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quinta-feira, 8 setembro 2005

Sporting - Benfica :: na pele da Águia

Categoria: Benfica , Col: João Gonçalves

Alvalade, 14 de Dezembro de 1986
14ª Jornada
Sporting - 7 Benfica - 1

Neste momento já os meus amigos lags estão a rejubilar por eu estar a puxar desta tragédia pela memória. O facto é que aceitei com o meu companheiro de bancada, Pedro Varela, falar do primeiro derby de Alvalade que eu tivesse visto ao vivo.
A triste verdade é esta: estreei-me com os famosos 7-1! Mas não se pense que foi o primeiro jogo que vi em Alvalade, longe disso...
Na década de 80 já vivia em Benfica e a doença pelo futebol estava ao rubro, por isso os fins de semana eram passados ou no estádio da Luz a ver o meu Benfica, ou em Alvalade a agoirar o rival. Sempre com o mesmo grupo de amigos, onde se destava um portista cujo gozo era ir agoirar os dois. Naquela altura os jogos eram quase sempre disputados a horas decentes, e miúdos como nós não tinham de pagar bilhete em nenhum estádio, por isso era mais do que natural passarmos o tempo a assistir futebol ao vivo.

Acontece que para irmos precisávamos da autorização dos pais, e os meus nunca me deixaram ir ao derby em Alvalade, já na altura havia receios.
Finalmente, em Dezembro de 1986, tinha eu a bonita idade de 13 anos, tive a tão desejada autorização para acompanhar a malta mais velha, e rumar a Alvalade de autocarro, o 50 que vinha de Algés. Vesti-me a rigor e até uma bandeira de tamanho consideravel levei comigo.
Foram horas emocionantes, ia defender as minhas cores na casa do inimigo, finalmente podia gritar golo contra os lags sem complexos, no meio dos meus. Que nervoso senti nas horas que antecederam essa estreia no topo norte do José de Alvalade.

Lembro-me muito bem de tudo, da bancada norte completamente cheia, na sua maioria por benfiquistas, do tempo cinzento, próprio de Dezembro. O mais curioso é que o jogo nem foi o massacre que o resultado deixa adivinhar. A primeira parte foi muito equilibrada, o Sporting fez o 1-0, por Mário Jorge aos 15' e não houve alterações no marcador até ao intervalo.
E mesmo os primeiros minutos da segunda parte não deixavam antever nenhuma goleada. Manuel Fernandes fez o 2-0 aos 50', mas 9 minutos depois, Wando relançou a duvida no resultado ao fazer o 2-1. Foi o primeiro golo que vi ao vivo em Alvalade, foi marcado na nossa baliza, ou seja no topo norte. Deu para fazer uma festança, acreditava-se no empate.
O pior foi quando Meade aumentou para 3-1 aos 65'. A partir daí foi o descalabro da equipa de Mortimore. A mim parecia-me que cada vez que o Sporting ia lá abaixo, ao outro lado do campo de onde me encontrava, que a bola entrava sempre na baliza de Silvino. O 4-1, com Mário Jorge a bisar 3 minutos após o 3º golo, foi um balde de água fria, e deu para entender que a minha estreia era com uma derrota. Quando aos 71' Manuel Fernandes fez o 5-1, depressa esquecemos o nosso objectivo inicial e começámos a fazer contas nas bancadas. É que 9 meses antes em encontro da taça de Portugal na Luz tinhamos humilhado o rival por 5-0, assunto que todos os dias era atirado à cara dos amigos lags. Ora se aos 71' em Alvalade estava 5-1, o ideal era a coisa acabar por ali, pelo menos tinhamos marcado um...
Mas não, a lagartada estava possuída e ainda facturaram mais duas vezes, o desgraçado do Manuel Fernandes marcou aos 82' e 86', e mais tempo houvesse, mais ele marcava. Nos últimos minutos da partida o ambiente no topo norte era ... desnorteado! Pessoal a queimar bandeiras, cachecóis e até cartões de sócio. Fiquei tão pasmado com aquela reacção dos benfiquistas, que saí na altura em que o Manel marcava o último golo. Saí tão baralhado com a goleada que até vinha convencido que tinham sido só 6, mas depois percebi logo que estava enganado. Perdi-me dos amigos mais velhos e tive que fazer o caminho de regresso a Benfica sozinho e a pé, equipado a rigor relembro.
Foi um suplício, todos os carros me gozavam, acenavam, apitavam, mas sempre com o devido carinho de quem gozava com um putinho de 13 anos sozinho a percorer a pé a 2ª circular equipado à Benfica com 7 no bucho.
Pior estreia não podia ter sido.
De qualquer maneira, e para me acalmar, nos dias seguintes o meu sábio avô, grande benfiquista, dizia com aquele ar paternal para ter calma porque o Benfica ria no fim, noites daquelas acontecem sempre de tempos a tempos.
Foi-se a história de os chatear com os 5-0 da Taça, mas em Maio festejámos mais um campeonato, e até passámos a olhar para os 7 com outro carinho, é que essa foi a ÚNICA derrota do Benfica em todo o campeonato!
Nos anos seguintes o resultado do derby em alvalade foi de: 1-1, 0-2, 0-1, 0-2, 0-0 e 2-0. Ou seja, para o Sporting voltar a ganhar um jogo ao Benfica, esteve quase 7 anos, e quando o somatório dos resultados já ia quase em 1-7... Pagaram bem caro a brincadeira, e isso significou que vi cinco anos seguidos o Benfica sem perder no campo do rival, e o pesadelo dos 7-1 transformou-se em grande confiança, afinal ganhei e empatei muito mais vezes do que perdi.
Ah e a seguir ao tal 2-0, foram os famoso 3-6. Pronto, ficaram pagos os 7-1 de vez, ainda por cima com direito a título.

