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quinta-feira, 20 outubro 2005
Frieza russa aquecida por toque checo
Categoria: 05/06 Competições Europeias

Análise ao Zenit, primeiro adversário do V. Guimarães na fase de grupos da Taça UEFA.
Revolução de Veludo
Vlastimil Petrzela está a revolucionar em São Petersburgo. Pegou numa equipa descrente e sem expressão, transformando-a numa das mais competitivas formações da Liga local. No que diz respeito aos princípios de jogo, o checo não prescinde de uma disposição táctica em 4x4x2. Foi em função desse esquema que construiu o actual plantel do Zenit, formado por atletas de várias das antigas repúblicas do Bloco de Leste. Especial incidência para a ex-Checoslováquia, zona de onde chegaram cinco jogadores. De resto, há também reforços vindos dos Balcãs e até do Norte da Europa. Consistente na defesa, o conjunto de Petrzela ganha especial expressão no ataque, onde a dupla Kerzhakov-Arshavin coabita tanto no clube quanto na selecção. São avançados que se complementam, com Arshavin a despontar, de há um ano a esta parte, como figura emergente do futebol russo. Formado como médio, tem subido no terreno. Revela facilidade em buscar jogo atrás e subir com a bola controlada, tem bom tiro exterior e grande qualidade de passe. Em suma, um atleta para render nas costas de Kerzhakov, típico homem de área, jovem finalizador por excelência. O meio-campo, bem ao jeito da composição tipo inglesa, é formado por jogadores que saibam aliar a componente defensiva à necessidade de atacar. Bloco sólido, é formado por jogadores de elevada estatura e muito fortes no plano físico. E se a experiência dos ucranianos Spivak e Gorshkov marca posto, é bom não esquecer a importância do internacional russo Radimov, uma das grandes estrelas da companhia. Entre estes, surgem os jovens Denisov e Sirl, sendo que o checo está bem mais rotinado, se bem que a colocação de Anyukov possa afastá-lo do “onze”.

O russo é utilizado tanto à direita da defesa como no miolo, ainda que Petrzela opte, por norma, por usá-lo adiantado sobretudo quando actua fora de casa. Ainda que subsista alguma qualidade técnica, o centro do terreno notabiliza-se sobretudo pela combatividade e pela forma compacta como actua. Sem grande rigidez posicional, o meio-campo do Zenit marca à zona, procurando uma pressão forte que limite a capacidade de construção do adversário. Arshavin e Kerzhakov (com o primeiro mais recuado) controlam as subidas do defesa e posicionam-se de forma a, aquando da recuperação de bola, puderem optimizar o ataque rápido. Com efeito, o Zenit progride mais através do passe longo e do estilo directo, fazendo menor uso do futebol continuado. Para além disso, tem uma defesa muito alta, o que lhe permite dominar o jogo aéreo em ambas as áreas. Todo o quarteto recuado é internacional, havendo uma particularidade a registar. É que o checo Pavel Mares, habitualmente usado à esquerda, reforça com facilidade o centro, sobretudo quando os laterais-direitos (ora Anyukov, ora Flachbart) se aventuram no ataque. De facto, a equipa do Zenit inclina-se sobretudo para a direita, sendo que só as deambulações de Arshavin dinamizam a ala oposta. Em suma, uma equipa sólida a defender e muito matreira no aproveitamento do ataque, como se comprova pela notoriedade que a dupla formada por Arshavin e Kerzhakov vem conseguindo no futebol russo.
O Adriaanse que defende

