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segunda-feira, 1 maio 2006

Futebol português – “a paixão dos fortes”

Categoria: Col: João Nuno Coelho

Mais um campeonato da Primeira Divisão que termina - podem lhe mudar o nome de Galp para Betadine ou para qualquer outra coisa mas felizmente para os adeptos continua a ser a Primeira Divisão - e mais uma vez um dos Três Grandes conquista o título.
Por acaso, até foi o meu clube - pelo que estou satisfeito com o sucedido -, o que não impede que esta monotonia competitiva não surja como um bom motivo para reflectir um pouco sobre a história do futebol português e sobre alguns dos traços característicos que têm impedido uma real melhoria do campeonato e do futebol em Portugal.

Se algum traço é absolutamente marcante na história do nosso futebol - fazendo já parte integrante da sua identidade - é o domínio asfixiante de três equipas, em termos desportivos, mas também sociais. Essa hegemonia de FC Porto, Benfica e Sporting, corresponde a um claro domínio das equipas das duas maiores cidades do país, mas também a uma profunda litoralização do nosso futebol, que se tem agravado nos últimos anos.
Números que não mentem

Ao longo de 70 anos de Primeira Divisão apenas por duas vezes essa hegemonia dos três grandes foi rompida (representando uma ínfima percentagem de 3%). O Belenenses, em 1946, e o Boavista em 2001, protagonizaram as excepções. Se a lógica se mantiver vamos ter que esperar mais 50 anos até vermos um novo campeão fora do quadro dos "grandes"!!!

É caso para dizer que de cinquenta em cinquenta anos algo muda...Para logo voltar à normalidade. Nota ainda mais "preocupante" é o facto de os campeões, incluindo os dois outsiders" serem todos de Porto e Lisboa o que mostra uma enorme concentração do poder futebolístico.
Note-se que já em 1970/71 os clubes da 1ª divisão concentravam-se à volta de Porto e Lisboa. Num raio de 50 km das duas cidades podíamos encontrar 86% de todos os participantes no escalão maior. Hoje os números não diferem em absoluto. E mesmo na II Divisão eram 60%. E não havia um único representante do interior do país.
Hoje, passados mais de trinta anos, a situação é igual, sendo que no entretanto, se contam pelo dedos as excepções a esta “desertificação interior” terrível que tem no futebol apenas mais um exemplo. Eu digo quais foram: Desportivo de Chaves; Académico de Viseu, Covilhã, Elvas e Campomaiorense (quase todos com passagens mais ou menos fugazes pela 1ª divisão.

O campeonato português apresenta um dos resultados mais pobres em termos de competitividade e equilíbrio desportivo, quando comparado com outros exemplares europeus, apenas se registando 5 campeões em quase 70 anos, sendo que em número de campeonatos ganhos pelos três clubes mais “titulados” é mesmo aquele que apresenta valores percentuais mais elevados: 97% dos títulos foram para Benfica, Porto e Sporting.

Os dados relativos aos vencedores da Taça de Portugal também não mentem - apesar de se poder pensar que a história de uma competição deste tipo podia ser muito diferente em termos de competitividade. Há naturalmente maior variedade de vencedores - em 66 edições houve 11 vencedores -, mas mesmo assim os três grandes levaram 50 troféus, restando apenas 16 (25%) para dividir por 8 clubes: Boavista (5 vitórias) e Belenenses (3), V. Setúbal (3), Académica, Beira-Mar, Estrela da Amadora, Leixões e Sporting de Braga, todos com uma vitória. Note-se, portanto, que apenas setubalenses, conimbricences, aveirenses e bracarenses (num total de 6 edições) levaram a Taça para fora da Grande Lisboa e do Grande Porto. Triunfos de equipas claramente do Interior nem vê-los. E ilação arrepiante, e não apenas na dimensão futebolística, nunca uma equipa do Interior ganhou qualquer das duas principais competições do futebol em Portugal, ao longo de quase 7 décadas. Continuando na Taça de Portugal, igualmente impressionante é a estatística que nos diz que apenas por seis vezes a final não envolveu um dos três grandes (que estiveram portanto em mais de 90% das finais), sendo que em 20 ocasiões (cerca de 30% do total) a final foi disputada entre dois deles.

Um futebol e uma sociedade feitos à medida dos “grandes”?

