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domingo, 25 setembro 2005
Jesualdo Ferreira: «O colectivo é o mais importante»
Categoria: Entrevistas , Sp. Braga
Quatro jogos, dez pontos, quatro golos marcados, zero golos sofridos. São os números do início de época do Sp. Braga, que aborda a jornada 5 da Liga, no comando da prova, ainda que em igualdade pontual com o FC Porto e o Nacional. Motivos mais do que suficientes para uma conversa do Terceiro Anel com Jesualdo Ferreira, que, sem rodeios e com a inteligência que lhe é reconhecida, fez uma análise deveras interessante ao arranque de temporada bracarense, explicando, por exemplo, como é possível ser sólido defensivamente sem ser defensivista, ou contando alguns segredos para o sucesso no comando do Sp. Braga. Tempo ainda para uma revisão, mais a frio, da partida diante do FC Porto, em que se mostra convicto que, com outras soluções, teria vencido o jogo, e para a antevisão da partida desta tarde diante do Estrela da Amadora.
-- Nunca, na sua história, o Sp. Braga tinha chegado à 5ª jornada sem qualquer golo sofrido. Que explicações encontra para este feito inédito?
-- O futebol tem uma características muito própria, que é a bola. Ter a bola é aquilo que os jogadores mais gostam. Se perguntar a qualquer um dos senhores quanto tempo é que vocês acham que um jogador tem a posse de bola individualmente, não sei se todos responderão certo. Quanto é que acham? O máximo que se atingiu foi 2 minutos. A média é de um minuto e meio. Em 90 minutos, se tivermos 60 minutos de tempo útil já é muito. Se forem reduzindo isto ao número de jogadores que participam, percebem que o tempo de posse de bola de cada jogador dentro da sua equipa é curto. Onde, o mais importante de cada vez que toca na bola é que seja eficaz. Senão esgota-se o tempo de contacto com a bola. Então o resto das acções são feitas em quê? Em regime de expectativa ofensiva e em trabalho defensivo, que é algo que ninguém gosta de fazer, porque não tem bola.
-- Para muitos, o Sp. Braga tem a defesa mais sólida da Liga, mas não aborda os jogos com uma postura defensiva. Pelo contrário, esta época, na sequência do que já acontecera a temporada passada, tem protagonizado alguns dos melhores momentos futebolisticos do campeonato. Como consegue conciliar as duas vertentes?
-- Isso define a capacidade colectiva do grupo. Nas missões defensivas em que é preciso grande espírito de sacrifício, solidariedade, é preciso entreajuda, em que os princípios de coberturas, dobras, estão sempre presentes no jogo. Isso só se faz com gente que está, de facto, comprometida com o processo. As duas fases são distintas, por isso os jogadores têm de fazer essa dupla tarefa dentro das funções que desempenham. Nessa perspectiva, para mim, as equipas que defendem bem são as que são colectivamente fortes e jogam com uma paciência e concentração no jogo que lhes permitem tirar depois grandes rendimentos nas acções ofensivas.
-- É essa, do seu ponto de vista, a principal virtude do Sp. Braga?
-- A grande preocupação do Sp. Braga é, quando entramos em processo defensivo, estamos imediatamente a preparar o jogo de ataque. Isso só se pode fazer, na minha opinião, com grande jogo colectivo. O Sp. Braga é uma equipa que joga, fundamentalmente, nos equilíbrios, um aspecto que considero decisivo. Não faz sentido uma equipa entrar em processo ofensivo, sabendo que vai perder a bola a qualquer momento, dado que o passo seguinte à posse de bola é a sua perda, nem que da nossa parte seja obtido um golo, dado que o adversário sai a jogar. Como sei que vou perder a bola, não faz sentido que me prepare para a recuperar somente depois de a ter perdido. Demoraria muito tempo e o jogo é curto. Tenho de preparar os mecanismos defensivos enquanto tenho a posse de bola. Isto obedece a uma série de princípios, a um trabalho táctico intenso que os jogadores têm de compreender. Quando os jogadores estão em posse, concentram-se na bola. Todos a querem ter porque no final do jogo tiveram um minutinho de felicidade. Alterar estes processos mentais não é fácil.
