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quarta-feira, 31 agosto 2005
Domingo Subjectivo - Edição 100!
Categoria: Col: João Gonçalves

Dois Anos de Domingo Subjectivo
Esta é uma crónica especial, a minha coluna de opinião neste blog atinge o bonito número 100, e coincide com o segundo aniversário deste cantinho que chamo de Domingo Subjectivo. Em Agosto de 2003 começava a escrever estes textos que acabaram por ser sempre bem recebidos e comentados de uma maneira geral, e que foi espelhando semanalmente o estado de espírito deste benfiquista. Posso dizer que tem sido uma caminhada feliz, já que testemunhei uma época que acabou com uma bela vitória da Taça de Portugal, e outra que foi histórica e devolveu o título ao meu Benfica. Desta última época ficam em arquivo textos cheios de emoções e carregados de sentimento que um dia mais tarde vai saber bem voltar a ler.
Por isto tudo, penso que faz sentido continuar a publicar regularmente esta coluna e partir para uma nova época rumo ao 3º aniversário, portanto vamos a isto!
Depois da bonança vem a tempestade?
Começo pelo fim da última época. Depois de conquistado o campeonato, os primeiros dias de férias futebolísticas foram vividos com uma sensação que tudo tinha mudado. Ou seja, o impossível estava feito: voltar a ganhar o título nacional. Portanto, pessoalmente algo tinha que mudar, aquela adrenalina toda acumulada no último ano foi gloriosamente descarregada, e isso iria ter consequências. Durante umas semanas pensei que a principal consequência seria diminuir substancialmente o número de viagens para ver o Benfica jogar. A ânsia diminuiu, as quinas fazem parte da minha manga esquerda, tudo ficou mais calmo.
Mas a verdade é que ainda agora começou a época e já dei comigo a assistir a jogos ao vivo no Barreiro, no Algarve, em Coimbra e, claro, a todos na Luz.
Penso que não irei ver tantos jogos fora como na última temporada, mas o que mudou não foi bem isso. A diferença está na abordagem aos jogos. É mais calma, e o sentimento que algo não está bem aparece com mais naturalidade do que em anos anteriores. É que apesar do arranque no campeonato ser desastroso, pelo meio já houve mais uma taça conquistada, e isso ajuda a ter calma. Só que parece que se aproximam tempos complicados para os benfiquistas, tempestade depois da bonança que foi o mês de Maio.
Gestão complicada e trapalhona
Com o título conquistado estavam criadas condições para esta direcção tomar fortes decisões e assumir um caminho fixo. A meu ver, ou o Benfica assumia a falta de poder financeiro para atacar a sério o mercado, ou anunciava que ia apostar forte no reforço da equipa tendo em vista segurar o título nacional e fazer boa figura na Europa, e ganhando algum retorno monetário com uma boa carreira na Liga dos Campeões.
Ora, o que se viu desde o fim do campeonato foi uma grande confusão de ideias que vão dar mau resultado.
Vamos por partes:
O Kit
a ideia do famoso kit parece-me ser muito boa. Luís Filipe Vieira tem toda a razão quando disse que não se percebe como é que o país se diz encarnado, tanto vibra com as vitórias do Benfica, e mais importante, tanto cobra nas horas amargas, e depois só uma centena de milhar é que se assume como sócio do clube. Eu também nunca percebi como é que há tantos benfiquistas e tão poucos sócios efectivos, por isso dou o maior apoio à iniciativa da direcção, foi um caminho muito bem escolhido e que devia ter a adesão pretendida. Porque quando o Presidente diz que os benfiquistas é que escolhem que clube querem, tem toda a razão! De há muitos anos para cá que as pessoas só criticam e cobram ao clube, mas depois para se encher o estádio da Luz durante o ano onde andam esses benfiquistas?! Conheço pessoas que todos os dias falam e vivem o quotidiano do clube de maneira apaixonada, mas acham um exagero entrar para associado, não faz sentido... É uma relação promíscua em que o adepto exige, critica e quer tudo do clube, e o clube não pode pedir nada em troca porque é ... caro.
Neste aspecto dou toda a razão ao Presidente, que de facto tem feito um esforço notável na divulgação de um produto ambicioso, bem pensado e que devia ser bem sucedido.
O problema está nos excessos de Vieira, entusiasma-se com a ideia e depois exagera claramente. Não lembra a ninguém fazer chantagem, nem colocar fasquias demasiado altas em relação ao objectivo final. Teria sido melhor seguir o caminho pedagógico das explicações das vantagens económicas em aderir ao kit, do que começar a ameaçar com saídas antes de tempo. Mas, enfim, lá emendou esses devaneios, e voltámos ao essencial. O kit está aí, e os benfiquistas que não são associados deviam ponderar bem a sua aquisição.
