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domingo, 26 fevereiro 2006
Chamavam-lhes brutamontes
Categoria: Boavista

Estou para escrever este texto faz semanas. Tenho visto os jogos, aprecio a qualidade do futebol praticado, admiro a organização da equipa e os seus protagonistas, mas por uma razão ou por outra ainda não tinha parado para reconhecer essa qualidade em texto. A único motivo razoável que encontro é que o que há a dizer sobre o momento desta equipa tem tudo menos que ver com um resultado em particular, mas sim com uma ascenção qualitativa que se previa desde a pré-temporada e que agora se consolidou de forma consistente no futebol da equipa. Falo obviamente da equipa sensação da segunda volta da Liga Portuguesa, o Boavista.
Após o entusiasmo generalizado com a mudança de Carlos Brito de Vila do Conde para o Bessa, muitos comentadores (aqueles que estão sempre certos) ao analisarem a primeira volta do Boavista no campeonato rapidamente fizeram um diagnóstico. A equipa continua mais ou menos na mesma, porque é constituída por um conjunto de jogadores cuja vocação é distribuir pancada e é liderada por um treinador orientado para o empate. A inconstância da equipa e a inexistência de grandes resultados (vitórias com os grandes) aparentemente confirmavam esta tese. Contudo, outros factores foram esquecidos. A contenção financeira do Boavista colocou o clube a ter menor poder de compra no mercado do que clubes de meio da tabela de Portugal, o que obrigou Brito a ter que aproveitar o melhor possível os recursos já existentes no clube.
Essa foi a primeira parte do campeonato. Essencialmente com o que tinha, foi implementando ideias, impondo uma nova ordem no futebol axadrezado. Mais posse de bola, em circulação permanente, pressão sobre o adversário e liberdade criativa na frente de ataque. O chute para a frente e a anulação do futebol adversário são lemas do passado. Claro que no futebol a paciência é pouca e os jornalistas não podem perder tempo a elogiar quem não obtem resultados sensacionais, pelo que o Boavista é votado ao esquecimento, animado apenas com a venda do actual suplente Diogo Valente ao FC Porto.
Trabalhando intensamente com quem vinha do ano anterior, Carlos Brito chega a Janeiro em condições de fazer um diagnóstico acertado dos jogadores que tinha, recebendo mais alguns jogadores que vêem ocupar lugares chave na equipa, contribuindo com imediata mais valia.É o caso de Paulo Sousa. Com estes jogadores não só a equipa ganhou mais recursos, mas toda ela melhorou em termos qualitativos. João Pinto é o principal protagonista, mas também José Manuel recuperou a forma da primeira volta do ano passado, Manuel José apresenta-se decisivo a lateral direito, Lucas assume-se cada vez mais como um distribuidor de jogo, e Ricardo Silva como o patrão da defesa boavisteira. Por outro lado, jogadores menos utilizados foram recuperados, trazendo mais qualidade ao futebol da equipa. São os casos de Paulo Jorge e de Figueiredo.
O maior mérito de Carlos Brito, quanto a mim, foi ter encontrado um estilo de jogo e uma equipa. Quando a descobriu, estabelizou-a e deixou-a crescer. Com coragem tomou opções, mesmo que inicialmente estas sejam difíceis de aceitar para alguns jogadores. A melhor resposta têm sido as vitórias. Ao invés de mudar de jogo para jogo, ou de procurar surpreender os adversários com jogadores improváveis, aposta na articulação e na confiança da equipa que apostou, mudando apenas o rosto inicial da equipa consoante joga em casa ou fora.
Os resultados comprovam este crescimento da equipa. As vitórias concecutivas acumulam-se, a Europa é cada vez mais uma certeza e a Liga dos Campeões uma possibilidade a não descartar. O mérito agora é de Carlos Brito, o treinador sensação que transforma equipas patinhos feios em exemplos de qualidade de jogo. Indepedentemente de conseguir ou não o famigerado lugar europeu, João Loureiro e os adeptos boavisteiros já têm a agradecer a Carlos Brito a renovação do plantel e do futebol do Boavista, sem para isso ter mudado 20 jogadores e gasto centenas de milheres de euros. Optimizando os recursos o Boavista é hoje outra equipa, mais consistente e com mais qualidade, capaz de combater com o Braga e com o Nacional, sem deixar de surpreender e participar com voz activa na luta pelos lugares cimeiros da tabela.
Para finalizar, devo reconhecer que escrevendo sobre o Boavista não deixei de pensar noutra equipa, hoje em mais dificuldades do que aquelas que lhe eram previstas, fruto de opções e estratégias duvidosas. Ao ver o Boavista jogar penso como tudo poderia ser diferente agora, caso o caminho tomado fosse semelhante. Estranhamente, não era dificil que assim acontecesse.
Publicado por alexandre calado às 15:46
Comentários
Adorava ver o Carlos Brito a treinar o FC Porto. É um treinador que admiro, apesar de tudo jovem ainda e que demonstra muita inteligência nas equipas que treina. O oposto de Adriaanse.
#1 | Comentado por: Nuno Leal | 24 de maio de 2009 às 20:07
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