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domingo, 5 fevereiro 2006
O crime não compensa
Categoria: CAN '06
Os Camarões foram afastados da Taça das Nações Africanas. Samuel Eto'o, estrela da equipa e auto-proclamado sucessor de George Weah entre os jogadores africanos galardoados com a Bola de Ouro, falhou o penálti decisivo. Sinceramente, esse facto deu-me satisfação e penso que aos angolanos também. Num torneio que tem despertado o meu interesse apenas marginalmente, após assistir aos últimos minutos do jogo entre os Camarões e a Républica Democrática do Congo, senti uma vontade imensa que os Camarões fossem logo de seguida eliminados. O facto de ter sido Eto'o a falhar o remate decisivo foi a cereja no topo do bolo. Claro que sinto pena por Artur Jorge, Douala e por Meyong (que marcou a sua presença com um belíssimo golo nos apuramentos e um golo quase salvador no último jogo). Contudo, aqueles minutos foram mais importantes que simpatias nacionais.
Mas, o que se passou exactamente? Bem, no dia desse jogo mudo para o Eurosport (sublinhe-se a qualidade do acompanhemento que a Eurosport – incluindo os comentadores – tem feito do torneio) e dou com os os jogadores dos Camarões a trocar a bola, mas não todos. Então? Bem, eram os quatro defesas e Eto'o, que variava entre uma posição de trinco e de líbero, dançando no centro do terreno, passando a bola a estes colegas, isto quando não estava a dar toques na bola. Mas Eto'o não é ponta de lança? É pois, mas há jogadores que têm mesmo que pisar o centro do palco. E o que faziam os jogadores do Congo? Bem, assistiam calmamente a tudo isto sem fazerem qualquer esforço para ou recuperar a bola. Tal cenário era mais que estranho. O que se passava? Porque é que os Camarões a vencer por 2-0 não passavam do meio campo? Os comentadores prontamente responderam. Se os Camarões num lance de puro azar marcasse um golo, ficando 3-0, a equipa do Congo seria eliminada e Angola passaria à fase seguinte!
Refira-se que isto não se deve a alguma simpatia particular por Angola, se fossem os jogadores de Angola expecados a ver E’too dançar e fazer truques com a bola, e os jogadores do Congo a disputarem seriamente a eliminatória, estaria aqui a fazer o mesmo discurso. Uma dúvida restava. Porque é que os Camarões queriam tanto ajudar o Congo? Bem, porque o actual treinador (entretanto penso que já saiu) do Congo já foi treinador dos Camarões. Infelizmente, não há regras no jogo que possam obrigar uma equipa a atacar e impedir que equipas intencionalmente não se demitam do jogo. Contudo, o que se passou nesse jogo não foi um pacto de não agressão, até porque o Congo não tem capacidade de agredir ninguém (como se viu no jogo com o Egipto), mas sim uma demonstração descarada e sem vergonha dessa combinação, tendo em Eto'o o principal protagonista. Por outro lado, enquanto assisti a esses 10 minutos que me pareceram uma hora, em que a bola andava de um lado para o outro, trocada entre 3 ou 4 jogadores, sem que ninguém a disputasse, e em que quando por puro acaso um jogador congolês recuperava a bola, fazia tudo para a devolver aos jogadores camaroneses, porque simplesmente era mais seguro assim, nunca vi Artur Jorge gritar para dentro do campo. Admito que não gostou do que se passou, mas também não o vi fazer nada para mudar tal situação.
Nesses instantes a equipa camaronesa, lidereda imperialmente pelo seu ponta-de-lança a jogar entre os centrais, humilhava simultaneamente Angola e o Congo, procurando afirmar um poder que felizmente se esfumou no jogo seguinte. Com aquele comportamento, Eto'o dizia aos angolanos que só não marcavam um golo porque não queria e simultaneamente aos congoleses que o melhor era a bola não passar do meio campo defensivo dos Camarões, porque eles eram tão fracos que a bola poderia entrar. Não imagino como os congoleses podem ter festejado a seguir ao jogo.