-- Até agora, o Sp. Braga, na Liga Portuguesa, venceu os dois jogos que já disputou fora de casa. O Nem, antes da deslocação a Guimarães, afirmou que achava que a principal dificuldade do Sp. Braga seria jogar em casa, atendendo às estratégias defensivas da maior parte dos adversários, e que sentia que extramuros a equipa teria mais espaços para explanar o seu futebol. Concorda?
-- Em cada jornada do futebol português, mais de 50 por cento dos resultados são positivos para as equipas que actuam fora. Vejam a última jornada, que nem me lembro com exactidão, e vejam se pelo menos metade dos visitantes não pontuaram. Por isso, esse equilíbrio está estabelecido. O factor casa é importante, mas torna-se necessário que tenha componentes de natureza afectiva, emocional, de lume, que permitam que essa situação seja de facto condicionante. Infelizmente, isso no Sp. Braga ainda não existe, como não existe na maior parte dos clubes em Portugal. Existe no FC Porto, Benfica, Sporting e Vitória de Guimarães, nos outros não...
-- Com isso quer dizer, que exceptuando nas deslocações ao terreno desses clubes, é praticamente indiferente jogar em casa ou fora?
-- Os campos começam cada vez mais a ser neutros, e os resultados cada vez mais equilibrados. A minha equipa tem de estar preparada para saber jogar no jogo dividido. Isso obriga a ter uma equipa equilibrada, tanto no ataque como defensivamente. Não é possível actuar em desequilíbrio permanente. Quem o faça pode ganhar jogos, mas não sei se vai ganhar títulos. Só há espectáculo quando duas equipas são boas, quando são capazes de querer ganhar o jogo. Não há espectáculo quando uma abdica do jogo, por isso é que a nossa Liga não é tão forte. Há muitas equipas que não conseguem dividir o jogo uns com os outros, por isso é que não há espectáculo. Normalmente, quando há muitos golos, é porque as equipas defendem mal. Não é o espectáculo do golo que é fundamental, mas sim haver uma oposição permanente e directa que torne o jogo mais competitivo. Faço mais golos se a outra equipa defender mal. Se defender bem, marco menos golos, mas o jogo pode ser mais competitivo e interessante. São duas visões diferentes destas questões. Por isso é que eu acho que, cada vez mais no futebol português o jogar em casa se dilui. Há maiores exigências tácticas e jogadores cada vez mais disponíveis, para além das imagens que chegam constantemente colocaram muita coisa a nú, cada vez somos mais cultos e temos mais conhecimentos. Só não tem quem não ter. Por isso cada vez mais difícil existirem os desníveis que ocorriam no passado, bem como a previsibilidade absoluta nos prognósticos que eram feitos. A matriz mudou.
-- A semana passada, diante do FC Porto, o Sp. Braga perdeu os dois primeiros pontos da temporada, perante um adversário que, até aí, também tinha feito o pleno. Mais a frio, que conclusões retirou da partida?
-- Tirei a conclusão de que foi um grande jogo. Um grande espectáculo. Lá está, não houve golos, mas sim duas equipas que discutiram o jogo. Foram capazes de o querer ganhar, discutindo cada um com os seus recursos. Por acaso o Sp. Braga não estava com grandes recursos, dado que se os tivesse estou convencido de que teríamos ganho aquele jogo. É o que eu penso neste momento.
-- O empate soube-lhe a pouco?
-- Acho que, com mais recursos, teríamos ganho. Claro que é muito subjectivo e nunca vai ser possível provar. Agora, foi o que eu senti, do que conheço da minha equipa, dos meus jogadores, deste tipo de jogos e recorrendo ao que ocorreu na época passada e olhando ao nosso crescimento.
-- O facto do FC Porto ter tido mais dois dias de descanso e não ter efectuado uma viagem tão longa como o Sp. Braga teve influência no desfecho da partida do passado domingo?
