.

-- Então continua a olhar a hipótese de regresso ao Rio Ave com bons olhos?
-- Eu estou e estarei sempre agradecido ao Rio Ave. Mas não nos podemos esquecer que a pessoa que realmente me contratou foi o ex-presidente, Carlos Costa. Também deixei bons amigos no balneário, como o caso do capitão Gama. Ele foi o único que, publicamente, aquando da minha saída, foi correcto para comigo. Lembro de ele dizer que eu ia fazer falta aquele balneário. São coisas que não se esquecem.

-- Como sabe, Carlos Brito abandonou o clube e António Sousa é o seu sucessor. O plantel também sofreu várias mexidas. Como antevê, à distância, a nova temporada do Rio Ave?
-- Para mim a vida do Rio Ave será bem mais difícil após a saída do Carlos Brito. Como gosto de dizer, uma estrela só brilha se a noite for bonita e naquela equipa todos os jogadores eram lindos. Acho que alguns, que não tiveram muita sorte na temporada passada, deviam ter permanecido no clube. Eram não só bons jogadores, como também grandes pessoas, que ajudavam muito o grupo e o clube.

-- Dos jogadores que saíram do Rio Ave, dispensados no final da temporada 2004/2005, a quem se referia particularmente?
-- Por exemplo, o Jacques. O Jacques é um talento, vocês vão ver! Acho que não foi para o clube ideal e vai sentir muito a saída de um clube maravilhoso como o Rio Ave, mas fundamentalmente a entrada num clube complicado como é o Penafiel. O Saulo é craque e que craque...

-- Mas Carlos Brito também apostou pouco nesses dois jogadores, porque é que eles não terão dado tanto nas ‘vistas’?
-- É simples. Quando tens jogadores como o Gama, o Evandro ou o Paulo César, é difícil teres lugar na equipa. Apenas isso...

-- E, mudando de clube, como antevê o ‘novo Boavista’ de Carlos Brito? Gostava de voltar a vestir de ‘xadrez’?
-- Vai ser diferente. Não há comparação possível entre o Carlos Brito e o Jaime Pacheco. O Pacheco está a anos luz do Carlos Brito como treinador e também como gestor de homens. Claro que gostava de regressar ao Boavista, pois sei que o João Loureiro gosta de mim e está lá o Carlos Brito. Mas também não me esqueço que estive muitos anos contratualmente ligado ao clube, praticamente sem oportunidades para jogar.

-- Carlos Brito é um treinador marcante para o Ricardo...
-- Vocês não imaginam aquilo que ele fez por mim!... O Carlos Brito foi e será sempre muito, mas mesmo muito importante para mim!

-- Um dos reforços do ‘novo’ Boavista é Paulo Jorge, um extremo que foi seu colega no Maia em 2003/2004, o que pensa dele?
-- Há uns tempos atrás, numa entrevista ao jornal Público, eu disse que o Paulo Jorge ia ser um craque com sérias hipóteses de ir à Selecção Nacional caso fosse treinado pelo Carlos Brito... Só que a jornalista que me entrevistou, não publicou essa parte.

-- Pela quantidade de clubes que representou, também já conheceu uma série de diferentes treinadores. Para além do Carlos Brito, que ideia tem de técnicos como Carlos Manuel ou Luís Norton de Matos?
-- Bem, o Carlos Manuel foi meu treinador no Salgueiros. Ele é difícil de se compreender, um pouco como eu [risos], mas muito bom no que faz. Acho-o excelente. Com Norton de Matos, também no Salgueiros, apenas trabalhei pouco mais de um mês. Depois disso, só o vi em festas [risos].

-- E em Barcelos, ao serviço do Gil Vicente, como foi o seu relacionamento com Luís Campos? Será que é mesmo o treinador de ‘sonho’ que ele tantas vezes, orgulhosamente, vaticina?
-- Não foi fácil! Ele é uma pessoa detestável. Acho que é um bom treinador quando está a dormir.

-- Há pouco falávamos do Salgueiros de Carlos Manuel. Em 2002/2003, num jogo em Vila do Conde, marcou um golo ao Rio Ave, ainda tem ideia dessa partida?
-- Sim, marquei aos 97 minutos, através de um golo de penalty. É engraçado, mas acho que marquei quase sempre que joguei contra o Rio Ave. Mas volto a repetir, foi a jogar no Rio Ave que fui mais feliz.

