« Curiosidades | Entrada | Futebol dos tempos modernos »
segunda-feira, 22 maio 2006
Co Adriaanse em discurso directo
Categoria: Col: Luís Gomes , FC Porto
Ainda hoje tenho (muita) dificuldade em encontrar um portista que ‘goste’ do treinador que ganhou a dobradinha.
Na verdade grande parte da opinião critica falada e escrita passou dois terços da passada época criticando o treinador holandês. Motivos não faltavam: era o modelo não adaptado a Portugal e aos seus jogadores, era o modelo demasiado ofensivo especialmente para a Liga dos Campeões, era a insistência no Jorginho, as dificuldades de expressão e compreensão de português a transformar cada flash interview numa fonte de polémicas, a forma como colocou suplente o Vítor Baía e, a já famosa, teimosia em geral.
Ora a dobradinha ficou confirmada e a única coisa que fui lendo e ouvindo, é que Adriaanse afinal foi coerente (e não teimoso) sendo premiado por isso.
Vendo o trabalho desenvolvido durante a época e a evolução durante a mesma, parece-me que a opinião pública está a dever um reconhecimento generalizado ao holandês pelo trabalho realizado. Acho que não é necessária muita análise para verificar que foi construída uma equipa, passando por várias etapas, nem todas elas óbvias, com o mérito do resultado final – a construção de uma nova equipa forte e vencedora – a dever ser atribuído em grande parte a Co Adriaanse.
Agudizando ainda mais o óbvio mérito de Adriaanse são as sucessivas análises que se fazem de quem foi o jogador chave das vitórias desta época: Quaresma, Lucho, Paulo Assunção e Pepe, e até mesmo Raul Meireles. Já ouvi ou li boas justificações para considerar cada um destes mais decisivo. Ora numa equipa em que 5 jogadores podem ser considerados tão importantes, quando alguns eram dados como dispensáveis na pré temporada e apenas Lucho partiu como titular indiscutível, muito mérito de construção deve existir.
A entrevista que o técnico do F.C. Porto dá hoje ao jornal ‘O Jogo’ só reforça a minha opinião de que o sucesso do F.C. Porto teve muito menos relacionado com ‘teimosias’, do que com um trabalho estruturado e convicto, baseado em princípios que o técnico holandês já amadureceu durante toda a sua carreira e acerca dos quais parece ser intransigente.
Para qualquer adepto de futebol, ver com tanta clareza explicadas tantas escolhas e decisões é sempre muito estimulante. Surpreende também pela positiva a grande humildade do holandês – atribui o êxito à organização no clube, às boas escolhas dos jogadores pela SAD (incluindo a ‘prenda de Natal’ do Presidente, Adriano), às condições de treino, ao staff técnico e médico, etc. Assume sem complexos que foi uma das melhores defesas europeias, não por opção mas ‘por acaso’, como consequência directa da tentativa de implementar um modelo que garantisse mais golos.
Para si só colhe um mérito: ter errado muitas vezes, mas menos vezes das que acertou. Até relativamente ao jogo decisivo, consegue ter a frieza de reconhecer de que Quaresma deveria ter sido expulso...
Também nesta entrevista defende a necessidade do futebol ser espectacular para se conseguir auto sustentar enquanto negócio ou o desejo não concretizável de ser totalmente aberto com a imprensa, como forma de dar toda a informação necessária aos adeptos, para perceber as suas escolhas.
De passagem morre o mito de que Baía deixou de jogar por não saber jogar com os pés tão bem como Helton (quantas dúzias de vezes li essa justificação?) e ficamos a saber que com o holandês quem não treina sempre a 100%, não tem lugar no onze… ou tão pouco no plantel. A necessidade de moderação das trivelas de Quaresma ou a esperança em Anderson, a explicação para a quebra de forma de Lisando ou para a saída da equipa de Diego – está tudo lá.
Leiam tudo AQUI que vale bem a pena.
"Não conhecia grande coisa sobre o futebol português, sobre as ideias dos outros treinadores, sobre os estádios ou até sobre a qualidade dos relvados, e sobre os jornais desportivos diários, que não existem na Holanda."
"Fazer uma equipa é um processo demorado. Mais ainda para jogar no sistema que nós utilizamos. Jogar como nós fazemos é muito, muito difícil".
"O FC Porto ganhou muitos títulos antes de eu cá chegar e é um clube que conhece muito bem o mercado e que compra excelentes jogadores. Só se pode ganhar um campeonato com bons jogadores e foi isso que eles me deram: excelentes jogadores. Sem eles nunca teria construído uma equipa vencedora."
