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segunda-feira, 31 outubro 2005
Entrevista com José Soares
Categoria: 05/06 Futebol Internacional
Os países árabes tornaram-se nos últimos anos um dos principais “Eldorados” para jogadores estrangeiros, muitos deles antigas vedetas e que aqui têm à sua espera milhões derivados dos petróleo e um campeonato pouco competitivo onde podem oferecer uma imagem que nos principais campeonatos ja não poderiam dar.
Mas um dos primeiros a abraçar esta experiência foi um português, que depois de uma carreira com altos e baixos, parece recuperar a vontade de jogar bem longe do nosso futebol.
Ele é José Soares, que depois uma carreira iniciada nas camadas jovens do Benfica, período no qual era assíduo das selecções jovens, jogou no Aves e Campomaiorense antes de ter de emigrar, e de passar pelo terceiro escalão do futebol alemão, para nos ultimos anos ter jogado no Al Ahly da Arabia Saudita e ultimamente no Al Shamal do Qatar.
Humilde e bem disposto, com uma tatuagem árabe nas costas, esta é a experiência contada na primeira pessoa e em exclusivo para o Terceiro Anel de José Soares.
Como tem sido a experiência de jogar nos países árabes, neste caso Arábia Saudita e Qatar?
A experiência tem sido agradável, pensei que fosse mais complicado. Há três anos, quando fui convidado por um clube árabe, pensei muito antes de aceitar. Mas estou feliz por ter optado pelo Medio Oriente. As pessoas tratam-me bem, quando falo com outros colegas futebolistas pensam que são países raros, mas não, ja vivi na Arábia Saudita e no Qatar, e trataram-me bem. Senti muito a diferença da religião, mas de resto senti pouca diferença. Há muitos imigrantes, e eu falo um pouco de inglês, por isso é mais fácil para mim comunicar-me, porque o árabe é quase impossível de aprender.
Na altura foi a melhor oferta que eu tive, porque estava na Alemanha e não apareceu nada de especial. O clube na Alemanha, o Schweinfurt, queria que renovasse, mas não me compensava o ordenado para estar longe do meu país.
Por isso optei pela Arábia Saudita, que é um país mais difícil de viver, mas tenho sido muito bem tratado.
A que é que se deve esta explosão no número de estrangeiros, muitos deles conhecidos, no futebol árabe?
Tem a ver, na minha opinião, com os Jogos Asiáticos de 2006. É para chamarem a atenção sobre os seus países, e também para promoverem esses mesmos países, querem dar uma prova de que se vive bem lá, que têm dinheiro. E claro que também é uma brincadeira deles, que sabem que se querem trazer o Figo ou outro craque, têm capacidade para o fazer. É o conjunto de tudo isso, mas a partir de 2006 é que não sei como vai ser, não sei se vão continuar a gastar essa exorbitância ou se vão decidir-se por estrangeiros mais modestos. Não creio que depois dos Jogos Asiáticos de 2006 eles continuem a pagar os milhões pelos craques estrangeiros.
Hoje o futebol tem muito a ver com Marketing, não importa só o que o jogador pode aportar no campo, mas também o que pode dar ao clube em termos de imagem, e nestes países o que está em causa é a imagem dos presidentes, que são do estilo “ quero, posso e mando”, porque o clube é deles, isso é diferente de Portugal, eles é que compraram o clube e é deles, e querem dar a imagem de que têm poder e dinheiro. Eu não concordo com essa estratégia, mas infelizmente o futebol está a entrar por esse caminho em certos países.
E como são as condições de trabalho nos campeonatos árabes?
São boas. São semelhantes aquilo que temos em Portugal. Têm contratado técnicos estrangeiros, que tentam mostrar como é que se trabalha noutros países. E hoje em dia podem-se ver os jogos do Real Madrid, Barcelona, campeonato italiano, e até um pouco de futebol português, e eles tentam ver como é que é. Nós, os jogadores estrangeiros tentamos mostrar-lhes como se fazem as coisas na Europa, e eles assimilam bem, e é por isso que as condições acabam por ser muito boas.
Cada vez há mais jogadores portugueses a emigrarem. A que é que se deve este êxodo, que cada vez é mais significativo no nosso futebol?
Eu acho que tem a ver com a falta de oportunidade, e depois também temos o factor económico, que cada vez pesa mais.
No meu caso, quando tinha 18 anos, queria ganhar dinheiro, mas não era o mais importante. O meu objectivo principal era afirmar-me no futebol português e num clube grande, e os da minha geração pensavam igual. Mas cada ano que passa, mais valor se dá ao dinheiro que se recebe, e talvez com razão, os clubes portugueses cada vez têm menos dinheiro, e os jovens pensam mais no factor económico.