A hegemonia asfixiante dos três grandes em Portugal em termos desportivos apenas tem paralelo nas “Ligas” da Grécia e Turquia, que apresentam resultados semelhantes ao nosso, com os títulos nacionais concentrados em poucos clubes.
Curiosamente, se não é novidade que em países detentores de grande tradição no futebol (casos da Inglaterra, Alemanha, Itália, Holanda e França) existe uma competitividade histórica muito desenvolvida, mais surpreendente se mostra o equilíbrio de valores na história dos campeonatos de países com menos tradições futebolísticas.
Tendo em conta os dados analisados, designadamente em relação a Portugal, Grécia e Turquia, parece plausível afirmar que o poder concentrado num número reduzido de clubes - verdadeiras instituições sociais, que devido à sua hegemonia não permitem o crescimento e afirmação de outros clubes, tem mais a ver com os contextos sociais do que propriamente com a tradição e a qualidade futebolística.
Portugal, Grécia e Turquia partilham muito mais do que simplesmente o amor concentrado e desmedido a três ou quatro clubes. São qualquer um deles, países mais atrasados do que a média europeia, com grandes dificuldades de desenvolvimento económico e desportivo, que viveram muito tempo em ditadura, com modelos políticos e sociais extremamente centralistas.

E pormenor importante: são, qualquer um deles, países em que o futebol tem uma popularidade enorme, assumindo foros de paixão nacional, despertando sentimentos muitas vezes quase descontrolados.
Em Portugal, como na Grécia ou na Turquia, a hegemonia desportiva dos “grandes” estende-se à dimensão social - no caso português os milhões de adeptos portugueses dividem-se quase todos por estes três clubes, o que obviamente não contribui em nada para o desenvolvimento do futebol português, limitando fortemente a capacidade de outros clubes se imporem, designadamente por falta de base social de apoio. Mas isso é uma outra história, que ficará para outro post…

Nota: Este e outros assuntos – designadamente de futebol internacional em ligação com a questão da globalização - vão ser abordados em breve numa conferência internacional intitulada “Futebol Globalizado” para que chamo a vossa atenção. Voltarei ao tema mas para já podem saber mais em http://www.ics.ul.pt/agenda/agendageral/2006-04/gf-flyer-pt.pdf

João Nuno Coelho

Publicado por terceiro anel às 12:29

Comentários

Pelo segundo ano consecutivo a Liga termina com emoção até ao fim, e que assim seja sempre! Para o ano desejo melhor futebol, menos medo dos pequenos face aos grandes, mais espetaculo, melhores arbitragens, mais fair play, e Sporting campeão!!!
Isto é o nosso ópio, e não trocava esta "pedrada" por nenhuma outra. VIVA O FUTEBOL!

GOLOS do rio ave-SPORTING, resumo de jogo e polémicas aqui:
http://garraleao.blogspot.com

#1 | Comentado por: El Pibe | 9 de agosto de 2006 às 14:10

um artigo interessante e com fundamento. te no entanto um sentido vago, pois aponta o efeito da concentração, mas não vai ao fundo do problema, que é dissecar as causas.
mas isso não interessa aos adeptos deste site, não fosse isso uma das causas....

#2 | Comentado por: davidferreira | 9 de agosto de 2006 às 14:10

É o que eu estava dizendo outro dia: são sempre os 3 bam bam bam de sempre que levam os canecos. Isso tem que mudar. Quanto mais equipes ganharem campeonatos, melhor e mais forte será o campeonato nacional! Além dos 3 só o Boavista e o Belenenses conseguiram vencer o nacional. É muito pouco! Mais de 70 anos de campeoanato e sempre os mesmos a vencerem. Na Itália, na Espanha, na Inglaterra clubes pequenos já conquistoaram camp. nacionais. Pq é que em Portugal um clube pequeno não pode ganhar nunca? aqui no Brasil o campeoanto brasileiro começou em 1971 e o Guarani de Campinas, que é pequeno, conseguiu vencer o Palmeiras na final de 1978.
O campeonato deveria ser repensando para mudar essa estrutura.

beijos.

#3 | Comentado por: Elizane | 9 de agosto de 2006 às 14:10

Para um país de 10milhões não me parece nada anormal. V. Bélgica e Holanda.

Em Espanha e Itália (países de 40milhões) também não foram muitos mais a ganhar os campeonatos. Alemanha idem,idem "". Escócia nem se fala.

Excepções: Brasil, França, Inglaterra (no passado longínquo), talvez a Argentina e poucos mais.

#4 | Comentado por: Johnny Rook | 9 de agosto de 2006 às 14:10

Acho é que devia haver outra competição estilo taça da Liga. Ficava campeonato, taça, e taça da liga.

#5 | Comentado por: El Pibe | 9 de agosto de 2006 às 14:10

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