"A equipa mudou radicalmente depois do Estrela da Amadora. Achei que esse era o momento certo para dizer 'acabou' e para tornar a equipa absolutamente fiel aos meus conceitos e à minha filosofia de jogo."
"É como ter um jardim. O FC Porto tem de plantar aquilo de que precisa e esperar que cresça. Enquanto isso, Chelsea ou Barcelona vêem o que nós plantámos e compram já crescido. E nós voltamos a ter de plantar."
"O Pepe não pode sair, o Paulo Assunção não pode sair, o Helton não pode sair, o Lucho não pode sair, o Quaresma não pode sair e o Adriano tem de ficar."
"Chegou sozinho do Brasil, a um ambiente novo e pensava que era o melhor do Mundo, porque todos os dias lia isso n'O JOGO. Houve muita publicidade durante meio ano. Eu próprio pensei que não voltaríamos a perder, porque vinha aí o Anderson, que é tão bom jogador."
"Não tiro um jogador porque comete um erro num jogo. A razão não foi essa. Foi a decisão mais difícil, para mim, na época inteira. E expliquei-a ao Baía."
"O golo do Jorginho em Alvalade foi o mais importante de toda a época, mas a atitude do Quaresma também podia ter sido decisiva. Se o árbitro lhe tivesse dado vermelho, e devia ter dado, passaríamos a jogar com dez e o Sporting talvez ganhasse e talvez acabasse campeão na nossa vez. Foi preciso dizer ao Ricardo 'não voltes a fazer isso, estás a ganhar-nos o campeonato com as tuas acções, com os teus cruzamentos, mas também podes perdê-lo'. Tem de aprender. Se aprender, será um jogador melhor."
"O problema dele é que não marca golos. É mais de entregar a bola do que de procurar a baliza. Lisandro, por exemplo, é um dez que faz golos. Diego é um grande jogador, mas precisa de defender mais, precisa de aumentar o seu raio de acção, de correr maiores distâncias e precisa de aprender a marcar golos."
"Avisei-o uma, duas, três vezes e afastei-o. Se não, os outros jogadores, que ouviram, teriam legitimidade para pensar, 'se ele não dá cem por cento, por que hei-de eu fazê-lo?', e lá se ia a equipa. Essa é a razão de ter passado aos bês. Não é por ser mau jogador."
"Havia sempre uma senhora de idade no aeroporto que me ameaçava por não usar o Jorge Costa. Agora usa uma camisola do Pedro Emanuel. Tenho de passar a ter cuidado com ele."
"No princípio, disse-lhes que era aberto e que a Imprensa tinha o direito de saber tudo, para poder explicar aos adeptos, de forma a que eles entendam melhor o FC Porto, os jogadores e a mim próprio, mas a verdade é que isso não funciona em Portugal."
Publicado por Luis Gomes às 17:56
Comentários
Obrigado Co. Adrtiaanse e obrigado Luís Gomes pelo teu post.
Eu fui um dos portistas que o criticou, poucos não o devem ter feito, porque Adriaanse faz parte daquela galeria de notáveis (como Scolari) de treinadores que são muito bom preparadores fisicos e estimuladores mentais, conseguindo grandes equipas, tornando balneários caóticos em grandes grupos coesos e motivados. Falta-lhes (falo outra vez tb de Scolari) é leitura de jogo por vezes, muitas vezes. São teimosos. Adriaanse acertou com as substituições no jogo de Alvalade, Scolari acertou no jogo com a Inglaterra. No entanto este falhou redondamente nos dois jogos com a Grécia onde a sua teimosia nos enterrou tal como o Co. estragou tudo com Artmedia ou Rangers. Mas pronto eles lá sabem, e desejo tudo de melhor ao brazuca e à nossa selecção e que sejam no mínimo tão felizes como o Co. acabou por ser no Porto este ano.
POoooooorto Allez!
#1 | Comentado por: Nuno Leal | 9 de agosto de 2006 às 14:08
Comente
Obrigado por se registar, . Já pode comentar. (Sair)
(Se nunca comentou aqui o seu comentário pode ter de ser aprovado para publicação pelo editor do blogue. Terá de esperar por essa aprovação para que o seu comentário surja. Obrigado pela espera.)Trackback Pings
TrackBack URL para esta entrada:
http://terceiroanel.weblog.com.pt/privado/tra.cgi/131914