-- Não me parece. O que influenciou mais foi o facto de não estarem presentes unidades que poderiam dar ao jogo outro figurino. Agora, se isso iria dar para ganhar, não sei, mas o FC Porto passaria por muito mais dificuldades e podia ter perdido. Nisso, eu acredito, apesar de poder estar a criar uma questão polémica.
Agora quero abrir eu uma discussão: o Sp. Braga fez dez faltas contra o FC Porto. O FC Porto fez vinte e três. Não digo mais nada. Façam as leituras destas questões. O Sp. Braga que é uma equipa alegadamente defensiva fez poucas faltas e o conjunto ofensivo fez tantas? Porquê? O FC Porto serviu-se de uma concessão da lei que lhe permitiu tirar vantagem sobre o Sp. Braga nas nossas acções ofensivas, porque as faltas são feitas quando o adversário tem a bola. Se isso aconteceu, não faz muito sentido dizer que o Sp. Braga joga à defesa ou que não há golos em Portugal porque as equipas são defensivas e que o Sp. Braga não foi capaz de discutir o resultado.
-- Fechando o capítulo sobre o jogo do fim-de-semana passado, depois de duas vitórias fora, em duas partidas, quais as suas expectativas para a deslocação à Reboleira?
-- O Sp. Braga tem obrigação de jogar para ganhar ao Estrela da Amadora, mas será um jogo muito difícil. Para além do valor e da capacidade do adversário, temos de contar com um campo grande, largo, mas que não está tão bom como seria desejável.
-- Em que medida essa situação poderá influenciar o decurso do jogo?
-- É um factor que vai influenciar o jogo das duas equipas. Acontecerão muitas acções casuísticas, o que não é bom tanto para nós, como para o Estrela. Entendo que, para além da dificuldade que o Estrela vai impor como equipa, dado que já os vi actuar e sinto que se trata de uma formação bem organizada e com uma estrutura de jogo boa em função dos jogadores que tem, o estado do terreno será condicionante.
-- Já abordou essa condicionante com os jogadores do Sp. Braga?
-- Normalmente, aos meus jogadores, as informações que transmito são sempre positivas. Não falo aos meus jogadores sobre os aspectos negativos ou dificuldades que os jogos têm. Estou a falar do que é comum na minha orientação. Sinto que temos de, cada vez mais, caminhar no sentido de criar alternativas dentro dos jogadores que temos em função do que é a evolução da equipa no plano táctico. Temos sofrido algumas situações menos boas que nos obrigam a caminhar mais depressa nesse sentido. Os jogadores têm de estar cada vez mais preparados para jogar e mais envolvidos nas estruturas que estamos a trabalhar. Será fundamental para conseguirmos continuar a obter bons resultados que nos permitam manter uma boa classificação.
-- As lesões de João Tomás e Cesinha, para além da baixa mais prolongada de Delibasic limitam-no em termos de opções ofensivas para o jogo diante do Estrela da Amadora. Atendendo a terem sido primeiras opções nas jornadas iniciais, e também às perdas de João Alves e Wender, pode-se dizer que menos de um mês depois este é um Sp. Braga bem diferente do que tinha projectado para esta altura?
-- O jogador sente sempre legitimidade para jogar. Quer sempre jogar. Qualquer um quer sempre actuar de início. É o que acontece com os atletas do Sp. Braga como de outro clube qualquer. Compete-nos a nós, treinadores, no trabalho diário e nas conversas que vamos mantendo, que isso é uma legitimidade que não podem perder, mas que todos temos de trabalhar exclusivamente com uma preocupação: a equipa.
-- Com isto quer dizer que não existe um 'onze-base' e que qualquer jogador pode ser chamado à titularidade?
-- Para mim, o colectivo é o mais importante e eles sabem-no. Reforçar o colectivo é reforçar capacidades individuais. Reforçar o colectivo é sentir que todos são importantes independentemente de acontecer isto ou aquilo. E não, como muitas vezes acontece, só quando não há mais soluções é que então estão os outros. Isso comigo não sucede. Os meus jogadores sentem que em qualquer momento podem jogar, independentemente de haver lesionados ou não. Sentem que, a qualquer momento, são importantes. Sejam os que jogam mais, os que actuam assim-assim, ou os que entram menos. No Sp. Braga, tirando os dois guarda-redes que ocupam uma posição específica, só um jogador de campo é que não actuou em quatro jornadas do campeonato: o Pedro Costa. Todos os outros já jogaram.