Claro que também há casos de jogadores que vão à aventura, outros por falta de oportunidades.
Sinceramente, se pudesse escolher jogava em Portugal, não andava por outros lados.
Desde que emigraste, houve algum contacto de equipas portuguesas no sentido de voltares ao futebol português?
Não, sinceramente desde que estou nos países árabes não houve nada, mas quando estava na Alemanha ainda tive a possibilidade de vir para um bom clube português, mas não se concretizou. E agora cada vez é mais difícil, não tanto pela idade que tenho, mas sobretudo pelo esquecimento, nunca mais me viram jogar, e cada vez vai sendo mais difícil.
Sentes-te dessa forma injustiçado pelo futebol português, tendo em conta que jogaste no Benfica, e foste assíduo nas selecções jovens?
Não, são opções que foram tomadas,todos os anos aparecem novos valores.
Mas claro que se me perguntarem se acho que tenho valor para jogar no clube do meu coração, eu acho que sim, porque olhando para o plantel dos últimos anos, penso que poderia fazer parte dele. Mas devido a erros meus e de outras pessoas as coisas correram mal, mas a vida é assim. Se tudo tivesse corrido como eu esperava que corresse, poderia ainda estar no Benfica, mas as coisas mudaram, e o Benfica também não apostava muito nos jovens, agora está melhor nesse sentido, e como se tem visto, até os resultados mudaram.
Mas continuas a acompanhar o futebol português, mesmo estando longe?
Sim, até porque a Dubai Sport transmite dois ou três jogos por semana do futebol português, e também tenho RTP, e através da internet vou acompanhando o nosso futebol.
Voltando aos tempos do José Soares no futebol português. Todos nos lembramos da famosa confusão com o Jardel, quando representava o Campomaiorense. Foi um momento negativo da tua carreira?
Claro que sim, porque no futebol brigas entre jogadores nao beneficiam nada o espectáculo. E essa confusão nao foi boa para mim nem para o Jardel, mas sobretudo não foi boa para o futebol.
E posso dizer que me prejudicou na carreira, porque esse tipo de coisas marcam sempre, e não trazem nada de bom.
Falando na actualidade, como vês o nível do nosso futebol?
Com os jovens de vinte e poucos anos que estão a aparecer, a tendência é para melhorar, as equipas estão cada vez mais fortes, a selecção cada vez está melhor, penso que temos uma boa estrutura na federação, em termos de equipas técnicas, os clubes também estão a melhorar, os grandes contratam melhor, as equipas pequenas também se estão a reforçar bem, e por isso penso que o futebol português tem estado a evoluir.
Agora algumas perguntas curtas. Qual o clube onde sonhavas jogar?
Real Madrid
Dos clubes por onde passaste, qual te deixou melhores recordações?
Benfica, claro.
Treinador que mais te marcou?
Nelo Vingada
Jogador preferido?
Luis Figo
Momento mais importante da carreira?
O primeiro jogo que fiz pelo Benfica, ao serviço da equipa principal.
Depois o Campeonato da Europa em Mérida e o Mundial do Qatar. Os jogos da selecção são sempre marcantes.
Conclusão:
Esta foi a entrevista a José Soares, e tendo em conta as referências que me tinham sido dadas sobre o José, a nível pessoal e profissional, e baseado ainda em tudo o que notei ao longo da entrevista, posso tirar algumas conclusões, muitas deles obtidas "off the record":
Poucos benfiquistas haverá como o José Soares. Ao longo da entrevista o amor pelo Benfica está sempre patente. E a verdade é que amor à camisola encarnada nunca se lhe poderá negar.
O fair play. Apesar de ser um jogador conhecido como duro, assume os erros e tem consciência de que isso só o prejudicou. Um pouco diferente dos discursos normais de que a culpa foi dos outros ou da comunicação social. José Soares assume os erros na carreira como seus.
A humildade. Simpático, prontificou-se a dar a entrevista ao Terceiro Anel e ficou entusiasmado com a possibilidade de sair no nosso blog, quando lhe expliquei em que consistia, e aí serviram na perfeição as pesquisas do Rui Malheiro, que serviram como exemplo para demonstrar que este blog aporta informação que não se pode obter noutros lados. E aqui entra a última grande característica do José Soares, o amor ao futebol. Segue os diversos campeonatos, informa-se de tudo, e quer saber mais. Esperemos assim que o Terceiro Anel possa satisfazer a fome de informação desportiva do José Soares como leitor.
Publicado por luis gonçalves às 15:43
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