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sexta-feira, 28 outubro 2005
Os 'amigos' de Mourinho
Categoria: Col: Bruno Ribeiro
A campanha do Chelsea tem sido pouco menos que perfeita: 9 vitórias, entre as quais uma sobre o Arsenal e uma goleada em Anfield ao campeão europeu, e 1 empate; pelo meio uma reviravolta maquiavélica sobre o Bolton. O domínio tem sido tal que, a continuar, permitirá aos ‘Blues’ chegar ao Boxing Day com o campeonato praticamente resolvido, passe o exagero. Mas, nem todo o crédito deve ser atribuído a Mourinho, pois se parece quase certa a revalidação do título à 10ª jornada muito disso se deve à incapacidade dos seus principais adversários em responder à supremacia do Chelsea.
Manchester, Arsenal e Liverpool têm sido tremendas desilusões e grande parte da responsabilidade tem de ser creditada aos seus treinadores. No final da temporada transacta muito se especulou a respeito da capacidade do treinador português em alcançar novamente o sucesso, uma vez que sendo a equipa a abater o Chelsea iria sentir maiores dificuldades em bater os oponentes. Como diriam os britânicos: ‘So far, so good.’ Já as avançadas melhorias de performance por parte dos adversários directos, nem vê-las; esfumaram-se quais promessas eleitorais.
Comecemos pelo Manchester United. Desde logo salta à evidência tratar-se de uma equipa desequilibrada: ataque de luxo, meio-campo nu, e defesa sem alternativas. Ferguson, certamente pensando que o tempo é cíclico,
procurou apostar em jovens da academia tal como havia feito com a ‘fornada’ que o levou, e aos ‘Red Devils’, ao período áureo dos anos 90. A fórmula que produziu Beckham, Giggs, Scholes e outros parece ter passado o prazo de validade e Sir Alex vê-se confrontado com jogadores como O’Shea, Wes Brown ou Darren Fletcher, que sendo alternativas credíveis, não podem formar como vem acontecendo uma primeira linha competitiva ao mais alto nível.
O treinador escocês tem apostado na compra de jogadores para o ataque, sendo Gabriel Heinze uma notável excepção, descurando quer a defesa, quer sobretudo o meio-campo. De momento não existem alternativas a Roy Keane e Paul Scholes no plantel do United, o que leva a que, na ausência por lesão do primeiro e má forma do segundo, seja Alan Smith a fazer as despesas do meio-campo, ele que é um avançado de raiz. As duas últimas contratações de Ferguson para o meio-campo - Verón e Djemba-Djemba - revelaram-se fiascos: o jovem africano por claras deficiências técnicas e tácticas; o internacional argentino quer porque não se adaptou ao futebol inglês, quer porque passou demasiado tempo na enfermaria do clube, quer sobretudo porque Ferguson teimou que devia ser a Brujita a jogar a trinco e Keane e transportar jogo. No ataque o problema passa por ter uma referência de área para além de Van Nistelroij, já que Saha tem estado lesionado e Rooney não é jogador para estar ‘amarrado’ a uma posição tão fixa. Ferguson queixa-se de que o dinheiro Chelsea não deixa margem de manobra para contratar jogadores, o que é uma forma de fugir ao assunto já que o Chelsea não contratou todos os jogadores do mercado… Além do mais, se o United fosse um clube ganhador, como o era, a ‘atractividade’ do clube manter-se-ia!
Já o Arsenal de Wénger tem o seu problema na falta de eficácia que tem apresentado o seu ataque, bem como numa deficiente utilização dos jogadores do meio-campo por parte do técnico francês. O 4-2-4 com que a equipa se impôs no futebol inglês assentava na impressionante capacidade de Patrick Vieira em transportar o jogo e recuperar para apoiar a defesa; com a saída do francês para a Juve o Arsenal ficou sem a sua referência no meio-campo, tendo Wénger preferido romper com o passado e não procurar um jogador de características semelhantes.
O problema é que com isso o esquema da equipa ficou afectado já que Gilberto Silva, Cesc Fábregas e Flamini não têm as características de Vieira e os ‘Gunners’ não têm quem faça a transição defesa-ataque sem que com isso percam eficiência defensiva. A resposta para o problema poderia estar numa reformulação da distribuição dos jogadores sem com isso afectar substancialmente a forma de jogar da equipa: jogar com 3 médios com um enganche ofensivo. Para isso seria fundamental o aproveitamento de Aleksiandr Hleb que Wénger teima em encostar a um flanco ou colocar nas costas de Henry; no primeiro caso temos uma total falta de adaptação do jogador à posição, no segundo o desaproveitar das capacidades de construção de jogo do bielorrusso que seriam potenciadas com um recuo do mesmo para ‘vir buscar jogo’ a zonas mais recuadas.
