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quarta-feira, 5 julho 2006

França-Portugal: Antevisão

Categoria: Mundial 2006

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Este será um jogo que ficará para a história, seja qual for o resultado! A presença de ambas as equipas nos quartos-de-final é motivo de orgulho, já que poucos eram os que se atreviam a prever este desfecho. Trata-se sobretudo de um jogo entre duas equipas coesas que se encontram preparadas para anular o adversário e aproveitar os erros destes; mas que possuem no seu elenco jogadores com talento suficiente para num momento resolver o jogo. Em suma: tem tudo para ser o melhor do Mundial!

Começando por Portugal, o regresso de Deco e Costinha permitirá a Scolari colocar em campo a sua equipa e (re)construir o triângulo de meio-campo que tantas alegrias tem dado ao futebol inglês. Confirmando-se as melhorias de Figo e Cristiano Ronaldo, nada deverá mudar no esquema luso que irá centrar o seu jogo nos passes rápidos e precisos de Maniche, nas rupturas de Deco, nos arranques de Cristiano Ronaldo e nas investidas de Figo com o apoio de Miguel! Nada de novo no papel, no campo ver-se-á.

Também do lado francês não existem motivos para Domenech proceder a alterações. A equipa gaulesa realizou a melhor exibição dos quartos-de-final e parece ter recuperado a classe e organização que fizeram dela a melhor do mundo no final da década de ‘90. Zidane joga com uma alegria nunca vista e solta classe a cada toque de bola, e Vieira voltou a ser o rolo compressor no meio-campo, Henry agora mais solto que no início do torneio um perigo constante e Ribery uma ameaça permanente. Uma vez mais será no relvado que estas teorizações se comprovarão ou não!

O meio-campo

O encaixe das equipas parece perfeito já que o 4-3-3 é o sistema predilecto de ambas. Existem no entanto algumas nuances que poderão fazer o jogo pender para um lado ou outro e que tentarei agora explorar. Desde logo, o facto de Zidane não apoiar nas tarefas defensivas como Deco faz obriga aos franceses usar um doble-pivot puro formado por Vieira e Makelele; Portugal por seu lado faz Maniche jogar numa posição intermédia entre Costinha e Deco. Embora parece evidente um emparelhamento triplo, a maior disponibilidade defensiva de Deco dará a Portugal supremacia defensiva, já que o ‘Mágico’ poderá vigiar Vieira libertando Maniche para seguir Zidane e soltando Costinha no apoio ao quarteto defensivo. A contrapartida francesa é que Zidane fica solto para lançar rapidamente o contra-ataque ao não recuar.

Defender os franceses

E falando precisamente dos ‘lançamentos’ de Zidane é importante que Costinha, quando Portugal se encontra na posse de bola, se cole ao ‘Mago’ e jogue em antecipação no caso de perdas de bola. ‘Zizou’ tem o hábito de flectir para um dos flancos quando a sua equipa defende de modo a estar pronto a receber a bola, sendo aqui que a selecção portuguesa terá de ter cuidado. O lado para o qual Zidane descai indicia o tipo de jogada de contra-ataque que a França irá utilizar: quando descai para a direita, Zidane abre espaço para Vieira entrar pelo meio, sendo que nesta situação ou a bola segue para o médio ou segue pela linha para Ribery, juntando-se Vieira a Henry nas imediações da área; quando Zidane surge pela esquerda, a tendência é flectir para o centro em paralelo com a linha central, para efectuar passes rasgados na perpendicular para Henry, ou na diagonal para Ribery tirando partido da velocidade destes. De referir ainda que na primeira situação Vieira ao receber a bola numa zona mais recuada procura de imediato lançar um dos homens da frente em profundidade; tarefa também executada amiúde por Sagnol e Thuram com passes longos em diagonal para o flanco esquerdo onde surgirão Malouda, Zidane ou Henry.

Henry que mesmo melhorando sofre um pouco por estar demasiado ‘amarrado’ a uma posição de ponta-de-lança que não o permite aproveitar todo o seu potencial. Tal como faz no Arsenal, ‘Titi’ é um jogador que rende mais quando surge em diagonal da esquerda para o centro e embalado, ou seja partindo de uma posição mais recuada. Domenech (felizmente no caso de amanhã!) não entende assim e deixa essa posição a Malouda, um jogador também extremamente rápido mas menos acutilante; por outro lado o jogador do Lyon é tacticamente mais ‘responsável’ defensivamente. Ainda assim, Miguel terá de ter atenção a este jogador que não hesitará em aproveitar as subidas do lateral para surgir nas suas costas (será interessante ver as disputas em sprint dos dois jogadores); contrariamente a Ribery do lado oposto, Malouda conduz quase sempre as suas jogadas para a linha de fundo à procura de um cruzamento. Portugal poderia ter grandes problemas se Domenech deslocasse Henry para uma posição mais recuada na meia-esquerda, mais propriamente no centro do hipotético triângulo posicional formado por Miguel-Meira-Costinha, lançando Trezeguet para ponta-de-lança. As subidas de Miguel iriam dar espaço a Henry para arrastar Meira para terrenos onde iria sentir mais dificuldades em travar o avançado francês.

Falta falar naquele que poderá ser a maior ameaça no jogo de amanhã: Frank Ribery! O extremo do Marselha pegou de estaca numa selecção já formada e que dispõe de jogadores de grande qualidade para a sua posição, e tem demonstrado neste Mundial o porquê desse sucesso. Jogador rápido e tecnicamente evoluído (aliás como a grande maioria dos jogadores franceses), sente-se confortável encostado à linha ou flectindo para o centro no apoio a Zidane e/ou Henry. Nuno Valente deverá sentir face a Ribery as mesmas dificuldades que teve ante a Lennon, embora desta feita ante um jogador menos rápida mas tecnicamente muito superior ao inglês.

