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quarta-feira, 28 setembro 2005

O Benfica contra o Man Utd - sonhos à solta no grande palco

Categoria: Benfica

Ronald Koeman em Old Trafford

E o Benfica lá perdeu. Para a maioria o resultado não terá sido uma novidade, surpreendendo talvez por ter sido apertado para a equipa inglesa. Eu próprio me incluo entre aqueles que partiram para esta deslocação descrentes, mais preocupados com uma possível goleada do que em ganhar. As derrotas limpinhas com o Anderlecht, Estugarda e CSKA de Moscovo fora de portas atormentavam-me e previa o pior. Contudo vi outro Benfica, um que fez lembrar a exibição de San Siro com o Inter, e devo dizer que me sinto orgulhoso. Perdemos, é verdade. O Manchester mereceu mais a vitória, acho que sim. O Koeman poderia ter feito mais, talvez. Mas como o posso criticar quando parti para o jogo derrotado e durante 86 minutos o Benfica de Koeman fez-me sonhar?

Nos próximos parágrafos procurarei referir alguns aspectos da exibição benfiquista no Palco dos Sonhos e os possíveis significados que terá para o futuro da equipa.

Começando com o que interessa, o resultado sob qualquer ponto de vista foi obviamente mau. Perder um jogo em qualquer competição, ainda por cima num mini-campeonato de 4 equipas, é mau, pior na Liga dos Campeões. Para além disso, o Benfica perdeu quando esteve muito perto de não perder. Contudo, se o Benfica viesse de Manchester com 3 ou 4 golos nas suas redes ninguém se sentiria demasiado preplexo, e entoar-se-ia a cantiga do costume da falta de ambição europeia do Benfica e do futebol português (com honrosa excepção ao FC Porto e mais recentemente ao Sporting). O grande feito do Benfica terá sido mesmo esse. Afastar a imagem do coitadinho que ganhou a lotaria e está na Liga dos Campeões por engano. O Benfica enfrentou um dos mais sérios candidatos ao título na sua casa e jogou de igual para igual. Perdeu, mas o resultado esteve longe de ser inequivoco.

Os mais cepticos podem levantar a voz contra estas "vitórias" simbólicas, mas penso que isso será precipitado e desonesto. O Benfica está fora da Europa há mais de 10 anos. As participações têm sido fracas, uns anos melhores e outros humilhantes. O Benfica europeu praticamente desapareceu e os encontros dos grandes clubes europeus com o Benfica são para recordar velhas glórias, muito mais do que para jogar a sério, já que hoje em dia o Benfica pouco pode com essas equipas. Camacho e o Benfica contra o Inter de Milão foram uma primeira amostra que esse Benfica pode ressurgir, pelo menos em parte. Para o Benfica de hoje, pós-Bosman e pós-travessia no deserto de 11 anos, jogar de igual para igual é muito. Para sermos honestos, essa capacidade de imposição em qualquer campo europeu por uma equipa portuguesa é um luxo que só o FC Porto tem hoje em dia.
E para conseguir isso andou alguns anos a participar na LC e a ser derrotado em circunstâncias semelhantes por equipas desta dimensão.

Prova da diferença à partida entre as duas equipas pode ser retirada da imprensa inglesa. Em Inglaterra, o Benfica não surgia como um adversário complicado na sequência de uma série de maus resultados, mas pelo contrário, o adversários ideal para vencer claramente, e talvez golear, após uma série de maus resultados. O Benfica de hoje não existe, existe uma memória de '68. O Benfica é o 4º apurado do grupo e uma vitória do Benfica em Manchester teria o mesmo nível de escandalo que o Gil Vicente vencer na Luz. Se por um lado esta analogia mostra como o Benfica poderia ter vencido, mesmo com menos recursos, por outro o que devemos desejar não é que o Benfica ganhe contra todas as previsões, mas que ganhe de acordo com as previsões.