Ficha de Jogo:

Árbitro: Vítor Correia (Lisboa)

Sporting - Vítor Damas; Gabriel, Venâncio, Virgilio, Fernando Mendes (Duílio); Oceano; Litos (Silvinho), Zinho, Mário Jorge; Meade, Manuel Fernandes.
Treinador: Manuel José

Benfica - Silvino; Veloso, Dito, Oliveira e Álvaro; Shéu (Nunes); Chiquinho Carlos, Diamantino (César Brito), Carlos Manuel, Wando; Rui Águas.
Treinador: John Mortimore

Marcadores: 1-0, Mário Jorge (15m); 2-0, Manuel Fernandes (50m); 2-1, Wando (59m); 3-1, Meade (65m); 4-1, Mário Jorge (68m); 5-1, Manuel Fernandes (71m); 6-1, Manuel Fernandes (82m); 7-1 Manuel Fernandes (86m).



Alvalade, 10 de Setembro de 2005
Sporting ? - ? Benfica

Este ano o derby de Alvalade calha logo à 3ª jornada. Não gosto, pronto. Habituei-me a defrontar o rival mais perto do fim, em jogos cheios de adrenalina e emoção. Um econtro logo a abrir não dá grandes frutos. Sobra então a tradicional tensão entre inimigos, e essa está lá toda!
O Benfica chega a Alvalade campeão, o brilho das quinas na manga esquerda chegará para motivar jogadores e adeptos a contrariar o ambiente hostil, e ninguém se lembrará que o campeonato já leva duas jornadas e o Benfica nem um golo marcou, e já vai a 5 pontos dos concorrentes. Não tem problema, Alvalade é especial, não há melhor palco para fazer o impensavel, o que improvavel, cumprir a tradição do pior que se safa sempre no derby. Eu acredito nisso, assim lá estarei novamente na curva encarnada a apoiar o campeão.

Publicado por João Gonçalves às 01:43

Comentários

Soneca, 0-1
Miccoli, 0-2

#1 | Comentado por: Jbizas | 24 de outubro de 2005 às 21:09

Esse jogo foi o primeiro e último Sporting-Benfica que vi ao vivo. Desde então, Alvalade só para concertos.

#2 | Comentado por: NG | 24 de outubro de 2005 às 21:09

Tenho uma vaga recordação desse jogo, e do meu tio, adepto do Braga, a gozar-me por isso.
Olhando para a constiuição das equipas, verifica-se (com bastante curiosidade) que o Sporting nem tinha grandes jogadores, anão ser talvez o Oceano e o Manuel Fernandes, já na sua carreira descendente. Mas lá está, tiveram uma tarde endiabrada cujo fulgor se esgotou depois.

#3 | Comentado por: João Pedro | 24 de outubro de 2005 às 21:09

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