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quarta-feira, 14 setembro 2005
Lille: A força do colectivo
Categoria: 05/06 Competições Europeias , Benfica , Col: Rui Malheiro

Vice-campeão francês em 2004/05, o Lille OSC realizou a sua melhor temporada de sempre dos últimos 50 anos, conseguindo, com surpresa, o apuramento directo para a Liga dos Campeões. É, assim, o ano de todos os desafios para esta formação, que há apenas cinco temporadas se sagrava campeã da 2ªDivisão francesa, e que teve um crescimento tremendo muito por culpa do bom trabalho de Claude Puel, campeão francês pelo Mónaco em 2000, que parte para a sua quarta época à frente do clube.
Sem Philippe Brunel, transferido para o Sochaux, e Christophe Landrin, que rumou ao PSG, Puel perdeu os seus dois jogadores com maior capacidade no último passe, mas garantiu a permanência de Milenko Acimovic e Geoffrey Dernis, que estiveram com pé e meio fora do clube, só se estreando no último fim-de-semana pela equipa principal. Essas indefinições, aliadas a alguma irregularidade do eixo central da defesa, fizeram com que o início de temporada fosse trémulo, mas a vitória no terreno do Metz, no passado sábado, mostrou um Lille bem mais próximo do que habituou os adeptos na temporada anterior.
Organizado num 4x2x3x1, que parte habitualmente de um 4x5x1 defensivo, e que pode transformar-se num 4x4x2, com a deslocação do médio ofensivo para segundo ponta de lança, o Lille é uma equipa com um futebol muito mecanizado e entrosado, que procura anular o esquema do adversário, para depois fazer valer a consistência do seu colectivo, particularmente talhado para jogar em contra-ataque, mas que trata bem a bola e sabe também jogar em ataque continuado. O grupo é bastante jovem, repleto de jogadores com enorme vontade e talento, prontos para voos mais altos. Contudo, essa inexperiência, que, por vezes, parece ser força, tem feito a equipa quebrar nos jogos com os 'grandes', como prova o facto de não terem vencido qualquer partida frente a estes a temporada passada, algo que poderá ter os seus custos na Liga dos Campeões, assim como a impossibilidade de actuarem no Lille Métropole, que obrigará a que os jogos caseiros sejam disputado no Stade de France.
A táctica

A baliza

O guarda-redes internacional senegalês Tony Mario Sylva, de 30 anos, é o dono do lugar, depois de vários anos como suplente do AS Mónaco. Guardião possante, destaca-se sobretudo pela sua acção entre postes, pois é muito ágil e revela bons reflexos. Fora dos postes é irregular, arriscando, muitas vezes, em demasia nas saídas, alternando boas intervenções, com alguma espectacularidade, com outras em falso. O seu ponto mais fraco, contudo, é o jogo com os pés, já que é algo trapalhão e muito limitado tecnicamente.
O seu suplente é o experiente Grégory Malicki, de 31 anos, que cumpre a sua quarta temporada no clube, onde se tem mantido nessa condição. Guardião regular, destaca-se sobretudo pela acção entre os postes, pois tem bons reflexos.
A defesa

Claude Puel aposta numa tradicional defesa de quatro, com dois laterais, que sobem, normalmente, à vez, e uma zona central rigida, que demorou a estabilizar esta temporada, já que em seis partidas foram utilizados quatro jogadores.
À direita, o titular é o franco-belga Matthieu Chalmé, um lateral que se destaca pela velocidade e grande 'pulmão', que lhe permite fazer todo o corredor, criando, com isso, alguns desequilibrios, ainda que seja pouco dotado tecnicamente. Defensivamente é cumpridor, ainda que defenda melhor em posições exteriores do que interiores, onde lhe falta alguma capacidade no jogo aéreo e no posicionamento.
À esquerda, o 'capitão' Grégory Tafforeau, de 28 anos, é indiscutivel, tratando-se de um defesa muito esforçado, que sabe também sair para movimentações ofensivas, destacando-se pela velocidade, já que tecnicamente é bastante limitado. Defensivamente, revela um bom poder de desarme e agressividade, mas comete algumas falhas de marcação, quer em velocidade, quer a defender em posições interiores, sobretudo na cobertura do segundo poste.
A dupla de centrais deverá ser formada por Nicolas Plestan e Rafael Schmitz, depois de várias experiências em termos de duplas esta temporada, aliadas à lesão do grego Tavlaridis, o líder do sector defensivo. Plestan, de 24 anos, foi lançado no futebol profissional pelo AS Mónaco, cumprindo a sua terceira época no Lille, a primeira onde consegue garantir a titularidade. Apesar de se revelar ainda algo 'verde', é um defesa agressivo e forte no desarme, mas comete algumas falhas no jogo aéreo, para além de ser bastante limitado do ponto de vista técnico. O brasileiro Rafael Schmitz, também de 24 anos, apresenta características similares às do seu parceiro, ainda que se revele mais experiente e mais dotado do ponto de vista técnico, com o seu bom sentido posicional a compensar algumas lacunas em termos de velocidade.
Quanto a outras opções para o sector defensivo, Stephan Lichtsteiner, internacional esperança suiço, contratado este ano ao Grasshoper, é a outra opção para a lateral-direito. Menos brilhante que Chalmé em termos ofensivos, é, contudo, mais eficaz defensivamente, sobretudo no que concerne a defender em posições interiores. O sérvio-montenegrino Milivoje Vitakic, contratado a época passada ao Estrela Vermelha, é opção para o centro da defesa, tratando-se de um jogador experiente, forte na marcação, que se destaca pelo bom jogo aéreo e poder de desarme, mas é algo limitado tecnicamente e pouco veloz. O internacional grego Stathis Tavlaridis, formado nas escolas do Iraklis, e que passou pelo futebol inglês, onde representou Arsenal e Portsmouth, foi sempre titular no ano e meio que leva de clube, mas depois de um arraque de temporada irregular, lesionou-se e não jogará na Luz. Trata-se, no entanto, do melhor central do conjunto, com capacidade de liderança e bom sentido posicional, podendo jogar como líbero ou na marcação. Forte no jogo aéreo e com bom poder de desarme e de antecipação, destaca-se dos demais por sair bem a jogar, já que é dotado tecnicamente e tem capacidades no passe. Por fim, referência ainda ao jovens Peter Franquart, produto das escolas do clube, que é um central de origem, mas pode desempenhar o papel de lateral-esquerdo, e para o lateral esquerdo/central brasileiro Dante, de 21 anos, descoberto, há dois anos, no Juventude de Caxias, mas que ainda não se conseguiu impor no clube.
Meio-campo defensivo