Como referi na introdução, fica a questão: Koeman foi medroso? Bem, acho dificil dizer. A verdade é que abordou o jogo com mais coragem do que seria de esperar. Seria injusto afirmar que os 75 minutos de equilibrio (como referiu o Rui) não tiveram nada que ver com ele. Foi Koeman que definiu esta estratégia e a verdade é que Koeman sempre referiu que não vinha a Manchester para perder. Outro aspecto importante é que o Benfica equilibrou o jogo apesar de Beto. Tal como o Nuno referiu (e muito bem) Beto a médio direito é um equivoco. Se é aceitável um erro de 45 minutos, a continuidade do erro é criticável. Durante o jogo lancei a hipótese de se dever à estatura de Beto, mais capaz de competir com os ingleses nos cantos e livres cruzados. Mas, Para dizer a verdade, não lhe vi qualquer corte de cabeça ou cabeceamento para golo. E a saída de Miccoli? Bem, agora penso que fez mal, na altura também não me pareceu grande ideia. Mas, sinceramente, percebo-o e tenho diiculdade em cruxificá-lo. Eu próprio estava de mãos no coração e a verdade é que a equipa estava coesa, solidária e parecia que apesar de Beto talvez aguentasse os 90 minutos. Talvez nesse momento Koeman tenha sido pequeno, mas mais uns minutos, menos um encolhimento do Nuno Gomes, e talvez tivesse a colher os louros da glória. Para mim, o maior pecado não é a substituição de cariz mais defensivo, mas a manutenção em campo de Beto, que nada o fez para merecer.


Finalmente, uma palavra para Simão que cumpriu o seu papel de "estrela" da equipa. Notei pelo Guardian que a imprensa inglesa observou com curiosidade o seu desempenho, ainda na ressaca da tentativa de contratação falhado pelo Liverpool. Com essa pressão extra em cima, há que louvar a exibição do capitão. Assumiu o seu papel e dinamizou o jogo. Foi voluntário e criativo. Apareceu 3 vezes em zona de remate, marcando um golo e obrigando Van der Sar a grande defesa.

Somando tudo, concordo com o João quando diz que se sente orgulhoso da equipa. Acho que tem razão e acho que a equipa fez por merecer isso. Também concordo que precisam de ser mais de 30 mil a ficar orgulhosos. Agora, o mais importante deste jogo não pode nem deve ficar reduzido a este jogo. A atitude da equipa em Manchester deve ser a mesma na casa do Villareal e em Lille, porque só assim podemos pensar num Benfica diferente. Como nos mostrou o Sporting a época passada, as equipas portuguesas podem ir jogar fora ao ataque e ganhar. O pior que o a equipa benfiquista pode fazer é tornar este jogo uma excepção e não um exemplo.

Publicado por alexandre calado às 20:30

Comentários

O resultado foi negativo, como é óbvio, mas tendo em conta que o Benfica em termos de equipa actual é muito inexperiente e jovem para poder ir ganhar a palcos como old traford, san siro ou nou camp, já considero bastante positivo que a equipa tivesse jogado de igual para igual, impondo respeito, criando ocasiões de golo, pressionando, conseguindo mais posse de bola.

A experiencia e o tal "estofo" só se adquirem pouco a pouco, ano após ano.

Todavia e lendo a imprensa de hoje até parece que o manchester é um clube de meio da tabela muito pior que certos clubes que eu cá sei...

Este ano a LC é para disfrutar e ganhar experiencia, aprender com os erros, pois só assim se pode evoluir. Não é a jogar com halmstads e afins que se pode crescer...digo eu... talvez daqui a 2 anos já se possa exigir que ganhemos jogos destes mas por enquanto não, mesmo que o nome Benfica assim o exiga.

#1 | Comentado por: Benfiquista do Norte | 24 de outubro de 2005 às 21:09

"Prova da diferença à partida entre as duas equipas pode ser retirada da imprensa inglesa. Em Inglaterra, o Benfica não surgia como um adversário complicado na sequência de uma série de maus resultados, mas pelo contrário, o adversários ideal para vencer claramente, e talvez golear, após uma série de maus resultados. O Benfica de hoje não existe, existe uma memória de '68."


Pois é o que dá se calhar andares a ler o The Sun ou o the guardian. Se lesses a Uefa, ou a sky, ou a bbc já não dizias isso ;) fica bem

#2 | Comentado por: Benfiquista do Norte | 24 de outubro de 2005 às 21:09

Foi como em Alvalade: conseguir empatar, mas depois aos 80 e tal minutos, sofrer o 2º golo.
É verdade que o Beto esteve por vezes desastrado, mas de uma maneira geral a nível do passe toda a equipa teve momentos maus.
Felizmente o Koeman não se lembrou de por o Carlitos a titular.
Foi mais um jogo Danoninho - "faltou um bocadinho assim".