A grande desilusão acaba mesmo por ser o Liverpool comandado por ‘Rafa’ Benítez. Na temporada passada valeu ao técnico espanhol a caminhada triunfal na Champions League para salvar uma temporada interna repleta de desilusão. Com a vitória de Istambul, e a continuidade do trabalho do espanhol, esperava-se que este fosse o ano em que os ‘Reds’ voltassem a saborear o título; puro engano, a equipa parece estar igual senão pior do que a
temporada passada. Uma clara diferença entre Mourinho e Benítez é que o treinador português, ao contrário do espanhol, não deixou que a sua ideia de futebol fosse moldada pelos costumes ingleses; já Benítez resolveu apostar num futebol mais directo e linear e com isso saiu claramente a perder.
Curiosamente, ao contrário de Arsenal e Manchester, o meio-campo é o sector mais forte deste Liverpool, que conta com Steven Gerrard e Xabi Alonso como figuras principais, e Dietmar Hamman e Sissoko como alternativas. Mais problemáticas são a defesa e as alas ofensivas. No reduto defensivo Carragher e Hyppia, não sendo das piores, não são certamente uma das melhores duplas de centrais da Europa, e ter como alternativa Djimi Traoré não é tranquilizante. Já no ataque, ou meio-campo, mas sobre as laterais o Liverpool dispõe de apenas 2 alas: Luís Garcia, que Benitez prefere ver como segundo avançado, e Harry Kewel que está invariavelmente lesionado. Com este cenário, Benítez recorre muitas vezes à utilização dos 4 laterais em simultâneo: Josemi e Finnan sobre a direita, Warnock e Riise na esquerda; sendo que só o internacional norueguês demonstra apetência para funções ofensivas, o que priva a equipa de capacidade ofensiva.
Mas a grande questão deste Liverpool é o seu ataque, ou melhor, as opções de Benítez para o ataque. No final da temporada passada, os ‘Reds’ eram alvo da inveja de muitas equipas europeias pelo seu potencial ofensivo; inveja justificada pela qualidade e diversidade das alternativas do novo campeão europeu: um ponta-de-lança puro como Morientes; o poder explosivo de Djibril Cissé; o oportunismo de Milan Baros, e a velocidade de Sinama-Pongolle. No entanto, Benítez prefirou dispensar Baros e trazer para o seu lugar Peter Crouch, um gigante inglês mais conhecido pela sua altura do que pelas suas capacidades goleadores. Crouch passou a ser a segunda escolha do técnico espanhol a seguir a Morientes, com a lesão desta a abrir-lhe as portas da titularidade. Com isto, Cissé um dos mais promissores avançados da actualidade (e um dos melhores, na minha opinião) passou a ser a terceira, e por vezes quarta, opção ou viu-se forçado a actuar com extremo-direito. O Liverpool tem de momento o segundo pior ataque da Premier League com 5 golos apontados, mais 3 do que o vizinho Everton que é último e menos 19(?) que o líder Chelsea. Curiosamente, Cissé é o melhor marcador da equipa com 2 golos e o único avançado que facturou - excluindo aqui Luís Garcia que tem 1 golo apontado. Significativo do que valem os ‘Reds’ ofensivamente!
Com ajudas deste tipo fica mais fácil ao Chelsea de Mourinho caminhar triunfalmente em solo inglês sem se incomodar com a oposição; eles mesmos tratam de se colocar de fora da disputa!
Este texto, original do blog Lugar Cativo, substitui a minha habitual coluna de sexta-feira - Desconto de Tempo - devido à minha indisponibilidade temporal para escrever algo que merecesse ser publicado. O Desconto de Tempo volta para a semana.
Publicado por bruno ribeiro às 21:06
Comentários
"Uma clara diferença entre Mourinho e Benítez é que o treinador português, ao contrário do espanhol, não deixou que a sua ideia de futebol fosse moldada pelos costumes ingleses; já Benítez resolveu apostar num futebol mais directo e linear e com isso saiu claramente a perder."
Não concordo quando se diz que Mourinho não apostou também num futebol mais directo e linear como fez Benitez. Mourinho foi criticado pela imprensa por jogar com bola para a frente e Drogba apanha. Soube mas foi tirar máximo partido desse futebol (kick and rush).´
#1 | Comentado por: Ricardo Wiggy Gomes | 29 de outubro de 2005 às 07:02
Bem, essa análise está quase perfeita!
So queria reforçar aqui uma ideia ja referida no texto. o Aleksiandr Hleb é um jogador fabuloso que está a ser muito mal aproveitado pelo Arsenal. Fiquei com ele na retina desde o jogo com o Estugarda que o Benfica fez o ano passado, que grande jogador!
De qualquer modo, o Chelsea mais tarde ou mais cedo vai perder pontos...resta saber é se os outros ainda os conseguem apanhar, ja a que a margem de manobra é muito inferior!
#2 | Comentado por: Fireal | 29 de outubro de 2005 às 07:02
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