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sexta-feira, 4 novembro 2005

Para acabar de vez com a mitologia interista

Categoria: 05/06 Futebol Internacional , Col: Alexandre Calado

A Sport Tv pregou-me uma partida esta época. Não é que não estivesse à espera, ou que esteja em desacordo com a sua política de emissão, o problema é que nem pensei muito no assunto, mas só quando me deparei com os factos é que tive noção do peso de tal partida. Por causa do capitão da selecção nacional a Sport Tv decidiu retirar a Juventus e o Milan do prime-time dedicado ao campeonato italiano naquele canal, para nos oferecer a fraca qualidade do futebol do Inter. As perdas têm sido óbvias. A Juventus arranca o melhor arranque de campeonato da história da Série A e o Milan soma apenas 2 resultados comprometedor (1 empate e 1 derrota), pouca coisa num ano “normal”. A acentuar a este cenário, sou presenteado com uma equipa mediana, cujos nomes dos jogadores é bem superior à sua qualidade de jogo. Já que o sistema multi-jogos ainda não funciona para esta Liga (digam lá se não era uma boa ideia!) e de modo a tornar proveitoso as horas despendidas a acompanhar a turma interista, resolvi confrontar-vos com as conclusões (provisórias) que retirei da observação do plantel até ao momento.

Começando pela baliza há que ser frontal. É incompreensível que Toldo tenha perdido o lugar para o brasileiro Júlio César. Só compreendo na lógica de imitar o Milan, com a única diferença que Dida é um grande guarda-redes (apesar do ocasional frango) e Júlio César é apenas bonzinho, longíssimo do grande Toldo. Mancini mostra a sua capacidade de gestão de recursos ao abdicar à partida de um dos melhores jogadores do plantel.

O mesmo tipo de engenharias podemos encontrar no sector defensivo, só que ai há que dizer que a escolha é muito mais limitada. Senão vejamos, no centro da defesa as primeiras opções são Materazzi e Samuel, dois jogadores iguais que se definem essencialmente pelo jogo ultra duro (maldoso até), pela dureza de rins e pelo bom jogo aéreo, rapidamente compensado pelo fraco jogo ao nível da relva. Dois jogadores sem classe, que não seriam titulares em nenhuma das restantes equipas de topo de Itália, nem de outro campeonato qualquer de topo. Samuel bem o provou o ano passado no Real Madrid. As alternativas são igualmente más, com o argentino Burdisso, que os adeptos portugueses conheceram em versão lateral direito, que foi contratado ao Boca Juniores e que raramente joga. Na verdade é difícil descrever ou dizer mal dele pelo tão pouco que tem jogado. Ainda temos o Mihajlovic que hoje tem uma utilidade muito característica do Andebol. Serve essencialmente para marcar livre e cantos. Contra o Porto foi super-eficaz, mas também não teve que correr em algum momento atrás de um avançado portista. Foi, de facto, um grande jogador, mas hoje apenas vai sobrevivendo à reforma. Finalmente, temos Córdoba, um jogador que pessoalmente admiro. Sei que isto é polémico, e sei que ele também é um jogador duro. Contudo, considero-o um jogador rápido, com boa qualidade no desarme, de enorme entrega e que tem um bom jogo aéreo (apesar da sua baixa estatura). Quaresma destruiu-o, mas ele não é lateral.

Claro que dificilmente poderíamos chamar a Favalli um lateral, ou outra coisa qualquer, tais são as suas limitações. Um jogador que nunca foi nada de especial, em fim de carreira garante a titularidade no Inter. Surpreendente? No Inter, nem por isso. Temos também Javier Zanetti, mas está lesionado. Também poderíamos considerar o Zé Maria e o Pierre Wome, dois bons jogadores, mas seria fazer injustiça ao Mancini. É que ele raramente opta colocá-los na posição de origem, fazendo-os avançar para o meio campo, onde o seu rendimento é definitivamente inferior. São bons laterais, com capacidade ofensiva e bom posicionamento defensivo. Claro que é difícil de ver isso quando jogam a médios.