-- Mas as saídas de João Alves e Wender, e, sobretudo, as várias lesões com que o plantel se tem debatido, não foram decisivas na utilização de quase todo o plantel nestas quatro jornadas?
-- Não acredito que os jogadores do Sp. Braga se sintam mais motivados porque os colegas se lesionaram. O que eu sei é que, cada vez que isto acontece, por castigos, lesões ou opções, eles acabam por corresponder. Cada vez mais sentimos que para ganhar coisas no futebol, só a grande força colectiva de um grupo é que permite consegui-lo. Alguns jogos serão ganhos pela individualidades, mas um longo curso de trabalho só é ultrapassado com um colectivo forte. É nisso que trabalhamos afincadamente.
-- Voltando um pouco atrás, sem João Tomás e Delibasic, que estão lesionados, só pode contar com o argentino Maxi Bevacqua, que, à partida, parecia ser a terceira opção para o ataque...
-- Havia um jogador que na época passada pertencia ao Sp. Braga, entrou aqui no início de época e não me parecia justo que o nosso melhor marcador e segundo melhor do campeonato tivesse perdido a titularidade nas férias. A partir daí, em três jogos, não deu para justificar nada, ou para dizer que o Delibasic e o Maxi seriam mais isto ou aquilo. O Maxi é um jogador em quem confio. No qual confiamos todos. Que está a fazer o seu período de integração, como todos os outros fizeram. Nos jogos que tinhamos feito foi utilizado poucas vezes porque também ele veio de um período longo de lesão. Lesionou-se antes do campeonato. Infelizmente, os outros lesionaram-se depois do campeonato começar. Seria bom que ninguém se tivesse magoado, mas a realidade é esta. Portanto, as opções de ataque dentro do que tem sido a estrutura do Braga reduziram-se. Só há uma, quando anteriormente existiam três.
-- Apesar do 4x3x3 ser o seu modelo preferencial, em Guimarães testou com sucesso o 4x4x2. O Delibasic era um jogador crucial para a utilização deste esquema táctico?
-- Enquanto o Maxi for opção, mesmo sem o João Tomás e o Delibasic, poderemos continuar a utilizar o nosso modelo de 4x3x3. Quando sentirmos que temos de ir além disso, então sim, porque não temos outras hipóteses, teremos de procurar outras soluções. Estamos a procurá-las, como aliás já tinhamos feito antes quando estavam todos. O Sp. Braga vai caminhar definitivamente para duas estruturas tácticas, em modelos consolidados do passado, respeitando princípios e métodos que desde que chegámos a Braga introduzimos e que me parece que são bons, os melhores dentro do futebol actual. Não há nenhuma razão para mudar.
-- Continua então confiante em relação a uma grande época do Sp. Braga?
-- As coisas vão correr-nos bem, seguramente, porque trabalhamos muito e vamos fazer por merecer a sorte. Quando isto acontece, os nossos 25 jogadores começam a ser poucos, se calhar se tivéssemos 27 seriam poucos na mesma. Porque o que nos conduz em termos de grupo é não haver treinos para uns e para outros, modelos de trabalho para uns e para outros. Não há participações menos efectivas de uns em relação a outros. Por isso é que lhe digo que há sempre duas saídas para estas questões. Nós somos todos egoístas e os jogadores também são na manifestação da sua profissão, mas tendo de fazer parte de um jogo colectivo. É nisso que se prende a beleza destas questões.
Publicado por terceiro anel às 10:55
Comentários
jesualdo ferreira ja provou o seu valor mas na minha opiniao tem condicoes para nos jogos com os "grandes" se aventurar mais no ataque e nao se retrair como fez neste jogo com o porto apesar das baixas.apesar dizto acho k o braga tem condicoes para lutar pelo titulo sem medos.tb espero que n o consiga.
#1 | Comentado por: Joao Nuno Costa | 24 de outubro de 2005 às 21:09
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