Como o futebol também tem momentos de justiça, os Camarões foram eliminados logo na ronda seguinte e Eto'o foi o responsável. Perdeu para o seu grande rival do Chelsea, Didier Drogba. Outro protagonista terá igualmente sorrido – o seu nome é Pierre Wome. Depois de ter falhado o penalti decisivo para o Mundial, ao invés de ver aquele (e estou mesmo a falar do mesmo Eto'o) que se acorbadou na altura decisiva a defende-lo, viu-o a apontar o dedo da responsabilidade em todos os jornais e televisões. Artur Jorge assistiu impassível a isto, como assistiu impassível ao afastamento político de Wome da Taça das Nações Africanas, preocupado apenas em que lhe pagassem os meses de ordenado em atraso. Por estas razões, cada vez percebo melhor o Luís Gonçalves.
Publicado por alexandre calado às 17:06
Comentários
De facto, a vingança serve-se muito fria. Excelente post, Alexandre!
#1 | Comentado por: Pedro Neto | 9 de agosto de 2006 às 14:14
Camarões e Congo ficaram pelos quartos...
Muito bem feita!
#2 | Comentado por: Plasticine | 9 de agosto de 2006 às 14:14
Eto'o é um jogador fantástico.
Mas estúpido e vedeta como tudo.
Com isto tudo, quem ficou a ganhar foram Sporting e Belenenses.
Venham Douala e Meyong que fazem muita falta!
#3 | Comentado por: Rui Melo | 9 de agosto de 2006 às 14:14
Excelente post, alexandre calado.
É realmente uma situação muito má que só envergonha quem nela participa ou não faz nada para impedir (neste caso o Artur Jorge). Lembro-me de uma situação semelhante no último mundial, num jogo em que participou a Itália, onde os últimos minutos mais valiam não terem existido. É muito triste quando o "ganhar a todo o custo" se sobrepões quase sempre ao "ganhar com mérito".
#4 | Comentado por: Paulo Ricardo | 9 de agosto de 2006 às 14:14
"Lembro-me de uma situação semelhante no último mundial"
Não foi no Mundial, foi no Euro 2004 num empate 2-2 entre a Suécia e a Dinamarca. Amiguinhos escandinavos, hein?
Quem se lixou foi a Itália, de facto.
#5 | Comentado por: Pedro Neto | 9 de agosto de 2006 às 14:14
Bom, já agora refiro também o Portugal-Coreia em 2002, em que os Tugas a partir da meia hora e durante 10 minutos entraram num pacto de não agressão com os Coreanos, até o idiota do João Pinto matar um chinoca e esmurrar o árbitro. Aí, os coreanos perceberam que nada tinham a perder, e se nos ganhassem eram herois.
#6 | Comentado por: Luciano Rodrigues | 9 de agosto de 2006 às 14:14
Alexandre, obrigado pelo apoio:)
Eu tb vi o final o jogo Camarões-Congo, e vi aquilo tudo que aqui se diz...e pensei exactamente o mesmo que tu, e alegro-me agora por terem sido eliminados. E tudo isto só vem dar razao aquilo que eu tinha escrito. O Etoo só acha falta de respeito aquilo que lhe fazem. O que ele faz é sempre legítimo. E é isso que não pode ser.Porque tenho a certeza de que se esta situaçao tivesse ocorrido em desfavor dos Camarões, Etoo não pararia calado, e acusaria tudo e todos da eliminação dos Camarões. É um jogador fantástico, mas... a parte pessoal não acompanha. E já agora gostava de saber se aqueles que criticaram o meu artigo sobre Etoo viram o jogo, e que lhes pareceu... porque espelha aquilo que eu sentia o escrever o artigo... pode ser que com a idade o Etoo cresça. Espero!
#7 | Comentado por: Luis Filipe Goncalves | 9 de agosto de 2006 às 14:14
tudo foi vergonhoso, desde o que o Alexandre descreveu até à atitude patética de Claude Le Roy a fingir que não sabia o resultado de Angola. o mais incrivel é que ninguém falou nisto em lado nenhum a não ser um ténue protesto angolano.
#8 | Comentado por: Cláudio Assunção | 9 de agosto de 2006 às 14:14
tudo foi vergonhoso, desde o que o Alexandre descreveu até à atitude patética de Claude Le Roy a fingir que não sabia o resultado de Angola. o mais incrivel é que ninguém falou nisto em lado nenhum a não ser um ténue protesto angolano.
#9 | Comentado por: Cláudio Assunção | 9 de agosto de 2006 às 14:14
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