À frente da defesa, Claude Puel faz a equipa actuar, por norma, com dois médios mais defensivos, embora dê alguma liberdade para que um deles, em situação ofensiva, apoie o ataque.
O internacional camaronês Jean II Makoun, de 22 anos, formado nas escolas do clube, é uma das 'jóias' do conjunto. Médio ofensivo de origem, foi convertido com sucesso em médio defensivo, aliando capacidade defensiva com ofensiva. Bom marcador, é um jogador com capacidade no desarme e bom sentido posicional, que lhe permitem recuperar inúmeras bolas a meio-campo, apesar de não ser fisicamente robusto. Tirando partido da sua velocidade e boa capacidade técnica, sai muito bem a jogar, mostrando predicados no passe, quer curto, quer longo, sobretudo a procurar as alas, tratando-se de um jogador 'chave' no esquema de Puel. Contudo, há ainda aspectos que precisa de 'limar': arrisca, por vezes, dribles em zonas proibidas ; tem algumas limitações no jogo aéreo ; e era pouco eficaz nos remates de fora da área, situação que tem revisto, com sucesso, esta temporada.
Ao seu lado, com mais liberdade para participar nas acções ofensivas, actua Matthieu Bodmer, um médio 'box to box' de grande qualidade e com bastante 'mercado', de apenas 22 anos, que o Lille contratou, há duas épocas ao Caen. Conhecido por 'Vieira branco', é competente a nível defensivo, tirando sobretudo partido de um bom posicionamento e da sua capacidade física - mede 1.88 -, peca, contudo, por ser pouco talhado para acções de marcação e por denotar algumas dificuldades na recuperação, que tenta compensar no corpo a corpo, o que lhe custa alguns amarelos. Em termos ofensivos, é um médio muito interessante, pois sai muito bem a jogar, já que é bem dotado tecnicamente e eficaz no passe, mostrando também alguma apetência para aparecer em posições de remate.
A alternativa a esta dupla é o jovem Yohan Cabaye, de apenas 19 anos, titular nas selecções inferiores francesas. Médio centro, com características ofensivas, é um jogador muito promissor, que alia qualidades defensivas, com qualidade a sair para o ataque, pois para além de ser um bom condutor e distribuidor de jogo, gosta de rematar de fora da área, o que faz com bastante perigo. Falta-lhe, contudo, experiência no futebol sénior. A este junta-se ainda Stéphane Dumont, de 22 anos, que, no entanto, não poderá jogar na Luz devido a lesão. Dumont foi titular toda a temporada passada, mas esta época ainda não foi utilizado. Médio centro combativo, forte na recuperação da bola e com qualidades no jogo aéreo, é também um jogo valioso nas saídas para acções ofensivas.
Meio-campo ofensivo