-- Outro dos momentos conturbados na sua carreira e sobre o qual ainda pouco se sabe foi a experiência no futebol francês, em 2000/2001, ao serviço do Montpellier. Que memórias carrega desses tempos? Como eram os seus colegas? E a equipa técnica?
-- Esse ano em Montpellier foi terrível para mim. Estive mais ou menos seis meses lesionado. Lembro-me de vários jogadores dessa equipa. Os avançados Patrice Loko ou o Nicolas Ouedec eram muito bons, por exemplo. Mas também o Maoulida, o Rui Pataca ou o Paulo Sérgio eram jogadores fabulosos. Quanto ao treinador, Michel Mézy, só me lembro que quando lá joguei as pessoas o respeitavam mais como jogador do que como treinador. [risos]

-- Falou-nos, há instantes, da imprensa e de um caso claro de limitações no espaço editorial, à distância de milhares de quilómetros como é que vê os ‘desportivos’ portugueses e, particularmente, o acompanhamento da sua carreira na Coreia?
-- Estou triste com a cobertura que os orgãos de informação têm feito à minha carreira aqui no FC Seoul. Acompanho todas as publicações via Internet e posso garantir que apenas o Blogue do Rio Ave e o jornal ‘Record’ se lembram que o Ricardo Nascimento joga na Coreia do Sul.

Image hosted by Photobucket.com-- O Ricardo esteve várias vezes na lista de reforços de inúmeros clubes durante a década de 90 e também já bem por dentro dos anos 2000, mas apenas o Rio Ave lhe resolveu voltar a dar uma oportunidade na Superliga, em 2004/2005. O que é que o impedia de estar a jogar ao mais alto nível?
-- Basicamente, as más-línguas. É muito complicado quando vais contratar um jogador e toda a gente fala mal dele. Felizmente o Carlos Brito acreditou em mim e contratou-me. Eu sei que o meu nome já andava na cabeça dele há uns anos, aliás posso dizer-vos que o Brito só não sonhou comigo, numa equipa sua, durante seis meses! Os seis meses que representei o Rio Ave... [risos]

-- O Benfica anda no 'mercado' a procurar um número 10. Sente que podia ser a solução?
- Em tempos tive a oportunidade de representar o Benfica, mas, se calhar, não teria sido feliz no clube. Contudo, apesar de ser portista, tenho fascínio pelo Benfica e pelos seus adeptos. Temos em comum o gosto pelo futebol espectáculo e o ambiente na Luz é incrível. Não é por acaso que é o clube do povo e eu sou do povo, carago! [risos]

-- Que expectativas quanto ao seu futuro? Continuar na Coreia do Sul ou regressar a Portugal?
-- Eu tenho dois anos de contrato, mas, por mim, caso surgisse uma boa oportunidade, ia embora. Mas depende muito da minha família. Só sei uma coisa, é quase impossível falar coreano! Ah!... Amigos, que saudades de Portugal e do pessoal do Rio Ave!


Mais informações e curiosidades sobre a carreira de Ricardo Nascimento e Franco, no FC Seoul, em Cor(r)eia de Transmissão , no Blogue do Rio Ave.

Publicado por joão carmo às 12:45

Comentários

Bem, sem papas na língua... numa equipa do Pacheco ou do Luis Campos, o Ricardo Nascimento não joga de certeza.
:)

#1 | Comentado por: Pedro Santo | 24 de outubro de 2005 às 21:11

Confirma-se o que eu também pensava do Luís Campos.

Foi arrasado completamente.

#2 | Comentado por: Pedro Neto | 24 de outubro de 2005 às 21:11

sem papas na lingua mas quando for treinador,se o chegar a ser tambem podem falar dele da mesma maneira,pois os treinadores para ele so são bons quando joga,se não.....não prestam.
De resto no geral gostei da entrevista.Desejo-lhe sorte...

#3 | Comentado por: PEDRO SOUSA | 24 de outubro de 2005 às 21:11

que grande entrevista! nunca tinha visto um jogador profissional ser tão sincero numa entrevista antes. parabéns Ricardo!

#4 | Comentado por: Cláudio Assunção | 24 de outubro de 2005 às 21:11