Há um nome por detrás do ressurgimento do Zenit. Vlastimil Petrzela, 52 anos, antigo internacional pela Checoslováquia, esteve no Mundial de 1982. Em Novembro de 2002, torna-se no segundo técnico estrangeiro a chegar à fechada Liga russa, sucedendo ao sérvio Boris Buniac, que resistira escassas semanas no comando do Uralan Elista, em 2000. Petrzela pegou numa equipa que estava perto da despromoção. Não só a manteve no principal escalão como, no ano seguinte, pô-la a discutir os lugares cimeiros. Acabou em terceiro e venceu a Taça da Liga. No ano seguinte, expandiu-se por territórios europeus, tendo-se quedado pela fase de grupos. Ainda assim, impôs goleadas ao Estrela Vermelha e ao AEK de Atenas. Frontal e obstinado, Petrzela é um homem que está a mudar o futebol russo. Não tem papas na língua e tem comprado várias guerras com os mais históricos técnicos locais. A sua postura tem paralelismos com a que Co Adriaanse vem assumindo em Portugal. Treinador de ataque, é crítico dos colegas que se fecham atrás e reclama um futebol mais bonito e aberto, não se devendo entender nesta abordagem um total descomprometimento para com os aspectos defensivos. Longe disso, aliás, já que, definindo o golo como objectivo, Petrzela não descura o posicionamento sem bola e a procura da mesma. Abriu o caminho à chegada de um imenso lote de técnicos estrangeiros e está a marcar a diferença. Só lhe faltam triunfos mais significativos do que aqueles que alcançou até aqui.
Invictos em casa
O V. Guimarães terá uma missão difícil, a julgar pela eficácia do Zenit quando joga no seu terreno. Esta temporada, ainda não somou qualquer derrota no Petrovski, tendo ganho 8 jogos para Liga e somado escassos 3 empates. Na UEFA, 2 igualdades em outros tantos encontros. Aliás, já desde 1999 que os russos não perdem em casa para as provas europeias. A última equipa a conseguir tal feito foi o Bolonha, de Itália. Há 6 anos, venceu em São Petersburgo por 3-0.
Rica História para escassos troféus

Cidade emblemática do regime czarista, São Petersburgo foi fundada em inícios do século XVII por Pedro, o Grande, que tencionava mudar a capital para as margens do Báltico. Em 1917, foi aí que se despolotou a Revolução de Fevereiro, primeira parte da estratégia bolchevique para derrubar o czar e instaurar o comunismo. Deposto o regime, Lenine devolveu o estatuto de capital a Moscovo, temendo estar em São Petersburgo a base da resistência à revolução. Em Outubro, com a definitiva vitória dos bolcheviques, também a cidade do Zenit se rendeu ao novo líder russo. Aliás, a morte de Lenine levou até a novo baptismo: São Petersburgo era agora Leninegrado. Um ano volvido, numa fábrica metalúrgia, nasce um clube de futebol. Até 1930, o futuro Zenit só disputou pequenas competições locais, tendo o crescimento da modalidade permitido a posterior participações nos mais importantes torneios. Em 1936, o clube passa a chamar-se Estalinetes, em honra ao líder comunista. Só quatro anos mais tarde é que o nome Zenit se torna oficial, sendo que o primeiro grande troféu (a Taça da Rússia) chegou em 1944. Seguiu-se um declínio que se prolongou até à década de 80 e que teve o seu auge em 1967, ano em que a equipa foi última classificada do campeonato. Todavia, o regime impediu a descida do Zenit em ano de celebração do cinquentenário da revolução bolchevique.
Conhecido como o clube dos “Sem Abrigo” (deslocavam-se para os jogos de comboio e dormiam nas estações), o Zenit conheceu em 1984 nova alcunha. No ano em que celebrou a única vitória no campeonato russo, a numerosa distribuição de sacas plásticas com a inscrição “Zenit é campeão” levou a que os rivais os apelidassem de “Os Sacos”. Com o desmembramento da União Soviética, o emblema voltou a sentir o amargo da derrota, tendo descido de divisão em 1992, ano em que se disputou, pela primeira vez, a Liga russa. Regressou em 1996 e, desde então, tem crescido a olhos vistos. E até contou, nos primeiros tempos, com a colaboração de um técnico bem conhecido dos madeirenses: Anatolyi Bishovets.

Palmarés
1 Campeonato da Rússia
2 Taças da Rússia
1 Taça da Liga Russa
EUROPA
38 jogos; 19 vitórias, 8 empates, 11 derrotas; 71 golos marcados, 51 golos sofridos
EM CASA
19 jogos; 12 vitórias, 4 empates, 3 derrotas; 41 golos marcados, 14 golos sofridos
Publicado por andré viana às 15:29
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