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segunda-feira, 26 setembro 2005

A diferença entre opinião e análise

Categoria: Col: Caio Maia

Fernandão: figura do Internacional de Porto Alegre

É fundamentalmente diferente escrever uma coluna de opinião, como esta, e uma de análise, como a País do Penta, sobre o Brasileirão. Opinião cada um tem a sua, algumas mais avalizadas outras menos. Eu, que não acompanho o campeonato espanhol, posso dar uma opinião sobre Luxa, Robinho, o Barça, qualquer coisa.

Outra coisa bem diferente é uma análise. Embora aqui na Trivela as opiniões, em geral, partam de análises, você não vai ler aqui uma pessoa que acompanha de perto só o campeonato brasileiro analisando o campeonato alemão, ou inglês.

Um exemplo disso: em minha opinião, o São Paulo bem pode ser campeão brasileiro. Vem numa onda muito boa e tem o melhor elenco do Brasil. Como analista, no entanto, é temerário afirmar que um time que está treze pontos atrás do líder a 15 rodadas do final é favorito ao título.

Escrevo isso por causa da enxurrada de mensagens que recebi de torcedores colorados depois que alguém colocou a País do Penta de sexta passada na comunidade do Inter no Orkut. Algumas poucas bem fundamentadas, a maioria mal-educada e muitas delas passando do limite do razoável. Que crime cometi? Disse que o elenco do Inter é ruim.

Qual é a minha opinião sobre as possibilidades do Colorado no Brasileiro? Acho, como, aliás, escrevi lá, que é um dos favoritos. Minha obrigação como analista, no entanto, é chamar a atenção para a realidade do time: tem um elenco fraco e só é um dos favoritos porque quase todos os elencos do torneio são fracos.

Não vou me demorar na discussão sobre o Inter, mas quero citar alguns exemplos:

1- como posso dizer que Fernandão é ruim se ele já jogou na Europa e na Seleção? Fácil: se fosse bom, ainda estaria na Europa, como uma legião de meia-bocas que está lá, ou teria sido chamado de novo para a seleção. Basta lembrar que, no jogo em que Fernandão foi convocado, também o foram Fabiano Eller, Leonardo, do Santos, e Gláuber, do Palmeiras. Três craques?

2- Rentería é destaque da Colômbia sub-20. Fábio Santos também é destaque, na visão de alguns, do Brasil sub-20, que é melhor que a Colômbia, e é ruim pra burro. Caio, hoje na reserva do Botafogo, chegou a ser eleito o melhor do mundo em um sub-20 desses, mas acabou não confirmando (embora, em minha opinião, tenha sido seguidas vezes injustiçado, afinal não é pior que o Guilherme).

3- E o Sóbis, não é bom? Eu acho que é, embora seja cedo para dizer. Mas um cara bom não faz um elenco bom.



Elencos

Um elenco é formado por Zetti, Cafu, Antônio Carlos, Ivan e Leonardo; Flávio, Bernardo, e Raí; Mário Tilico, Eliel e Elivélton. O técnico é Telê Santana, que tem, no banco, Ricardo Rocha. O outro, por Ronaldo, Giba, Marcelo, Guinei e Jacenir; Márcio, Wílson Mano, Tupãzinho e Neto; Fabinho e Mauro. O técnico é Nelsinho Batista. No primeiro, cinco futuros campeões do mundo, no outro nenhum.

Há alguma dúvida de que o elenco do São Paulo, o primeiro, é duzentas vezes melhor que o do Corinthians? Ou alguém quer comparar Guinei com Antonio Carlos? Giba com Cafu? Jacenir com Leonardo? E, no entanto, o campeão brasileiro de 1990 foi o Corinthians, que tinha um elenco meia-boca, para ser bonzinho.

Elenco, em futebol, é só parte do jogo. Em geral, é importante para manter a forma durante um torneio longo, como o Brasileiro, principalmente quando, simultaneamente, se joga outro campeonato, como a Sul-Americana. Mas não é tudo.

Mais: uma das graças do futebol é justamente essa, jogadores ruins às vezes fazem um campeonato excepcional (Souza, do São Paulo, na Libertadores, o time inteiro da Grécia na Euro 2004), enquanto times cheios de craques fracassam inexplicavelmente (Portugal, Argentina e França em 2002). Prever o futuro em futebol é um pouco como previsão do tempo: podemos identificar as frentes frias, mas o vento pode mudar tudo em questão de horas.