Reforços
Aqui é que a direcção se espalhou ao comprido. José Veiga não consegui ser o ponta de lança no mercado que Luís Vieira tanto precisava. E aqui as coisas não foram claras! Tivemos o caso Miguel, em que todos saem mal na fotografia e que congelou uma verba importante para compras. Ou pelo menos assim parecia. Mas a verdade é que o Presidente fez questão de explicar que os lucros de 10 milhões de euros provenientes das saídas de Alex e Miguel iam direitinhos para os compromissos bancários.
Então, a conclusão a tirar seria que a direcção estava mais preocupada e empenhada em ir endireitando as finanças, o que só lhes fica bem, dando assim bom seguimento à política de enriquecimento de infra-estruturas do clube, como o Centro de Estágio quase acabado. Seria um discurso realista, que os benfiquistas talvez não gostassem de ouvir mas que retirava a pressão e a expectativa em relação a grandes reforços. E aqui é que começa a grande contradição. O discurso anterior colide com as palavras inflamadas de Luís Filipe Vieira pelas casas do Benfica de norte a sul, quando anuncia que temos reforços contratados de deixar todos de boca aberta! Que garantia a vinda de jogadores de nível indiscutível para atacar o sonho da Liga dos Campeões!
Este é o tipo de discurso que não faz sentido quando se quer endireitar finanças. Depois foi ver Tomasson fugir para o Estugarda e Kalou ficar na Holanda. Grandes falhanços em alturas cruciais de preparação.
O tempo foi passando e ninguém chegou para verdadeiramente reforçar a equipa. A direcção ficou prisioneira das promessas fáceis e populistas dos seus líderes, quando até mostraram boa capacidade para fazerem excelentes negócios como a venda de Alex e a compra de Nelson!
Treinador à nora, ou talvez não...
Só que essa boa operação era ofuscada pela sede de grandes nomes pela parte de adeptos e imprensa... e, pior de tudo, treinador!
É que Ronald Koeman às tantas deve ter percebido que estava a passar pelo mesmo filme dos seus antecessores. Camacho e Trapattoni ainda estão à espera de “10” e “9”, a diferença é que mostraram competência para agarrar o desafio com poucos ovos e apresentaram omeletas no fim, enquanto o holandês parece completamente perdido e traído pelas promessas.
Realmente, se olharmos para a base do Benfica não se pode falar em equipa fraca, há ali grandes jogadores e que já jogam juntos há tempo considerável, e se houver alguém a prometer compor o quadro com dois ou três jogadores de nível mundial, então o desafio de os treinar torna-se quase irrecusável. Mas quando se percebe que o “pormenor” dos tais de nível mundial não virem, o sonho torna-se pesadelo.
É este o quadro actual em que Koeman navega. Seguem-se experiências, jogadores deslocados, esquemas tácticos ensaiados durante os jogos e resultados maus, com exibições preocupantes.
Sejamos francos, mesmo que o 3-4-3 vingasse, há quem defenda que estava a resultar bem até Ricardo Rocha sair, não era um sistema a adoptar não maioria das partidas. É preciso é solidificar o 4-3-3 , que é o preferido de Koeman, não há que inventar, há é que pressionar os senhores que prometeram, a cumprir as promessas de bons avançados.
Um arranque horrível
E no meio de tanta promessa e convicção o Benfica ataca a Supertaça e vence de maneira pouco convincente, mas adquirindo mais um fôlego de vencedor. O pior é que assim se manteve para o início da defesa do titulo, e aí as coisas descambaram em grande! Dois jogos, zero golos, um ponto, nenhum sistema de jogo adquirido e onda encarnada a transformar-se numa ribeira quase seca. Um arranque muito mau, todos concordam.
Embora não seja defensor de grandes teorias de conspiração não consigo evitar o desenvolvimento de um raciocínio sobre o novo treinador do Benfica. À partida parece-me que ele consegue uma pequena “vitória” perante os seus responsáveis. Parece-me que o holandês cedo percebeu que corria o mesmo risco de ficar sem reforços a sério, como aconteceu com os dois treinadores anteriores. Nesta altura há um ano Trapattoni levava duas vitórias em dois jogos , e embora continuasse a insistir em reforços teve de contentar-se com que tinha. E seguiram-se mais três vitórias... Calaram-se os pedidos de cobradores de promessas. Koeman, e com muita legitimidade, não quis correr esse risco e a partir de certo momento, desde o jogo com o Chelsea, percebeu que corria mesmo o risco de não ter reforços, ou pelo menos dos tais que nos iam deixar boquiabertos. É precisamente a partir daí que se seguem as maiores “invenções” do novo treinador, jogadores fora das suas posições, apostas em miúdos como Hélio Roque, depois congeladas, e a maior surpresa de todas: trocar o “seu” sistema de sempre, 4-3-3, por um inesperado e descontextualizado 3-4-3!