#3 | Comentado por: Jose Soares | 24 de outubro de 2005 às 21:09

Vou transcrever a minha opinião do catennacio...

"Hoje de manhã, ao olhar para os principais jornais desportivos (e supondo que não sabia o resultado) diria que o Benfica tinha sido goleado e humilhado. A linguagem crítica, centrada no treinador, foi demasiado severa e não concordo com a generalidade das opiniões.

Óbvio, que na prática, o resultado final não foi bom e não posso deixar de estranhar a frase de Simão "Estamos de parabéns, fizémos um grande jogo". Não deve ser esse o pensamento, porque o Benfica também tem uma história de que se deve orgulhar. Só estariam de parabéns, no caso de terem vencido. Assim, limitaram-se a não envergonhar e a moral mantém-se incólume.

Mas sejamos realistas. Ao treinador não devem ser assacadas responsabilidades no desfecho final, a partir do momento que a equipa portuguesa sofre dois golos em lances de bola parada, com clara infelicidade no primeiro. Simão pode ter exagerado nas suas declarações, a meu ver, mas o Benfica portou-se à altura. Fez-me lembrar a atitude demonstrada em Milão, quando Camacho perdeu com o Inter 4-3 e a imagem da equipa não ficou afectada.

Também Beto foi criticado (ou a opção de Koeman na sua titularidade), mas apesar da sua exibição ter sido fraca, a ideia inicial foi bem pensada: Nélson ganhava liberdade para criar desequilíbrios na frente e o jogador brasileiro podia ajudar na batalha de meio campo. Começa a ser complicado o Benfica encontrar alternativa para o flanco direito, depois da tentativa Carlitos em Alvalade e da desinpiração constante de Geovanni. Quem sabe João Pereira seja hipótese a considerar? Ou o lugar está destinado para Karagounis?

No entanto, mesmo com esta condicionante táctica - existência de um médio direito interior de marcação - não foi Koeman que perdeu o jogo. Foi a inexperiência da equipa, evidenciada numa atitude, por vezes, expectante, sem personalidade para circular e manter a posse de bola. Convém lembrar que o treinador holandês apostou em dois avançados, sendo certo que Nuno Gomes pisou, na maioria das vezes, terrenos de um autêntico n.º 10. Não foi por falta de coragem do seu treinador que o Manchester United encontrou o caminho das vitórias. Apenas coloco em causa a tardia substituição do Beto e mesmo a saída de Miccoli, não alterou de sobremaneira o sistema táctico idealizado. Os indicadores não deixam de ser positivos e, no geral, houve momentos de bom futebol, com vários jogadores a exibirem-se em excelente plano, casos de Simão, Luisão, Ricardo Rocha, Petit e Manuel Fernandes. Com mais rotina de jogo e confiança nas suas próprias capacidades, o Benfica pode aspirar a passar esta fase de grupos da Liga dos Campeões."

#4 | Comentado por: Ricardo Cunha | 24 de outubro de 2005 às 21:09

Essa de partir derrotado...

#5 | Comentado por: César da Silveira | 24 de outubro de 2005 às 21:09

Depois de ter lido os churros de barbaridades que se disse de Koeman e visto os jornais de hoje pergunto:

-Quem é que perdeu em Casa contra um clubezeco de Tereceira, foi o Benfica????

A impressa Portuguesa mostrou nesta dupla jornada a sua total falta de honestidade.

Tudo bem que Koeman até podia ter feito melhor... todos podemos fazer sempre melhor.

Mas a forma como o benfica jogou em Manchester foi de clube ambicioso. Defendeu mais, mas que raio... do outro lado estava Scholes, Nistelroy, Giggs e Ronaldo.

Há 3 ou 4 anos diziam que o Benfica não tinha nível para ir à Europa... Agora é que não tem ambição quando perde no campo do Manchester United. É isto que mostra a grandeza do Benfica!