Análise e torcida

A imprensa futebolísitica, quase sempre, é torcedora. Não analisa, edita as informações de modo a empolgar o torcedor e fazer ele comprar jornal/ver televisão/acompanhar um website. No Brasil, parece muitas vezes que o Real Madrid, se Luxemburgo cair, acaba. Em Portugal, não acompanha-se a Premier League como antes, mas sim sob a ótica do português Mourinho. Na Espanha, os jornais são quase declaradamente pró-Real Madrid ou pró-Barça. Os pró-Barça (Sport e Mundo Deportivo) nem disfarçam.

Além disso, o nacionalismo da imprensa em geral é indisfarçável. Um bom exemplo: Guti entrou no jogo de quarta do Real Madrid e fez um par de boas jogadas. A imprensa espanhola em massa já conduz pesquisas para saber se ele deve ou não ser titular. No Brasil, durante muito tempo especulou-se como é que Ancelotti podia deixar Rivaldo no banco, quando qualquer um que acompanhasse o Milan saberia que ele ficava no banco porque, quando entrava, não jogava nada.

Assim é a imprensa em geral, onde você não vai ler que o seu time tem um elenco ruim porque não querem que você pare de ler o que eles escrevem.

Assim não é a Trivela.


Da crítica e da ofensa

Críticas ao trabalho do jornalista são sempre bem-vindas. Por meio de mensagens de leitores, acabei prestando atenção em detalhes de equipes e jogadores para as quais eu não havia atentado.

Na semana passada, a Trivela passou a ter esta coluna reproduzida pelo conceituado blog português Terceiro Anel. Me chamaram a atenção o alcance do blog e a educação dos comentários. Muitos discordaram do que eu havia dito sobre Puyol e Helguera, mas ninguém me ofendeu por causa disso.

Por conta da coluna que falava sobre o Inter, recebi mensagens legais: dois leitores, Gregório Reis e Luis Felipe dos Santos, me mandaram comentários bravos, mas equilibrados, e que vão me ajudar na análise do Inter daqui em diante. Afinal, eles vêem todos os jogos do time, o que para mim é impossível.

Recebi alguns e-mails indignados, mas educados, e outros bem agressivos. Os indignados, sempre fazemos questão de responder, e tem muita gente que acaba mudando de opinião. Os agressivos, sempre fazemos questão de ignorar.

Publicado por Caio Maia às 12:55

Comentários

Exactamente, Caio! Uma coisa é relatar factos, e outra tão ou mais importante é cada um de nós ter a sua opinião - afinal qual seria a graça do futebol se não tivéssemos todos opiniões diferentes sobre a qualidade dos jogadores e dos treinadores, ou mesmo sobre as incidências ou "casos" do jogo? Seria um fenómeno social igual ao que é? Claro que não!
Infelizmente há muito quem não consiga separar as águas e tome as "suas" verdades como absolutas. Mais, há quem não compreenda que é tão ou mais (normalmente muito mais) tendencioso do que os outros nas opiniões que emite, e se ofenda sempre que uma opinião não coincide com a sua; é pena, sobretudo para elas, porque perdem grande parte da graça deste desporto e de tudo o que o envolve.

Apesar de não seguir assiduamente o Brasileirão e de não conhecer a fundo equipas e jogadores adoro futebol e adoro ler sobre futebol. E não vou deixar de ler sempre as suas colunas, porque este tipo de visão esclarecida e descomplexada do futebol, sem hipocrisias, certezas e falsas manifestações de "fair-play" que me agrada ler.

Um abraço!

#1 | Comentado por: joethelion1970 | 24 de outubro de 2005 às 21:09

joethelion1970 alguem anda a ter aulas de sociologia =PPP

Caio concordo completamente consigo, opiniões são opiniões e todos teem o direito de opinar, desde que sejam bem educados para que haja um bom ambiente e todos fiquem contentes =)

Continua com as tuas crónicas pk eu gosto de te oubir =P

Força ai brother brazuca ;)

#2 | Comentado por: Rionx | 24 de outubro de 2005 às 21:09

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