Talvez Koeman quisesse com isto dizer a Veiga e Vieira que era melhor cumprirem o prometido, ou então iam ter muito que ouvir dos sempre conservadores sócios encarnados, que não gostam de grandes alterações tácticas na sua casa.
Quem garante que Karagounis chegaria à Luz se não tivesse havido este arranque tão mau?! Pelos vistos há mais um, ou dois, jogadores a chegar e isso só pode ser uma vitória de Koeman. Apesar de eu não pensar que o treinador fez de propósito para perder pontos, mesmo porque contra o Gil Vicente bastava Simão cumprir bem o seu papel e tudo teria sido normal, isto que fique claro.
Agora é que vamos ver se Koeman tem mãos para este desafio, ou afinal este aparente desnorte é mesmo para confirmar daqui para a frente.
Cá estaremos para ver.
Publicado por João Gonçalves às 00:23
Comentários
Boas,
Basicamente concordo na integra com tudo aquilo que o JG aqui escreveu. Creio até que deve ser a opinião da maior parte dos campeões com dois dedos de testa.
É bem verdade que o SLB pós chelsky não foi o mesmo que tinha sido até então. Nos primeiros jogos da era Koeman a equipa, embora contra adversários fracos, tentou sempre jogar a bola no pé, com movimentações rápidas boas triangulações que se traduziram em boas oportunidades de golo e exibições bastante agradáveis. Parecia estar afastado mais um dos fantasmas que me atormentava nas épocas transactas, o do "charuto para frete e corre maluco".
Infelizmente depois desse jogo chelsky, o SLB não mais foi o mesmo. No jogo com a Juve o SLB foi fustigado por um futebol fantástico, que só não correu pior porque estávamos em festa e ouve alguma benevolência por parte dos mega campeões italianos. Nos restantes não Jogamos um “caracol”. Estoril, Barreirense, Vitoria, Coimbra e ate mesmo o Gil foram jogos paupérrimos, ao nível dos que via à 4/5 anos atrás e isso assustou-me bastante.
Vou tentar acreditar na teoria da conspiração, pelo menos sempre dá para aguentar a toalha mais um bocadinho. Que assim seja.
No meio de tanta tragédia, é de realçar um aspecto, quanto a mim, muito positivo que foi a forma como a direcção do SLB contratou o Nelson e o Karagounis. Sem fugas de informação e com a imprensa desportiva a ver navios. O jovem lateral pode vir a ser uma mais valia, uma vez que cruza com muita qualidade e faz o corredor todo. O Grego, quer queiramos ou não, é um campeão europeu que vem de uma equipa de top e que muito pode ajudar na organização de jogo do Campeão. Não há dinheiro para Kakas e Decos, que são os que deixam os amantes do futebol de boca aberta. Sejamos realistas e compreenda-mos aquilo que o LFV quis dizer quando usou essa expressão.
Saudações Benfiquistas.
P.S.; Até ao fim do dia de amanha é vindima...
#1 | Comentado por: Joao Felix | 24 de outubro de 2005 às 21:10
em 1º lugar, parabéns!
conheci o domingo subjectivo há uns meses, algures no meio da louca caminhada para o título, e foi com agrado que descobri que mais alguém sentia a ansiedade que era passar mais uma semana e esperar por mais 90 minutos. ver menos 90 minutos na contagem decrescente. assim que terminava cada jogo eu só pensava - e agora mais uma semana para o proximo...
ir assistir a jogos do glorioso fora entao é uma coisa do outro mundo! o ambiente nas estações de serviço e pelas estradas fora é algo de extraordinário. e nao foi só nestes ultimos meses porque o título estava perto.
quando fui ao porto ver o jogo com a lázio o ambiente antes foi igualmente entusiasmante. na estaçao da mealhada, na fila por causa das obras na A1. efectivamente, este é o maior clube do mundo!
em relaçao ao momento actual, eu confio no treinador. se fomos campeões com o trap vamos ser com o koeman de certeza! espero que a tua teoria da cosnpiraçao esteja certa. ainda para mais agora que não perdemos o capitao!
felicidades e muita inspiraçao para mais 3 anos de crónicas gloriosas! ; )
#2 | Comentado por: ana oliveira | 24 de outubro de 2005 às 21:10
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