#6 | Comentado por: vsnunes | 24 de outubro de 2005 às 21:09

Artigo fantástico do Alexandre Calado. Senti-me orgulhoso dos nossos meninos. Deram tudo que tinham e o resultado acaba por ser o menos importante. Com esta atitude, com aquela garra e, acima de tudo, com aquele apoio, acredito que podemos ir ganhar a Villareal e a Paris. Passei o jogo todo a tratar mal o Koeman e o Beto, esfolei os dedos nas cadeiras de Old Trafford ao ponto de ter ficado com uma mão toda ensanguentada mas, no fim, não tenho coragem de me atirar ao holandês. Muito daquilo que se passou dentro do campo, é também mérito dele. Penso no futuro e no Karagounis a jogar no lugar do Beto e só posso acreditar que as vitórias a este nível, vão começar a aparecer. Quem joga assim em Old Trafford, só pode confiar num futuro melhor. Para finalizar, pois estou com pressa e tenho muito trabalho porque tive dois dias fora, foi uma verdadeira odisseia apoiar o nosso clube lá fora. Foi a minha primeira vez. Os ingleses ficaram surpreendidos com o nosso apoio. O momento a seguir ao golo do Man Utd vai-me ficar na memória para o resto dos meus dias. Nunca vi nada assim. Todos a gritar o nome do Benfica, até ao limite das nossas forças. O Nuno Gomes a pedir mais. Os ingleses com um ar de choque a olhar para nós como que a pensar, então sofrem o golo e ainda gritam mais?! Esse momento e o do golo do Simão, mesmo à nossa frente, foi inesquecível. Estou todo arrepiado a escrever este texto... Viva o Benfica!

#7 | Comentado por: Miguel J. Lopes | 24 de outubro de 2005 às 21:09

Quero dar os parabéns aos adeptos benfiquistas na pessoa do Miguel J. Lopes pelo orgulho que me fizeram sentir em ouvir os cânticos a favor do SLB - e não como noutros clubes - em pleno Old Trafford.
Foi um dos momentos altos da noite.

Como já tinha dito tenho bastante orgulho do jogo que a equipa fez e um receio de que tenha sido uma excepção e não a regra futura.

Não pontuar nas próximas deslocações fora poderá ser fatal às pretenções do clube e isso preocupa-me bastante.

Concordo com o Benfiquista do Norte quando ele fala em ganhar experiência este ano e pensar em próximas ambições mas como benfiquista é-me perfeitamente impossível desfrutar apenas dos jogos e não pensar na classificação e nos pontos. É um grande sofrimento.

#8 | Comentado por: Pedro Neto | 24 de outubro de 2005 às 21:09

Pedro Neto, obrigado pelos cumprimentos. Tenho acompanhado a tua batalha verbal com os portistas noutra página aqui no terceiro anel e tens sido bravíssimo. Quanto ao nosso Glorioso, é natural que estejas receoso. Quem não está? Nós queremos todos estar nos oitavos. Se não formos em frente, também fico decepcionado. No entanto, estou confiante. Estamos a jogar cada vez melhor e o Karagounis vai pegar de estaca porque é um grande jogador. Não estou muito preocupado com o campeonato. A Liga dos Campeões é o grande objectivo, em minha opinião. Não é ganhá-la. Mas, fazer boa figura indo aos quartos, por exemplo e ganhar experiência e dinheiro para mantermos a equipa e reforça-la ainda mais nas próximas épocas. Aquilo que começa a preocupar muita gente é que o Benfica, o monstro, está a acordar e o domínio do futebol nacional está mais perto do que alguma vez imaginavam nos piores pesadelos. Basta ver o trabalho dos últimos 5 anos. Das cinzas construímos o estádio, construímos uma equipa nova com base em jogadores portugueses, ganhámos a Taça de Portugal, o Campeonato e a Supertaça. O centro de estágio está a ficar pronto. Temos 150 mil sócios com as quotas em dia. Estamos na Champions League a lutar, olhos nos olhos, contra as maiores equipas. Devagarinho, um degrau de cada vez, estamos a crescer. Temos de ter paciência com um ou outro percalço que pode acontecer. Mas estamos no caminho certo, meu caro Pedro Neto.

#9 | Comentado por: Miguel J. Lopes | 24 de outubro de 2005 às 21:09

170 mil caro Miguel Lopes, 170 mil...

#10 | Comentado por: Pedro Neto | 24 de outubro de 2005 às 21:09

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