O meio campo, por sua vez, é o sector chave desta equipa. De entre as equipas de topo da Europa o meio campo interista distingue-se por ser o mais lento de todos. Aquele em que a bola rola com maior lentidão e menor pertinência. Por incrível que isto possa parecer, Figo aos 33 anos parece um velocista ao pé dos seus companheiros. Cambiasso foi uma promessa no Real Madrid do Del Bosque e continua uma promessa no Inter de Mancini. Pouco evoluiu desde esse período, sendo difícil a qualquer um identificar um grande jogo ou uma grande jogada que lhe tenha visto fazer recentemente. Continua o mesmo jogador discreto, de qualidade, mas que nada acrescenta de genial a nenhuma equipa. A maior crítica que lhe posso fazer, e julgo que é justa, é que não saberia quem escolher entre ele e Cristiano Zanetti. Véron foi um jogador extraordinário no Parma e na Lázio de Eriksson, custou cerca de 45 milhões de Euros ao Manchester United e foi um dos maiores flops da história do clube, Abramovic recolheu-o no Chelsea e ele não mostrou nada, agora é incontestavelmente o patrão do meio campo do Inter, sem que para isso tenha melhorado minimamente a sua forma. OK, reconheço o trato da bola, reconheço a qualidade de passe, reconheço a capacidade de finta, até lhe dou a visão de jogo. Estas fazem dele um grande jogador? Nem por isso. Fazem dele um jogador talentoso, que não é um grande jogador porque simplesmente não corre durante o jogo, como o Valderrama no final da sua carreira. Gosta de reclamar com toda a gente, preferencialmente os colegas, mas raramente o vemos a pegar no jogo para lhe incutir velocidade. No Inter isso é fantástico, em Inglaterra nem por isso. No flancos poderia falar do grande Kily Gonzalez, mas já não joga há imenso tempo, ou do fabuloso Solari, mas parece que não é opção para Mancini. Resta-nos Stankovic, um jogador de boa qualidade, que acrescenta alguma coisa a esta equipa, mas que não é nenhum génio, Pizarro, um jogador acabado de chegar e que parece ter qualidade, e Luís Figo, que mesmo em final de carreira procura criar jogo e desequilibrar, faltando-lhe equipa para isso.

No ataque a equipa mostra mais qualidade. Neste sector jogam dois dos melhores jogadores da equipa, precisamente Adriano e Martins. O Imperador é um jogador de classe mundial, genial nas suas acções, e que vai escondendo amiúde a mediocridade da equipa. Claro que por vezes está em má forma ou amua, o que não é complicado quando assiste a jogadores como Véron a criticar os seus comportamentos. Martins, para mim, é um jogador magnífico, faltando-lhe talvez maturidade, alguma serenidade e (essencialmente) uma grande equipa para se distinguir entre os grandes avançados da Europa. É uma excepção no conjunto da equipa, claramente fora do esquema dos restantes. Corre o campo todo, a passo é mais rápido que os colegas, e tem um poder nas suas iniciativas parecido a Weah. Em ambos os casos tenho pena que joguem nesta equipa. Júlio Cruz tem qualidade, é um finalizador nato. No resto é um jogador banal, mas na área é mortífero. Para analisarem as diferenças, revejam o jogo no Dragão (em que jogou sozinho entre os centrais e foi penoso) e o em San Siro (no qual foi decisivo). Resta-nos Recoba, um dos maiores símbolos do clube e uma das maiores ilusões do futebol mundial. Um jogador que representa a ultra-sobrevalorização, não jogando sequer metade do que lhe atribuem. Na verdade, se decidisse mudar de nome na camisola e passasse a chamar-se Álvaro sem avisar ninguém, dificilmente jogaria na sua equipa nacional, quanto mais no Inter.

Em síntese, ao contrário do consenso generalizado, julgo que o Inter terá 3 ou 4 jogadores de classe mundial, mais uns quantos jogadores de nível europeu, e o resto são jogadores que enchem camisolas, mas que não enchem o campo. É uma equipa que se constrói de contradições constantes e à qual lhe falta essencialmente qualidade. Mancini foi um grande jogador, mas como treinador deixa largamente a desejar. É responsável em larga medida do plantel que tem e ao nível da gestão é no mínimo polémico. Não tendo a mesma qualidade que a Juve ou o Milan têm, também não potencia os seus jogadores, colocando-os fora das posições que mais se lhe adequam. Um clube com necessidade urgente de rever toda a sua estratégia, a bem da competitividade do campeonato italiano e do meu tempo passado a ver futebol.

Publicado por alexandre calado às 22:08

Comentários

Alexandre Calado, concordo em quase tudo o que dizes. Tens mesmo algumas passagens muito bem conseguidas, no entanto discordo em absoluto em 2 pontos.

No que diz respeito a Recoba, acho que é um jogador fenomenal - quando engata é dos melhores do mundo - e que está a ser prejudicado pelo flop que é o Inter há mais de 15 anos.

Olhem para a história e vejam os fantásticos jogadores que passaram por este clubes nos tempos mais próximos e que foram todos um desastre: Ronaldo, Vieri, Canavarro, Batistuta, Sérgio Conceição, etc...

A outra análise de que discordo diz respeito ao Esteban Cambiasso. Acho-o um trinco de elevado valor, ainda num dos últimos jogos da série A fez um golo brutal a 25 metros - não se precisar em que confronto foi, no entanto tenho-os visto todos por isso foi num dos 3 últimos!. E tem a vantagem de ser bastante jovem, numa 'equipa' no verdadeiro sentido da palavra seria uma das estrelas.

De resto assino por baixo a tua crónica!

Na minha opinião o grande problema do Inter é apostar em jogadores já consagrados e a roçar a veterania. Peca ainda por trocar de plantel quase de 6 emm 6 meses e de ter tido sempre - nos últimos 10 anos - treinadores incompletentes.

O último título de campeão foi em 88 e com Trapattoni.
Depois disso já passaram pelo Inter - e dos que ainda não falei - Roberto Baggio, Matthaus, Rudi Voller, Zamorano, Andreas Brehme entre outros!

#1 | Comentado por: Pedro Neto | 5 de novembro de 2005 às 10:52

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