É formado habitualmente por três unidades, com duas a descairem para as alas e uma em posição mais central, que se desdobra entre a posição de médio ofensivo e segundo ponta de lança.
À direita, Mathieu Debuchy, internacional esperança francês, de 20 anos, é o dono do lugar. Jogador muito interessante, com grande cultura táctica, foi uma das grandes surpresas da última temporada, tratando-se de um polivalente, capaz de fazer todo o corredor direito, como também, em caso de necessidade, de ser utilizado numa zona central na intermediária. Jogador lutador e veloz, desdobra-se bem pela ala direita, graças à sua boa capacidade técnica e velocidade, conseguindo tirar bons cruzamentos. Mais rotinado como ala, está a tornar-se também perigoso nas diagonais, procurando os remates cruzados, como também nas finalizações ao segundo poste, já que tem um bom jogo aéreo, tirando partido do seu 1.87.
À esquerda, o internacional marroquino Hicham Aboucherouane, contratado ao Raja Casablanca, começou a época como titular, mas o regresso de Geoffrey Dernis, que esteve em vias de abandonar o clube, aliado à sua adaptação ainda algo lenta ao futebol francês, fez com que perdesse a titularidade. Aboucherouane, de 24 anos, é um jogador ainda muito rebelde tacticamente, mas extremamente perigoso em termos ofensivos, pois tem uma capacidade técnica e uma gama de dribles impressionantes, capazes de criar inúmeros desequilibrios no um para um. Forte nas assistências - melhor a cruzar do que no passe -, evidencia também qualidades como finalizador, como atestam os 11 golos apontados no último campeonato marroquino, quer em lances de bola corrida, quer em lances de bola parada. Dernis, também de 24 anos, pode também actuar na direita do ataque, tratando-se de um jogador de boa técnica e muito eficaz nos cruzamentos, saindo dos seus pés várias assistências para golo. Pouco possante, apesar de não ser talhado para missões defensivas, é cumpridor, fazendo o acompanhamento defensivo das subidas do lateral adversário, o que agrada a Puel.
Para o posto de médio ofensivo, Puel também dispõe de duas opções: o suiço Daniel Gygax, contratado ao FC Zurich, começou a época como titular, mas perdeu o lugar com a reincorporação do esloveno Milenko Acimovic, que esteve com pé e meio fora do clube, falando-se, entre outros clubes, do interesse do Benfica, que acabou por não se concretizar.
Acimovic, antigo jogador de Tottenham e Estrela Vermelha, é um médio criativo, bastante evoluido tecnicamente, que pode actuar no centro do terreno, entre o posto de '10' e segundo ponta de lança, mas que gosta de ter liberdade para aparecer também à esquerda. Irregular e pouco consistente em termos exibicionais, é capaz do melhor e do pior, mas é um jogador desequilibrador, que pode decidir um jogo num lance individual. Forte no último passe, como também a cruzar, joga com facilidade de primeira, e sabe tirar partido das tabelas com o avançado mais fixo para aparecer em posição de finalização. Falta-lhe, contudo, mais velocidade e, sobretudo, mais agressividade nos lances.
Já o suiço Daniel Gygax, internacional pelo seu país, assume as características de um 'nº10' mais fixo, capaz também de desempenhar funções de interior, e, apesar de algo lento, é um jogador com qualidades no passe e com um bom remate, quer em bola parada, quer em bola corrida.
Ataque

No ataque, não faltam soluções a Claude Puel, ainda que Peter Odemwingie se assuma como o avançado titular desde o inicio da época, que viu o seu esforço ser compensado com um 'bis' em Metz no passado sábado. Internacional nigeriano, de 24 anos, apesar de ter nascido em Moscovo, onde se formou ao serviço do CSKA, já alinhou contra o Benfica, quando representava o RAAL La Louvière. Na altura, era extremo direito, mas Puel, ao longo da temporada passada, tirando partido da sua mobilidade e bom poder de finalização, adaptou-o, com sucesso, ao posto de avançado. Muito móvel e rápido, é um jogador muito perigoso em contra-ataque, pois alia uma boa capacidade técnica e de drible, a um bom poder de finalização, sobretudo com o pé direito. Em caso de necessidade, e quando Puel decide alargar a frente de ataque, pode desempenhar outras funções, sobre qualquer uma das alas, como também como segundo ponta de lança.
Matt Moussilou, avançado móvel, internacional esperança por França, de 23 anos, que pode jogar quer sobre as alas, quer em posições mais centrais, tem sido, neste início de época, a principal solução ofensiva, lançada a partir do banco. A sua força física, aliada à velocidade e, sobretudo, à capacidade técnica e de drible, criam sempre inúmeros desequilibrios, para além de ser um jogador com bom poder de finalização, como atestatam os 16 tentos apontados na época passada. Outra opção é o internacional marfinense Abdelkader Keita, de 24 anos, contratado ao Al Saad, do Qatar, onde era a principal estrela do campeonato, depois de ter vivido situação similar na Tunisia. Extremamente poderoso fisicamente e agressivo, alia à sua força, velocidade e capacidade de movimentação, que lhe permitem também actuar a sair da esquerda para o meio. Contudo, as suas características enquadram-se nas de um ponta de lança, mostrando, por onde tem passado, uma boa capacidade finalizadora, que ainda não confirmou no Lille.
As outras opções atacantes: Kevin Mirallas, belga, de 17 anos, é um jovem muito promissor, que descai preferencialmente para as alas, embora possa também funcionar como segundo ponta de lança. Apesar da sua juventude, já foi suplente utilizado em duas partidas. Nicolas Fauvergue, internacional esperança, de 20 anos, tem vindo a alinhar pela formação B. É um típico avançado de área, muito possante fisicamente - 1.91/81 -, que desgasta muito os adversários e cuja principal virtude é o jogo aéreo. Por fim, o jovem Larsen Touré, de 21 anos, também oriundo da formação B do clube, que actua preferencialmente como segundo avançado.
Publicado por rui malheiro às 04:00
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