Os lançamentos em profundidade são a arma preferencial gaulesa. Scolari terá que optar entre subir a defesa procurando o fora-de-jogo confiando na velocidade de Ricardo Carvalho para resolver possíveis ‘erros’; ou defender em maior ‘profundidade’ procurando aqui anular a velocidade dos avançados gauleses retirando-lhes espaço para correr. As bolas paradas serão um outro aspecto importante, como os jogos que os franceses realizaram com Espanha e Brasil provam. Patrick Vieira, Lilian Thuram e William Gallas são os alvos dos cruzamentos de Zidane tratando-se de jogadores de elevada estatura, Henry surge na berlinda de um ressalto ou de uma bola perdida. A marcação a estes jogadores terá de ser rigorosa e por jogadores que a saibam fazer com eficácia, o que coloca desde logo Pauleta de fora da marcação a qualquer um destes jogadores; Fernando Meira deverá ser o ‘acompanhante’ de Vieira pela óbvia questão da altura, enquanto que Gallas deve ser vigiado pelo companheiro de equipa Ricardo Carvalho que conhecerá o central francês suficientemente bem para saber o seu comportamento na área adversária. Pelo seu joga aéreo Costinha deverá ficar encarregue de Thuram, enquanto que Nuno Valente deverá vigiar as movimentações de Henry.

Ao ataque!

Disposicionar a defensiva francesa será uma tarefa hercúlea para a formação nacional. Abidal quase nunca transpõe a linha de meio-campo e Sagnol apenas o faz pela certa. Os franceses defendem melhor junto da sua área, formando um bloco coeso, pelo que as recuperações no início da construção de jogo serão importantes. Pauleta terá de pressionar a defesa contrário bem mais do que o que tem feito, com o apoio de Figo e Cristiano Ronaldo; Deco e Maniche serão as peças-chave nesta manobra pela sua capacidade de pressão alta e índice de recuperação de bolas. A velocidade de circulação de bola será crucial para criar rupturas na defesa gaulesa, e se Deco e Maniche são mestres na arte de fazer a bola circular a grande velocidade, Vieira e Makelele não menos o serão a tapar as linhas de passe e a pressionar o adversário. Será essencial evitar confrontos de um-para-um entre Deco e Vieira devido à disparidade física entre ambos; o ‘20′ português deverá sim procurar fazê-lo com Makelele, embora o jogador do Chelsea quando em situações dessas procure controlar o adversário e permitir a reconstituição do bloco defensivo do que arriscar ser batido.

Nos extremos a tarefa não se avizinha nada fácil dada a qualidade de Sagnol e Abidal. Quer Figo quer Ronaldo deverão procurar preferencialmente a finta para dentro, tirando proveito do ‘pé menos bom’ do adversário e colocando-se em óptima situação para: a) cruzar em diagonal para o segund poste; b) assistir um companheiro à entrada da área (importâncias das entradas de Maniche); c) tabelar com um companheiro (Deco é exímio neste apoio na quina da área); d) rematar cruzado em arco para o segundo poste (i.e. imitar o Henry).

O papel de Pauleta entre os centrais será fundamental, pelo que o seu rendimento terá de ser bem superior ao do jogo de Inglaterra. Ao ‘Ciclone dos Açores’ pede-se que jogue no risco de fora-de-jogo quando a equipa estiver em posse de bola na zona de meio-campo e nas transições para contra-ataque; preferencialmente sob a meia-esquerda de modo a receber a bola em condições para desfeitear Barthez. A preferência pela zona esquerda do terreno tem também a ver com o facto de Gallas reagir mais rapidamente que Thuram (embora a diferença não seja por aí além). Ao ponta-de-lança português pede-se ainda que se coloque em posição para receber cruzamentos ao primeiro poste para anular a capacidade de jogo aéreo dos centrais franceses; esta é aliás uma das características principais de Pauleta, a de surgir do centro para o primeiro poste para desviar com um remate certeiro ou com uma cabeçada bem colocada. Estranhamente, pouco se tem visto Portugal recorrer a esta arma que deverá ser usada preferencialmende sobre o lado direito e em diagonal, i.e. os cruzamentos devem ser feitos a meio do meio-campo defensivo francês para assim retirar a vantagem posicional aos centrais.

Os confrontos entre Portugal e França trazem-nos à memórias as desilusões de ‘84 e ‘00 - para não falar dos 4-0 que se seguiram ao Euro! Infelizmente parece que este Mundial é um longo reviver da história. Esperemos que Portugal seja o primeiro a quebrar tradições!

Publicado originalmente em Lugar Cativo

Publicado por bruno ribeiro às 01:53

Comentários

Eu já fiz a minha parte, acabei de papar uma francesinha ao almoço, espero que os nossos rapazes "comam" ao jantar os galos de crista arrebitada. FORÇA PORTUGAL.

#1 | Comentado por: olavoafonso | 13 de agosto de 2006 às 17:30

Em relação ao posicionamento da defesa portuguesa, creio que o ideal será mesmo jogarem mais recuados. Nem mesmo Ricardo Carvalho consegue compensar a velocidade de Henry.

De resto concordo, mas se levarmos com a França do jogo contra o Brasil (o melhor jogo de todo o mundial, não só dos quartos de final, na minha opinião) estamos simplesmente quinados...

#2 | Comentado por: João André | 13 de agosto de 2006 às 17:30

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